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ENTROPIA PSÍQUICA
E
EDUCAÇÃO DAS EMOÇÕES

Jair de Oliveira Santos*

Conferência proferida no XXVI Congresso Latino Americano de Análise Transacional, em 2006.

INTRODUÇÃO
Este trabalho é uma reflexão que tem como objeto a Educação das Emoções e suas interfaces com o Paradigma Termodinâmico1, Teoria dos Sistemas17, Biologia, Medicina, Neurociências e Administração. Realça a importância do conceito de entropia psíquica para a Educação das Emoções, considerando pesquisas realizadas no campo da psicologia, na última década do século XX e início deste século.
Analisa a entropia na perspectiva do Segundo Princípio da Termodinâmica, seu significado nos sistemas biológicos, a entropia psíquica e a “entropia existencial”.

Pressupostos epistemológicos
Os pressupostos epistemológicos das reflexões que se seguem são do Paradigma Termodinâmico e da Teoria dos Sistemas.

Paradigma Termodinâmico
O Paradigma Termodinâmico nos permite conceber e apreender algumas facetas da realidade dentro da perspectiva de leis físicas universais. Ao adotá-lo como referencial epistemológico, não significa que acreditemos que tal paradigma, fundamentado em leis estabelecidas mediante a observação de um mundo inerte, não vivo, não consciente, permita a compreensão global de todos os fenômenos da vida e da sociedade, relacionados com o ser vivo, o consciente.
Significa que, dentro do instrumental utilizado para a compreensão da realidade, ele é epistemologicamente válido, na medida que as conclusões das reflexões sejam apreciadas com suficiente senso crítico, e convalidadas por fatos experimentais consensualmente aceitos pela comunidade científica.
A Termodinâmica é a parte da Física que estuda as relações entre as várias formas de energia, como por exemplo as transformações do calor em trabalho e do trabalho em calor e fundamenta-se em dois princípios.

Primeiro Princípio da Termodinâmica2
Também conhecido como Princípio da Conservação da Energia, pode ser enunciado de diversas formas e uma delas é a seguinte:
“É constante a energia do universo”.
Significa que é possível a transformação de qualquer forma de energia em outra, mas que a energia final do sistema tem de ser igual à inicial. Durante as transformações energéticas o sistema não tem a capacidade de criar energia, mas apenas de transformá-la em outra modalidade.

O Primeiro Princípio estabelece apenas a equivalência entre as diversas formas de energia. Estabelece ser possível transformar-se energia térmica em elétrica (como nos geradores termoelétricos) ou mecânica (no trabalho mecânico das máquinas, como as locomotivas a vapor); transformar energia elétrica em térmica (nos ferros elétricos) ou acústica (nos aparelhos de som), e assim por diante. Mas, em qualquer caso, a energia total do sistema considerado é constante.

Segundo Princípio da Termodinâmica2
Experimentalmente verifica-se que qualquer forma de energia pode ser integralmente transformada em calor, como por exemplo ao esfregar uma mão na outra, o trabalho mecânico é transformado em calor e a mão fica aquecida. Entretanto a transformação inversa, de calor em outra forma de energia, não é possível de forma integral, pois sempre uma parte da energia calorífica não é transformada na outra, ela é “perdida”, é “degradada”.

A transformação do calor em outras formas de energia é feita pelas máquinas térmicas, e o segundo princípio da Termodinâmica se refere exatamente aos limites e possibilidades desta conversão, podendo ser enunciado de diversas formas. Este é o enunciado de Kelvin-Plank2:
“É impossível a qualquer máquina térmica que funciona por ciclos, receber calor de uma única fonte e produzir uma quantidade de trabalho equivalente ao calor recebido”.

Outro enunciado é:
“ Nenhuma máquina térmica pode ter rendimento de 100%” 2.
Como não é possível a transformação de todo o calor fornecido ao sistema em trabalho, diz-se que a parte de energia calorífica não convertida é “degradada”. O conceito de entropia foi criado para aferir o nível desta energia degradada.

* Médico, Prof. de Medicina, Pedagogo e Especialista em Educação.

Entropia
A entropia afere a desordem de um sistema2, e a experiência seguinte esclarece seu significado: aquecendo-se um gás em um recipiente, a energia térmica fornecida vai se transformar em energia cinética das moléculas gasosas, que aumentam suas velocidades, e aumenta também a pressão exercida pelo gás nas paredes do recipiente. Aumentará o movimento caótico das moléculas gasosas, e a desordem no interior do sistema – aumentará a entropia do sistema.
Em contrapartida, se as paredes do recipiente forem resfriadas, a redução da temperatura vai diminuir a energia cinética das moléculas gasosas, e seus movimentos passarão a ser menos caóticos. Vai diminuir a desordem do sistema, sua entropia.

A entropia pode aumentar ou diminuir, na medida em que aumente ou diminua a desordem sistêmica. Num gás resfriado até o zero absoluto de temperatura (273 graus centígrados, ou zero grau da escala Kelvin), as moléculas gasosas ficarão em repouso, paradas, e a entropia do sistema é nula.
Paralelamente ao conceito de entropia, foi criado o de negaentropia, ou entropia negativa, que afere a ordem do sistema. No zero absoluto de temperatura, a negaentropia é máxima e a entropia é nula. O aumento de temperatura é entrópico e a diminuição da temperatura é negaentrópico.

Teoria dos Sistemas
Segundo Capra17 a concepção sistêmica vê o mundo em termos de relações e de integração, em vez de considerá-lo constituído de partes isoladas, de elementos que atuam independentemente uns dos outros, con-forme o concebe a cosmovisão do modelo cartesiano- newtoniano.
Os sistemas são totalidades integradas cujas propriedades não podem ser reduzidas às de suas unidades. As propriedades características de um sistema dependem da interação simultânea, da interdependência e da integração existente entre suas unidades, e determinam sua estrutura e atividades.

Os organismos vivos, desde os mais simples até os mais complexos como os humanos, são sistemas que atuam como totalidades integradas, e para sobreviverem precisam trocar matéria e energia com o meio ambiente – são sistemas em evolução, abertos a trocas de energia. As células são sistemas vivos, assim como os vários tecidos e órgãos do corpo humano que constituem o sistema cardiovascular, o respiratório, o digestivo, o ner-voso, etc.

O conceito de sistema é também aplicado aos organismos sociais – a família, o formigueiro, a colméia, um cardume são exemplos de sistemas sociais. Os ecossistemas são formas especiais de sistemas constituídos por matéria inanimada e de uma variedade de organismos que interagem mutuamente, constituindo uma teia complexa de relações.
Os sistemas têm natureza dinâmica por excelência e suas estruturas são flexíveis e maleáveis, embora gozem de certo grau de estabilidade.

Entropia nos Sistemas Biológicos
Um sistema biológico é aberto, e para manter-se vivo necessita do aporte de energia externa, principalmente sob a forma de alimentos. Com o passar do tempo, sua entropia tende a aumentar, e a ordem existente ten-de a transformar-se em desordem, com a deterioração das suas funções, culminando com a morte do organismo. Daí dizer-se que o sentido da entropia é o sentido do tempo - quanto mais tempo um sistema biológico vive, maior é a degradação da sua ordem interna.

Nos sistemas biológicos, pelo Segundo Princípio da Termodinâmica, parte da energia que chega é transformada em energia útil e a parte restante é degradada, é inútil, não pode ser utilizada nos processos metabólicos. Como pelo Primeiro Princípio da Termodinâmica a energia dentro do sis-tema é constante, não pode ser criada por ele, é necessário o aporte de energia externa para manter sua estrutura, para ele funcionar e lutar contra a entropia, compensando a inevitável perda de sua própria energia.
É nesse sentido que Schrodinger, prêmio Nobel de Física de 1933, criador da mecânica quântica e da mecânica ondulatória, afirmou que o organismo vivo “extrai ordem do próprio ambiente”. O organismo vivo com-bate a desordem entrópica interna inerente ao seu processo de existir retirando energia do ambiente em que vive, e tal condição estabelece a diferença termodinâmica entre o vivo e o não vivo. A matéria viva tem a capacidade de extrair do meio ambiente a energia que precisa para manter sua estrutura e diferenciação, para manter sua “ordem” e impedir que a desordem entrópica impeça seu funcionamento.

A natureza, no sentido de garantir a manutenção e a perpetuação das espécies, criou outros fatores negaentrópicos que atuam reduzindo os efeitos da entropia e do tempo, como veremos adiante.
Os fatores que surgem em um sistema biológico para aumentar a ordem interna são denominados de negaentrópicos. É o caso das enzimas que agem, catalizando reações bioquímicas, de modo a estabelecer uma certa “ordem” interna. Elas garantem que funcionem adequadamente os metabolismos das proteínas, glúcidas, lípidas, e o metabolismo orgânico de um modo geral, contribuindo para a manutenção da homeostase sistêmica, que é o equilíbrio do meio interno. São agentes anti-entrópicos, agindo para manter a ordem interna do sistema, dentro dos limites possíveis.

Um exemplo é a creatinofosfocinase, enzima que cataliza reversi-velmente uma reação química na qual é liberada a energia biológica ne-cessária para a manutenção da vida (Santos3) em que a creatina reage com o adenosinotrifosfato (ATP), na presença da creatinofosfocinase (CPK), tendo como produto final o adenosinodifosfato (ADP) e a fosfocreatina, com liberação de energia, que fica disponível para o metabolismo e para as atividades orgânicas. Ela garante o funcionamento dos músculos, como por exemplo para o coração bombear o sangue dos ventrículos para todo o corpo.

CPK
CRE + ATP  -  P CRE + ADP + energia

O autor acredita que o homem é um ser entrópico, apesar do corpo humano funcionar como um sistema aberto, recebendo aporte energético de várias fontes externas de energia, principalmente sob a forma de alimen-tos, de energia psíquica e sob outras formas, como a térmica e a eletro-magnética solar.

A energia alimentar introduzida no organismo humano é submetida a transformações metabólicas12, para poder ser utilizada pelos diferentes órgãos e sistemas, passando pelas etapas do anabolismo (assimilação da energia) e do catabolismo (degradação da energia). No processo metabólico há um certo grau de degradação da energia, que aumenta com a idade da pessoa. Na idade avançada, os sistemas biológicos responsáveis pela manutenção da homeostase orgânica, graças ao aumento da desordem, da entropia, reduzem a capacidade funcional dos órgãos.

Nesta situação há redução generalizada da atividade das enzimas, e, no caso da CPK, não é mais liberada a quantidade de energia necessária para os músculos que se contraírem de modo adequado, ficando o idoso com diminuição da força muscular e dificuldades de locomoção, devido à contração muscular deficitária.

Na medida que o organismo envelhece, o catabolismo celular predomina sobre o anabolismo, e cresce a entropia. Isto possibilita o surgimen-to de duas situações que evidenciam o caráter entrópico do ser humano: a doença e a morte. Se o catabolismo não predominasse sobre o anabolismo, se a entropia não preponderasse sobre a negaentropia, doença e morte não existiriam. Isto só seria possível se os mecanismos orgânicos de auto-regulação de energia, pudessem igualar a velocidade de utilização da energia, à velocidade de sua produção, o que é uma utopia.

Somente uma fração da energia liberada pelos processos metabólicos é efetivamente utilizada pelas células. Grande parte da energia produ-zida no metabolismo não fica disponível para uso, e é “degradada” sob a forma de calor, perdendo-se em reações colaterais, gerando a inevitável entropia orgânica. Os mecanismos que convertem energia livre em formas úteis para o metabolismo, são realizados com desperdício energético. É o caso do trabalho gerado na contração muscular, na secreção e absorção renal, nas reações de síntese anabólicas e nas reações que geram os impulsos elétricos nervosos.

ENTROPIA PSÍQUICA
Os processos descritos anteriormente ocorrem em todas as células orgânicas, e considerando os fenômenos psicológicos com epifenômenos dos processos biológicos4, acreditamos que os processos entrópicos estão presentes na dimensão psicológica do ser humano, tanto quanto na dimensão biológica. A mente humana, epifenômeno cerebral, é um sistema constituído por vários componentes–atenção, conhecimentos, memória, emoções, pensamentos, intenções, vontade, impulsos, instintos, desejos, etc.

Para Csikszentmihayi5, a consciência, resultado da evolução do sis-tema nervoso central, é um sistema de informações capaz de diferenciar uma grande quantidade de estímulos, selecioná-los e focalizar uma parte deles, e com a capacidade de armazenar as informações recebidas de forma a poder recuperá-las posteriormente, de um modo utilizável.

Para Damásio23 a consciência de um organismo é o conhecimento da percepção do estímulo nele provocado por um objeto, real ou evocado. Esta percepção de faz no córtex cerebral através de padrões neurais, de uma imagem que pode ser visual, auditiva, tátil, gustativa, olfativa ou visceral. É graças à nossa consciência que sabemos de nossa própria existên-cia, de nossas idéias e pensamento, de nosso corpo e dos objetos que nos cercam.

A consciência surge em um organismo quando ele percebe que foi alterado pela ação de um objeto e tem um sentimento de que isto ocorreu. Ela apareceu como conseqüência do processo de evolução dos seres vivos e está vinculada à sobrevivência. É uma resposta, uma reação, à necessidade de adaptação do organismo, tanto ao ambiente externo que o envolve, quanto ao ambiente interno, que o constitui , seu próprio corpo, seus órgãos e fluidos, e garante sua sobrevivência. Por isto, quando o organismo morre, como a consciência perde sua função,ela se extingue.

Para Damásio23, os organismos equipadas com consciência desenvolvem a capacidade de saber que têm sentimentos e emoções e por isto possuem maior capacidade de regulação, pois a consciência permite que os sentimentos - enquanto experiências mentais das emoções - sejam conhecidos, bem como as emoções que os determinaram, possibilitando a ocorrência de uma relação com o processo de pensamento que traz melhores resultados para as funções adaptativas orgânicas e a sua sobrevivên-cia. Lembrar que as emoções são formas de adaptação dos seres vivos.

O autor citado (op.cit.) diferencia a mente da consciência, e para ele a mente é mais ampla que a consciência, que é a parte da mente relacio-nada com o sentido manifesto do self. Ela contém, além da consciência, as imagens e os padrões neurais originados no proto-self, que por suas próprias naturezas, não são conscientes. Argumenta que em um paciente em estado vegetativo, a mente funciona, mas ele não tem consciência.

Para ele as raízes profundas do self encontram-se no conjunto de mecanismos cerebrais que, de modo contínuo e inconsciente, mantém o estado corporal dentro de limites estreitos e na relativa estabilidade necessários para a sobrevivência . Estes mecanismos representam de forma continuada, de modo não consciente, o estado do copro vivo, em todas suas dimensões. Ele chama de proto-self ao estado de atividade deste conjunto de mecanismos, que é o precursor inconsciente do self que surge em nossa mente como protagonista de nossa consciência.

A consciência está composta de três subsistemas funcionais: a aten-ção, o conhecimento e a memória. A atenção tem por função receber as informações disponíveis, e possibilitar o surgimento desta informação na consciência. No homem, ela se limita a discriminar um máximo de sete bits de informação por unidade de tempo. Por outro lado, os humanos podem estar conscientes de até 126 bits de informações por segundo, no máximo.

Para Csikszentmihayi5, a consciência engloba todos os processos que têm lugar na mente depois da pessoa prestar atenção a um bit de informação. Inclui etapas tais como reconhecer os estímulos, classificá-los, depois de compará-los com informações previamente existentes na memória, e nela conservá-los ou esquecê-los.

Na atividade da consciência, ele considera três processos mais im-portantes: emoção ou sentimento, pensamento ou cognição, e volição ou conação. A emoção é a atitude que a consciência adota em relação à informação que está sendo processada,basicamente em relação ao eixo “agradável - desagradável”. A volição é o processo mediante o qual a aten-ção permanece centrada em certa gama de estímulos, em vez de transferir-se para outros. O pensamento ou cognição se refere aos vários passos mediante os quais os bits de informação se reconhecem e se relacionam entre si.

Kahneman, em 1973, Hoffman, Nelson e Houck ,em 1983, e Csiks-zentmihayi, em 1998, 5 consideram a atenção como “energia psíquica”, pois ela é o agente que possibilita a produção de fatos no interior da consciên-cia. As ações não reflexas para serem executadas requerem a utilização da energia psíquica da atenção - para escutar e compreender uma conversa com outra pessoa, gastamos um terço da energia psíquica disponível naquele momento. A mente tem uma capacidade de processamento de informação limitada, e quando executamos tarefas como pegar um jornal para ler, recordar o número de um telefone, ou mesmo servir uma xícara de café, utilizamos uma parte da energia psíquica disponível sob a forma de atenção.

O segundo subsistema da consciência é o conhecimento, responsá-vel pela interpretação das informações recebidas através da atenção. A memória é o terceiro sub-sistema, e tem por função armazenar as informações. O conteúdo da consciência é a experiência, soma de todas as informações que ela contém com as interpretações correspondentes.

Efeitos das Emoções na Entropia Psíquica
Para Csikszentmihayi6, as emoções atuam no sistema psíquico em dois sentidos – aumentando a entropia, a desordem, ou aumentando a ordem, diminuindo a entropia. As emoções negativas — raiva, medo, triste-za, tédio, etc. — aumentam a entropia psíquica,a desordem mental. As emoções positivas — alegria, prazer, perdão, gratidão, fé, esperança, confiança, otimismo, etc. — diminuem a entropia mental, aumentam a ordem psíquica.

A entropia psíquica além de causar transtornos na consciência preju-dica sua eficiência, pois a atenção é desviada de outras atividades para a área conflitiva. Para compensar a ação entrópica das emoções negativas, a mente utiliza a energia da atenção, numa tentativa de restaurar o equilíbrio, e a atenção utilizada para restaurar o equilíbrio, não pode ser usada para perceber estímulos externos, para lidar com tarefas externas.

Quando você está com raiva ou medo, sua atenção está voltada para o objeto gerador da emoção alguém que lhe frustrou ou agrediu, ou algo que você teme e não pode ser dirigida para o mundo externo. Você perde a capacidade de perceber com clareza os acontecimentos externos e a capacidade de resolvê-los de forma conveniente, pois sua atenção está voltada para recompor o equilíbrio psíquico, para diminuir a entropia.
Acredita o autor deste trabalho que a questão básica do funciona-mento adequado e produtivo da mente humana é a do equilíbrio mental, da busca permanente de uma situação de equilíbrio entre a entropia e a nega-entropia, entre a ordem e a desordem, tendo como meta reduzir a entropia a um valor mínimo possível, com o predomínio da ordem sobre a desordem mental.

Acreditamos que um novo paradigma para a Educação Pós-Moderna deve dar importância significante à educação da atenção e da vontade. Isto pode ser feito, além de outras formas, através da prática da Meditação, conforme tem sido preconizado pela cultura oriental. A Meditação, em última análise, busca a ordem, a quietude e o equilíbrio da mente, em qual-quer de suas formas, quer seja em repouso ou movimento, com concentra-ção em objeto externo ou interno, com caráter reflexivo ou não reflexivo.

Dentro desta perspectiva pode-se compreender melhor as Aflições Mentais ou Delusões Mentais da Psicologia Budista, que são situações em que há aumento da entropia psíquica. Alan Wallace8, considera três aflições mentais primárias, os chamados três venenos: apego, raiva e ignorância.
A raiva inclui ódio, hostilidade, ira (explosão de raiva), ressentimento ou mágoa (mais duradouro que a raiva), rancor, inveja/ciúme (derivados do apego e da raiva), crueldade. O apego inclui avareza, empolgação (a mente fica agitada porque se desvia compulsivamente do objeto da meditação para o objeto do desejo), apatia (falta de clareza mental), auto-estima exagerada e ocultação de seus próprios defeitos (ilusão decorrente da ignorân-cia).

A diferença entre o apego e a raiva, é que o apego leva a uma fixa-ção no objeto desejado, enquanto a raiva leva a um afastamento do objeto considerado. A ignorância ou ilusão inclui a fé cega (que se diferencia da virtude da fé porque não se baseia na realidade), falta de atenção introspectiva, indolência espiritual (preguiça) e negligência (ausência de meditação de mente alerta)
Csikszentmihayi6 atribui ação negaentrópica às emoções positivas, argumentando que quando a entropia psíquica é pequena, a pessoa não precisa investir energia para refletir ou agir. Nas emoções positivas a ener-gia psíquica flui livremente na mente, para executar a tarefa ou pensamento que seja foco de atenção, no qual estamos concentrados.

Existe uma analogia com o fenômeno da supercondutividade elétrica. Os supercondutores são metais ou ligas metálicas em que há o desapare-cimento quase total da resistência elétrica quando submetidos a temperaturas muito baixas. Eles apresentam aumento da condutibilidade elétrica pois seus elétrons se movimentam com maior facilidade — há supracondutividade da corrente elétrica, porque os elétrons fluem naturalmente em grandes velocidades. Analogamente, a atividade psicológica da pessoa flui na-turalmente quando ela está com a mente em ordem, quando a entropia é pequena, quando ocorre uma emoção positiva.

Por outro lado, constatamos no nosso cotidiano que quando estamos alegres e felizes executamos nossas tarefas com mais facilidade e os resul-tados que obtemos são sempre melhores.

ENTROPIA NAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS
As emoções positivas e negativas e seus efeitos nas mentes das pessoas podem se difundir nas interações sociais, graças ao chamado espelhamento das emoções, como veremos adiante. Independentemente de haver comunicação verbal, só com a proximidade das pessoas, as emoções podem se propagar entre elas, como ocorre entre os componentes de grupos sociais.
A difusão das emoções nos grupos sociais nos permite inferir que os conceitos de entropia e negaentropia psíquica podem ser aplicados nas organizações sociais, particularmente nas organizações produtivas. Podemos então falar de Entropia nas Organizações, e admitir que a entropia interna de uma organização, a desordem em seu interior, deve interferir na sua produtividade, na sua eficiência, eficácia e efetividade.

Acredita o Autor que possa ser desenvolvida uma Teoria Geral da Entropia nas Organizações, com a finalidade de conceber-se e compreender-se, de forma sistêmica e holística, as diversas modalidades de entropia existentes em uma organização. Esta é uma tarefa que deve ser levada a cabo num esforço, ora transdisciplinar, ora interdisciplinar, cujo objetivo inicial deva ser definir as diferentes formas que a entropia possa vir a assumir no interior de uma organização, além da entropia psíquica.

Num esboço inicial, que deve ser aprofundado com a contribuição dos especialistas em Administração, acreditamos que podem ser consideradas as seguintes formas de apresentação da entropia numa organização:
• entropia cratológica ou política, relacionada com o poder na organização;
• entropia das emoções na organização, abrangendo o clima emocional geral organizacional, identificando-se se ele é de raiva e hostilidade, ou de tensão e medo, ou de tristeza e apreensão, ou de alegria e contentamento, bem como identificando-se as emoções individuais dos colaboradores;
•entropia contábil financeira, relacionada com a organização / desorganização dos aspectos contábeis e financeiros da organização;
• entropia estrutural / organizacional relacionada com a estrutura da organização, considerando seus recursos materiais, humanos e físicos;
• entropia operacional, relacionada com os mecanismos operacionais para atingir os meios e os fins da organização.

Diagnosticado o grau de entropia da organização, as ações deverão ser voltadas para a gestão desta entropia, tentando-se , de um alado de eliminar os fatores entrópicos, e de outro lado estimulando-se as ações negaentrópicas.

O efeito das emoções positivas, que atuam reduzindo o nível de entropia no ambiente de trabalho de uma organização é conhecido dos pesquisadores18, que já determinaram a importância de tais emoções para a produtividade.
Para Seligman10 é impossível esclarecer se a maior satisfação no trabalho faz a pessoa mais feliz ou se a disposição de ser feliz gera satisfação no trabalho. Mas o fato é que as pessoas mais felizes estão nitidamente mais satisfeitas com seus trabalhos.

Ele cita uma pesquisa sugerindo que mais felicidade causa maior produtividade e salário mais alto: foi medida a quantidade de emoção positiva em 272 empregados de uma organização, e acompanhados seus desempenhos durante os 18 meses seguintes. Verificou-se que os mais felizes tiveram avaliações cada vez mais positivas dos supervisores e conse-guiram aumento de salário.

Outra pesquisa mostrou que crianças e adultos em estado de espírito positivo selecionam metas mais ambiciosas, têm desempenho melhor e persistem durante mais tempo nas suas tarefas
Segundo Goleman18, pesquisas realizadas na Yale University School of Management mostram que as emoções são contagiosas principalmente alegria e cordialidade, sendo menos contagiantes raiva, irritabilidade e de-pressão.

Para os pesquisadores, há loops abertos em nosso cérebro que ser-vem especificamente para detectar sorrisos e risos de outras pessoas, nos fazendo rir em resposta, como se fosse um seqüestro emocional positivo. Durante o riso o indivíduo está relaxado e receptivo e não na defensiva ou hostil.
No corpo humano existem sistemas que se regulam a si mesmos, são auto-reguladores, como o sistema circulatório, o pulmonar, e outros. O funcionamento do sistema circulatório de uma pessoa não interfere no de outra colocada próxima. Se alguém que está perto de você tem pressão arterial alta, não é por isto que sua pressão vai ser alta também.
Com o sistema límbico, sede de muitas emoções humanas, ocorre o contrário – quando ele funciona, pode agir no de uma pessoa próxima, pois ele funciona em loop aberto, diferentemente dos sistemas auto-reguláveis, como o circulatório, que funcionam em loop fechado.

O loop aberto é denominado pelos psicólogos de “regulação límbica interpessoal” - ao emitir sinais emocionais vindos do sistema límbico, a pessoa pode induzir modificações no organismo de outra - alterar seus níveis hormonais, batimentos do coração, tensão arterial, ritmo de sono e até mesmo a defesa do organismo, pela diminuição da produção de anti-corpos.

O loop aberto do sistema límbico torna as emoções contagiosas, e o estado emocional de cada um de nós depende do contacto com as emo-ções dos outros. Quando as pessoas saem de um enterro estão tristes e deprimidas, mas quando saem de uma festa divertida estão contentes, satisfeitas e alegres. Elas espelham as emoções do ambiente em que estão.
Segundo Goleman (op.cit.), em qualquer ambiente de trabalho o riso indica a temperatura emocional coletiva, constituindo sinal do envolvimento das mentes e dos corações das pessoas – o riso indica que está tudo bem, porque as pessoas quando sorriem autenticamente estão satisfeitas.

Em outro experimento18, os pesquisadores verificaram que, mesmo que as pessoas não se falem, só com a aproximação física há difusão das emoções. Uma pesquisa foi realizada com três estranhos que se sentaram juntos durante alguns minutos, em silêncio - o que tinha carga emocional mais expressiva transmitiu suas emoções para os outros dois sem pronunciar uma palavra.
Este fenômeno de difusão emocional é conhecido como espelhamento das emoções, e pode ser encontrado em todos os níveis de uma organização, de sua base ao topo.
Segundo o estudo referido da Yale, o humor influencia a eficácia do trabalho, a cooperação e o desempenho profissional. Pode-se então inferir que torna-se necessário criar nas organizações um clima de alegria, satisfação e contentamento, para aumentar a produtividade.

Conceito importante da psicologia das emoções é o de humor - é a expressão do nível médio dos sentimentos de estado, que são a alegria e a tristeza. Quando o nível médio de sentimentos está mais para a alegria, dizemos que há bom humor, e quando está mais para a tristeza, diz-se que há mau humor. As emoções são mais intensas e duram menos, e o humor é menos intenso e mais duradouro.

Emoções negativas, sobretudo raiva e ansiedade, prejudicam o trabalho, conforme resultado de pesquisas da Yale University18. Grupos que tomavam decisões executivas, tiveram seu trabalho incrementado pelo humor positivo e por sentimentos positivos e dificultados pelo humor e sentimentos negativos.

Segundo Goleman18, as emoções positivas estimulam a eficiência mental e melhoram a capacidade da pessoa de compreender informações e de aplicar as regras para tomada de decisão, além de aumentar a flexibi-lidade do uso do pensamento. A alegria reforça a criatividade, ajuda as pessoas a serem mais otimistas em relação a sua capacidade de atingir um objetivo e as tornam mais solícitas.
Sempre que há conflito emocional em um grupo, aumenta a entropia psíquica de cada membro, que desvia sua atenção e sua energia das tarefas que deve executar, com repercussões negativas sobre o desempenho grupal. Estudos com executivos de empresas18 mostram que quanto mais positivos forem os ânimos da equipe de gerência, melhores poderão ser os resultados da empresa. Daí a conveniência de avaliar-se os ânimos das equipes de gerência das organizações, melhorando-os quando necessário.

Avaliação Quantitativa da Entropia Psíquica

Pressupostos epistemológicos

Eventos psíquicos como as emoções, podem ser expressos de modo comportamental (através das ações da pessoa), de modo fisiológico (através de repercussões nos diversos sistema e aparelhos do indivíduo), e de modo fenomenológico (através de sua experiência subjetiva), devendo haver coerência entre a expressão fisiológica e o processo emocional.
Sob o ponto de vista epistemológico, é lógico inferir-se que a avaliação quantitativa das expressões fisiológicas de determinada emoção seja considerada uma avaliação indireta da própria emoção. Desta forma, a medida dos efeitos fisiológicos da raiva sobre o coração e vasos sanguíneos, sobre a freqüência respiratória e sobre o sistema nervoso, principalmente sobre a atividade cerebral, permite a avaliação da própria raiva.
Como a raiva é um agente entrópico psíquico, capaz de produzir aumento da entropia mental, pode-se inferir que sua avaliação implica na avaliação indireta da própria entropia psíquica, ou seja,ao avaliarmos as expressões fisiológicas de determinada emoção, indiretamente, estamos avaliando também seus efeitos entrópicos psíquicos. Ao avaliarmos os efeitos da raiva, ou de qualquer outra emoção, sobre o eletroencefalograma de um indivíduo, estamos avaliando sua entropia mental, de forma indireta.

O eletroencefalograma (EEG)
A avaliação dos efeitos das emoções na fisiologia cerebral pode ser feita através do eletroencefalograma (EEG), da Tomografia pela Emissão de Pósitrons (PET) e da Ressonância Nuclear Magnética.
O eletroencefalograma19 é um registro da atividade elétrica cerebral mediante a utilização de eletrodos colocados no couro cabeludo do indiví-duo, que captam a atividades elétricas decorrentes das diferenças de potenciais existentes entre os neurônios cerebrais. Os sinais obtidos permitem apenas uma avaliação grosseira da atividade funcional neural.

Na maioria dos adultos o padrão do EEG de vigília consiste em on-das sinusoidais denominadas de ondas alfa (a), beta (ß), teta (?) e delta (?). As ondas alfa têm freqüência de 8 a 12 ciclos por segundo (cps), são mais proeminentes nas áreas occipitais, e constituem o chamado ritmo alfa, que é bloqueado pela atividade mental e abertura ocular. Quando uma pessoa está em processo de meditação há predomínio das ondas alfa no seu eletroencefalograma, e diz-se que ela está em estado alfa
As ondas beta têm freqüência superior a 12 cps e constituem o chamado ritmo beta, normalmente encontrado nas regiões frontais dos indivíduos. As ondas delta, mais lentas, têm freqüência entre 1 e 3 cps, podem ser encontradas em indivíduos normais, assim como as ondas teta, com freqüência entre 4 e 7 cps, que são encontradas também em pacientes em estado de meditação.

Avaliação dos efeitos da raiva no cérebro humano através do eletroencefalograma (EEG)
Uma pesquisa foi realizada por Jones e Allen 20 entre adolescentes de escolas de ensino médio, de ambos os sexos, cujas idades variavam entre 11 e 17 anos, para avaliar o efeito da raiva sobre o EEG. Encontraram que a raiva está associada com aumento da atividade elétrica cortical anterior esquerda (lobo frontal esquerdo), e com uma assimetria da atividade das ondas alfa.

Recente pesquisa, em 2003, feita por Coan e Allen21, em 31 indivíduos com expressões faciais voluntárias de raiva, mostrou uma atividade aumentada do EEG na região cortical esquerda anterior, além de assimetria da atividade das ondas alfa.
Diante de tais dados, pode-se concluir que a raiva produz alterações no traçado do EEG, que são proporcionais a suas intensidade.

METAS E INTENÇÕES
Para Csikszentmihayi6, as intenções, metas e motivações de uma pessoa se manifestam quando a ordem psíquica é maior, quando a entropia é menor, pois a ordem mental facilita seus surgimentos. Só podemos prestar atenção a algo externo quando temos certa ordem na mente, que torna possível aparecer a intenção de executarmos uma atividade, inclusive a de estabelecer uma meta, de executar determinada tarefa.

A intenção é a entidade psicológica que focaliza e utiliza a energia psíquica a curto prazo, enquanto a meta focaliza e utiliza a energia psíquica a longo prazo. Se as metas de uma pessoa são coerentes, ela tem maior possibilidade de investir sua atenção durante mais tempo nelas, e de forma mais produtiva. Por isto devemos estabelecer metas coerentes entre si ao longo de nossa vida.
Teleonomia é a tendência que nosso organismo tem para reproduzir determinados padrões herdados geneticamente ou culturalmente. No caso de padrões biológicos, resultantes de características genéticas herdadas, diz-se que há teleonomia genética, e a pessoa origina suas metas nas ins-truções genéticas programadas em seu organismo, filogeneticamente mais primitivas. Elas giram em torno de comer bem, ter comodidade, ter saúde e estar sexualmente satisfeito.

A teleonomia cultural é a tendência da pessoa para reproduzir em seu comportamento padrões culturalmente herdados do ambiente social em que vive. Ela tende a reproduzir em sua conduta normas e valores sociais introjetados no processo de socialização. Grande parte das metas que estabelecemos em nossa vida é conseqüência da teleonomia genética e da teleonomia cultural, mas existem outras que são estabelecidas de forma autônoma e livre pelo self de cada pessoa, devido à teleonomia do self. A teleonomia do self é a tendência que temos para alcançar metas escolhidas livremente por nós, entre alternativas possíveis.

O tempo necessário para alcançar uma meta e a intensidade do esforço necessário para alcançá-la, dependem de nossa motivação para atingi-la. As intenções, metas e motivações concentram a energia psíquica envolvida no processo e criam certo grau de ordem na consciência, permi-tindo que se instale um estado mental percebido pela pessoa como Fluxo ou Gratificação.
As emoções negativas e as situações que aumentam a entropia mental, nos afastam do bem estar psicológico, e as emoções positivas e as experiências de fluxo ou gratificações, nos aproximam do bem estar e da felicidade.

Como as emoções positivas são anti-entrópicas e como a entropia diminui o tempo de vida dos sistemas biológicos (lembre-se que as enzi-mas foram criadas pela natureza com a finalidade de diminuir a entropia e aumentar o tempo de vida), pode-se inferir que as emoções positivas provavelmente devem aumentar o tempo de vida da pessoa. O ser humano que tem mais bem estar em sua vida, com mais emoções positivas e mais gratificações, tem condições para viver mais, se comparado com outro com menos emoções positivas e menos gratificações.

Seligman10 relata pesquisa feita com 200 freiras objetivando avaliar a felicidade e longevidade delas. Foi constatado que, entre as mais alegres, 90% viveram até 85 anos, contra 34% das menos alegres. E 54% das mais alegres viveram até 94 anos, contra 11% das menos alegres. E conclui: “Ao que parece,freira feliz vive mais”.

Quanto à distribuição das metas em um dia médio, Csikszentmihayi5 constatou em suas pesquisas, que durante um terço do dia a pessoa faz certas coisas porque não tem nada melhor para fazer — sem motivação intrínseca (querer fazer) para realizar as tarefas, e sem motivação extrínseca (ter de fazer). Então a pessoa pode ter uma melhora da qualidade de sua vida se preencher esta parte da vida sem motivação com metas livremente escolhidas por ela, fazendo atividades que lhe tragam gratificações, nas quais entre em fluxo.

Papel das Metas na Construção do Self

Para Csikszentmihayi5, as principais tendências da psicologia do século XX compartilham de uma epistemologia comum e elaboraram descri-ções reducionistas da ação humana, com a intenção de serem o mais científicas possíveis. Por isto ignoraram ou menosprezaram o aspecto mais óbvio do fenômeno humano — a existência do self consciente, do eu consciente.
Na sua visão, a certa altura da ontogênese, cada indivíduo reconhece seu poder tanto para orientar sua atenção como quiser, quanto para pensar, sentir, desejar e recordar. A partir deste momento, seu self é de-senvolvido como nova agência psíquica. O self é um epifenômeno dos processos conscientes do indivíduo, o resultado do reconhecimento que a consciência faz de si mesma.

A modelação do self é feita com informações advindas do próprio corpo, das lembranças do passado e das metas futuras que a pessoa pretende desenvolver, e suas funções principais são manter-se e desenvolver-se. O self garante a autonomia da pessoa ao romper com o controle impe-rativo das instruções genéticas sobre ela.

O conjunto de metas coerentes que a pessoa estabelece em sua vida lhe permite criar um self coerente. Através delas o indivíduo cria ordem em sua experiência existencial e dá sentido e significado à sua vida. Quan-to mais metas coerentes a pessoa tiver em sua vida, mais ordem terá em sua mente e menos entropia psíquica. Estabelecendo e conquistando metas coerentes a pessoa poderá ter mais bem estar, melhor qualidade de vida e mais condições de ser feliz.

Se uma pessoa é mais alegre, dá e recebe mais amor, pratica a compaixão e o perdão, exercita a gratidão, tem mais prazer e mais gratificações, tem mais fé em si mesmo ou em algo sobrenatural, tem esperança no futuro, tem mais confiança e otimismo, terá menos entropia em sua mente e qualidade de vida melhor, com mais bem estar e felicidade, com vida próxima do que Aristóteles chamou de “vida boa”.

METAS E ENTROPIA PSÍQUICA– ENTROPIA EXISTENCIAL

A ausência de metas na vida de uma pessoa diminui a possibilidade dela ter boa qualidade de vida, ou até mesmo continuar a viver. De acordo com o depoimento de Viktor Frankl9, psicólogo judeu alemão que sobreviveu às atrocidades praticadas pelos alemães nos campos de concentração, os judeus sobreviventes das atrocidades nazistas, não foram os mais jovens, nem os mais fortes. Foram os que, mesmo diante do sofrimento e da adversidade, desenvolveram metas para suas vidas, e um sentido para suas existências, muito profundo e muito humano - ajudar e apoiar seus parentes e amigos, dando-lhes conforto, carinho e solidariedade, ou então tomaram como metas sobreviver, para dar seus testemunhos à humanida-de das atrocidades que foram vítimas, juntos com parentes e amigos.

É a falta de metas e de sentido de vida que teme o aposentado que deixa de praticar qualquer atividade e não preenche sua vida. Ao desaparecerem suas metas profissionais pode também desaparecer seu sentido de vida. E desaparecendo o sentido de vida, desaparece também a ordem existencial intrínseca proporcionada pela presença de metas coerentes, dirigidas para o presente e para o futuro. A entropia prevalecerá em sua mente, e será fonte de mal estar, infelicidade, depressão, solidão e muitas emoções negativas, com redução de sua auto-estima.

Chamo a este tipo de entropia, de entropia existencial que representa a institucionalização da desordem na vida da pessoa. Ela se propaga do terreno profissional, para o pessoal, familiar e sócio-cultural, e transforma a pessoa num resto de ser humano, com dificuldade para reunir forças e ar-rastar o fardo pesado que passa a ser sua vida.

As metas são importantes no processo de construção da auto-estima da pessoa, segundo William James6 - a auto-estima de cada um de nós depende da relação entre as metas que nos propomos, e dos sucessos que conseguimos. Quanto maior for o número de metas estabelecidas e alcançadas, maior será nossa auto-estima.
Se você estabelecer metas e desafios muito elevados, impossíveis de alcançar porque desproporcionais às suas habilidades, e não conseguir alcançá-los, pode desenvolver baixa autoestima, pois a frustração decor-rente fará com que perca a confiança em si mesmo. É o caso de um aluno que se propõe tirar conceito muito bom em todas as disciplinas, e só consegue conceito muito bom na metade delas. Ele fica frustrado e com auto-estima baixa, embora tivesse alcançado um rendimento escolar muito acima da média de seus colegas.

Muito cuidado ao estabelecer suas metas – elas devem ser razoáveis, passíveis de ser executadas no tempo aprazado, trazendo-lhe um sentimento de realização que reforce sua auto-estima. Este sentimento de realização, desenvolvido ao longo de sua vida, lhe traz confiança em si mesmo e lhe ajuda a ser feliz.

Ao elaborar suas metas existenciais, tenha consciência que as elabo-ra a partir de sua herança genética e cultural, expressas por seus instintos e educação, e também a partir da teleonomia do self, a partir de suas escolhas, fundamentado na autonomia (que ele lhe garante em relação a suas tendências genéticas e culturais).
Para aumentar seu bem estar e felicidade, além de estabelecer me-tas coerentes e exeqüíveis, motive-se constantemente para atingi-las. Diz o ditado popular “mente vazia oficina do diabo”, então procure preencher sua mente com metas, pois na mente vazia a entropia pode assumir valores máximos e imperar a desordem.

Para Csikszentmihayi6, a entropia psíquica perturba o equilíbrio mental pois produz conflitos com as metas individuais, como ocorre no medo, tédio, apatia, ansiedade, confusão mental, raiva, ciúme e outras emoções negativas. A depender da natureza da emoção, ela pode entrar em conflito com determinada meta, impedindo que ela seja alcançada. Por exemplo, como repercute para duas pessoas, uma tempestade matinal que cai sobre um vale – um agricultor que planejou colher sua produção de trigo, provavelmente entrará em pânico ao perceber os prejuízos que advirão. Para uma pessoa que planejou um pique-nique, a repercussão será de uma discreta irritação decorrente da frustração de seus planos.

GRATIFICAÇÃO, FLUXO OU EXPERIÊNCIA ÓTIMA

Ao estado de consciência oposto à entropia, Seligman10 denomina Gratificação e Csikszentmihayi5 de Experiência de Fluxo, Experiência Ótima, ou Fluxo. Este estado é alcançado quando todos os conteúdos da consciência se encontram em harmonia entre si e trabalham para alcançar as metas definidas pelo self. Quando isto ocorre a pessoa sente uma satisfação imediata, tem grande concentração na atividade que está executan-do e o tempo passa rapidamente.

O fluxo surge geralmente quando é executada uma atividade que dá muita satisfação e seja um desafio. Para vencer as dificuldades, a pessoa tem de empenhar-se bastante e colocar em prática as habilidades necessárias para vencer o obstáculo. Uma característica do fluxo é que a meta desejada exija grande atenção, devendo a pessoa concentrar-se totalmente na atividade, esquecendo o que se passa em torno dela e em seu mundo interior subjetivo- desaparece a consciência do “eu”. Para que o fluxo ocorra, a meta deve ser claramente estabelecida, bem como a forma como será atingida.

As metas pretendidas exigem respostas apropriadas, e deve haver durante o fluxo um mecanismo de feedback, que permita à pessoa saber, a cada momento, o que está ocorrendo. Ela deve ter evidências objetivas de que seus esforços estão sendo recompensados, e que cada etapa do processo está sendo alcançada com sucesso. Durante o fluxo, a pessoa se absorve tanto na atividade, que a percepção do tempo é distorcida, e as horas parecem minutos. A entropia é mÍnima, há ordem na consciência e a pessoa sente uma experiência agradável, tanto que procura repetir a atividade de fluxo.

Csikszentmihayi5 chama de “atividade de fluxo” àquela atividade na qual é mais provável sua ocorrência, mas ressalta que o fluxo pode ocorrer em qualquer atividade. É mais provável a ocorrência em atividades que o desafio é alto, exigindo nível alto de habilidades do indivíduo, as metas sejam claras e a pessoa se concentre de forma adequada.

Características de atividades capazes de gerar gratificação:
• metas claras a serem atingidas;
• desafio grande, proporcional às habilidades da pessoa;
• grande concentração da pessoa ;
• satisfação ao executar a atividade;
• regras claras para avaliar o desempenho;
• a pessoa possa saber o desempenho a qualquer momento;

Durante o fluxo há:
• sentimento de controle da situação;
• desaparecimento da autoconsciência;
• sentimento de que o tempo passa muito depressa.
Situações em que a gratificação ocorre mais facilmente5;
• jogos: xadrez, tênis, cartas de baralho,etc.;
• exercícios físicos e esportes (voleibol, futebol,etc.);
• interação social – conversa agradável com outras pessoas;
• no trabalho, quando fizer tarefas agradáveis;
• dirigir automóvel;
• tocar instrumentos musicais: piano, violão,violino, etc.;
• ir ao cinema, teatro, restaurante, e locais similares;
• escalar montanhas;
• esquiar ;
• praticar rituais religiosos;
• fazer um tapete, bordar um tecido ou equivalentes;
• fazer programas de computadores;
• ler um livro interessante;
• fazer uma cirurgia;
• relacionamento sexual;
• fechar bom negócio;
• conquistar nova amizade;

Gratificação, Desafios e Habilidades

A condição essencial para haver o fluxo é que a pessoa sinta que deve executar determinada atividade e que é capaz de executá-la. É preciso que a pessoa:
• sinta-se desafiada;
• tenha habilidades necessárias para executar a tarefa e que estas habilidades estejam em equilíbrio com os desafios ;
• tenha concentração total na tarefa.

O desafio pode advir de qualquer oportunidade de ação, mas nenhuma atividade mantém o desafio indefinidamente. Para manter o fluxo é preciso que o nível de dificuldade aumente e exija habilidades cada vez maiores para vencê-las, mantendo o interesse da pessoa. Em outras palavras: para manter o fluxo, os desafios devem ser crescentes, e as habilidades devem crescer proporcionalmente a eles. Por exemplo, se você entra em fluxo ao jogar pôquer com um adversário, depois de vencê-lo uma ou duas vezes, diminuirá seu interesse ,e, para entrar em fluxo novamente, deverá jogar com outro parceiro mais capacitado, que seja um desafio maior, exigindo mais habilidades e empenho de sua parte. Caso contrário perderá o interesse e ficará entediado.

Na vida cotidiana, os sentimentos que temos dependem da relação entre o nível dos desafios com que somos confrontados e o nível de habili-dades que temos. Quando os desafios são altos demais, e ultrapassam nossas habilidades, de início ficamos frustrados, depois preocupados e ansiosos. Uma alternativa é recuar para uma situação menos desafiadora, diminuindo os desafios aceitos em vez de tentar lidar com a tarefa geradora de ansiedade. Um exemplo é de um estudante ao qual é proposto um problema de Matemática, mas ele não tem os conhecimentos necessários para resolver, pois o desafio é maior do que a habilidade.

Outra situação é quando os desafios são baixos em relação às habilidades – a pessoa ficará entediada. Quando tanto as habilidades quanto os desafios são baixos, advirá apatia. Para altos desafios enfrentados com altas habilidades podemos entrar em fluxo, como um jogador de futebol que vai jogar uma partida final de campeonato.
Você deve estar atento, na vida cotidiana, para situações que possam desencadear o fluxo, pois elas podem ser uma grande fonte de bem estar e felicidade, independentemente do temperamento alegre ou triste que você tenha e dependendo apenas de suas forças pessoais. Identifique situações que podem gerar fluxo, e aumente suas gratificações e felicidade.

No estado de fluxo há envolvimento da pessoa com a tarefa e grande ordem interna, a integração harmônica das energias físicas e psíquicas garantem grande satisfação. Acredita o autor deste trabalho que durante a gratificação você está feliz, mas não tem condições para aperceber-se da felicidade, pois no fluxo cessa a percepção do eu, devido a suspensão da consciência.
Um cirurgião, depois de terminada uma cirurgia difícil e complicada, cheia de desafios superados, pode olhar para trás, ver o que aconteceu, e ficar inebriado com a excelência da experiência que teve.
Segundo Csikszentmihalyi6, um estado de consciência próximo ao do fluxo é a exaltação – nela os desafios são altos e as habilidades da pessoa são médias, não permitindo que seja atingido o fluxo porque não podem ser superados os desafios. Ela está concentrada, ativa, envolvida, num estado positivo de experiência, sem entretanto ter o controle da situação. É o caso de alguém que vai dirigir um carro sem ter as habilidades necessárias e fica sem o controle do veículo e da situação.

O citado autor considera outra situação que denomina de controle é um estado positivo de experiência onde o indivíduo se sente feliz e satisfei-to. Ocorre quando os desafios são mais baixos que na exaltação e quando as habilidades são altas. A pessoa tende a perder a concentração e o envolvimento no que está fazendo.

O autor deste trabalho acredita que a questão fundamental da melho-ria da qualidade de vida de uma pessoa é a de incluir mais situações geradoras de fluxo, aceitando desafios externos propostos ou criando ela mes-ma novos desafios. Devemos ter como meta constante adquirir novas habilidades para lidar com novos desafios ou aumentar as habilidades que te-mos, para enfrentá-los e vencê-los
Gratificação e Prazer

Seligman10 considera que o bem estar, a satisfação que a pessoa sente em determinado momento de sua vida pode advir de gratificações ou de prazeres, e considera os prazeres físicos e os maiores.
O prazer físico tem acentuado componente sensorial, e está ligado aos sentidos do tato, olfato, visão, audição e gosto. Fortemente emocional, ligado às emoções positivas, é imediato, passageiro, cessa quando desaparece o estímulo desencadeante, envolve pouco ou quase nenhum raciocínio e cria hábito rapidamente. Ocorre quando você sente o cheiro de um bom perfume: percebe imediatamente o odor e tem uma sensação agradável, que desaparece após alguns segundos ou minutos. Se você sentir de novo o mesmo perfume, na segunda vez o prazer já não será o mesmo, e depois de algumas exposições, a intensidade do prazer vai diminuindo, e tende à extinção.

Os prazeres físicos relacionam-se com os sentidos:
• tato – receber ou dar um toque carinhoso em alguém;
• audição- ouvir uma música agradável, o canto dos passarinhos, o barulho do mar, a chuva cantando no telhado, etc.;
• visão – apreciar um belo nascer ou por de sol, a bonita tela de um pintor, uma paisagem bonita, etc;
• gosto – saborear uma boa refeição, uma taça de vinho ou de sorvete, um suco de laranja, uva ou de outras frutas, etc.;
• olfato- sentir o cheiro de um bom perfume, de uma comida apetito-sa, etc.

Os prazeres físicos são passageiros, cessam quando desaparece o estímulo externo, e não é possível aumentar muito o nível de felicidade constante através deles, pois o hábito de desenvolve facilmente. Para obter o mesmo nível de determinado prazer precisa aumentar a intensidade do estímulo.

Os prazeres maiores diferem dos físicos por serem mais cognitivos e menos sensoriais, se instalarem de modos diferentes, e serem mais nume-rosos e variados. É o caso da alegria, contentamento, bom humor, entusiasmo, atração, enlevo, deleite, etc. Têm características semelhantes às dos físicos – são passageiros, desaparecem subitamente e estão sujeitos à habituação. Quando você recebe uma boa notícia, pode sentir uma alegria muito grande, mas depois de alguns minutos retorna para seu estado de humor habitual. Quando você é desafiado para vencer uma meta, pode ter entusiasmo muito grande no início, mas com o tempo ele diminui, até qua-se desaparecer, principalmente se as dificuldades forem muito grandes.

Classificação dos prazeres maiores10
• De alta intensidade – júbilo, euforia, empolgação, hilaridade, deleite, enlevo, êxtase, excitação,etc;
• De média intensidade – alegria, animação, atração, contentamento, bom humor, entusiasmo, encantamento, graça, etc.
• De pequena intensidade – conforto, relaxamento, divertimento, sa-ciedade, harmonia, etc.


Aumento do prazer
Pesquisas sobre as emoções positivas apontam duas estratégias pa-ra aumentar o prazer – evitar a habituação e praticar a apreciação.

Habituação
Habituação é a tendência de perceber um prazer com menor intensi-dade, na medida em que ele é repetido. Se você gosta de determinada comida, e come durante vários dias seguidos, ela já não será tão gostosa, pois haverá habituação. A repetição freqüente do mesmo estímulo sensorial diminuiu gradativamente o prazer, levando-o à extinção. Daí uma regra prática – aumente o intervalo de tempo entre as experiências que lhe dão prazer. Se você gosta muito de suco de laranja, não tome todos os dias, para não diminuir o prazer. Se você gosta de determinada música não a ouça durante dias seguidos, para não perder o prazer.

Numa mesma experiência, o prazer diminui com o tempo – o primei-ro gole de um suco de laranja é mais gostoso que o segundo, e assim por diante, devido à habituação.
A explicação para a habituação é que os neurônios cerebrais são conectados de forma a responder a novos estímulos, e deixam de responder se não surgirem novas informações. Um neurônio que recebe um estímulo é excitado, responde e entra em período refratário, no qual não responde a novos estímulos. Nosso cérebro é ativado quando surgem novos eventos, e há uma tendência a ignorar estímulos repetidos muitas vezes. Daí devermos incluir em nossas vidas o maior número possível de prazeres, mas mantendo a habituação sob controle.

Um aliado para aumentar o prazer é o fator surpresa. Se você dá uma rosa a alguém, a pessoa fica encantada, mas der novamente o mes-mo presente, diminui o encanto. Mas se você der, em vez de rosa, um perfume ou uma fruta, ou fizer um carinho, vai obter melhor resultado: mude a forma de expressar seu afeto. Tanto mais que, como as emoções são contagiosas, é provável que haja um comportamento recíproco do outro e você pode ser alvo de surpresas agradáveis, que vão melhorar a qualidade do relacionamento.

Apreciação
A apreciação (savoring) é a atenção deliberada para a experiência do prazer, utilizada para aumentar sua percepção. Conceito recentemente introduzido na Psicologia Positiva por Fred Bryant e Joseph Veroff10, baseia-se na tradição da psicologia budista. Fundamenta-se na Meditação de Plena Atenção, em que o meditador fica com a mente alerta para todas as percepções conscientes.

Depois de testar milhares de estudantes universitários ocidentais os autores citados recomendam as seguintes estratégias para a apreciação do prazer:
• Aguçamento da percepção - você se concentra em determinado aspecto da experiência prazerosa. Por exemplo, ao ouvir uma música concentre-se no som de determinado instrumento – violino, violoncelo, piano, etc.
• Absorção- você se deixa absorver totalmente pelo prazer experimentado, concentre-se totalmente nele, e esqueça o mundo.
• Memorizar o evento - tire fotografias mentais do evento prazeroso, para recordá-lo depois. É uma forma de prolongar o prazer, e trazê-lo do passado para o presente.
• Compartilhamento – compartilhe o prazer com outras pessoas, inclusive dizendo-lhes quanto valoriza aquele momento: ao assistir uma pe-ça de teatro, ir ao cinema ou a um show com amigos, compartilhe com eles a satisfação que sente.

Seligman10 considera quatro tipos de apreciação:
• Satisfação – receber elogios e congratulações.
• Agradecimentos – expressar gratidão pelo que recebeu de alguém.
• Admiração – perceber a maravilha do momento vivido.
• Conforto – sensação agradável relacionada com o prazer dos sen-tidos.

Atenção - a energia da atenção aumenta a percepção de qualquer evento psíquico, e conseqüentemente aumenta a intensidade do prazer percebido. Daí a importância que deve ser dada à Educação da Atenção na Educação das Emoções, feita há milênios na cultura oriental, através da Meditação, em suas diversas formas.

Diferença entre Gratificação e Prazer

O prazer e gratificação, embora contidos na categoria da satisfação, são conceitos diferentes. A diferença entre eles já era feita na Grécia antiga, e Aristóteles chamava à gratificação de eudamonia, felicidade, distinguindo-a do prazer.

O prazer, como satisfação relacionada com as emoções positivas, é passageiro e está sujeito à habituação, enquanto a gratificação ocorre na ausência de qualquer emoção mais forte, pois nela há suspensão da cons-ciência do eu, que impede a percepção das emoções. Na gratificação o eu está ausente. Pesquisas10 mostram que durante a gratificação a maioria das pessoas não se refere à presença de emoções positivas, e que, no máximo, se sentiram confortáveis.
É bem verdade que a gratificação fica registrada na memória, que, acessada depois, informa que a experiência foi boa, agradável e deu bem estar e felicidade, daí querermos repeti-la.

Seligman10 relata o seguinte depoimento pessoal de Csikszentmihal-yi:
“O prazer é uma fonte poderosa de motivação, mas não produz mudanças; é uma força conservadora que nos faz querer satisfazer necessidades já existentes, alcançar o conforto e o relaxamento (...) Já a gratificação nem sempre é prazerosa, podendo às vezes ser muito estressante. O alpinista pode estar perto de congelar, completamente exausto, correndo o risco de cair em um abismo sem fim, e no entanto não gostaria de estar em nenhum outro lugar do mundo. Nada se compara à satisfação que ele sente naquela montanha gelada”.

O prazer pode ser quimicamente induzido, está sujeito à habituação e à apreciação, enquanto a habituação e a apreciação não se aplicam à gratificação, que está ligada às forças pessoais do caráter da pessoa, entendido como o fator gerador da ação humana e do qual resultam as atividades da pessoa. As forças do caráter são expressões das virtudes humanas, sabedoria e conhecimento, amor e humanidade, moderação, coragem, justiça e transcendência.

Para Seligman10, as principais forças humanas são: gosto pela aprendizagem, exercício do pensamento crítico, originalidade, inteligência prática, inteligência social, inteligência emocional, bravura e valentia, perse-verança, dinamismo, diligência, autenticidade, honestidade, bondade, generosidade, amar e aceitar ser amado, cidadania, lealdade, espírito de equipe, curiosidade, perseverança, imparcialidade, liderança, autocontrole, prudência, cuidado, humildade, modéstia, apreciação da beleza e da excelência, gratidão, esperança, otimismo, responsabilidade com o futuro, espiri-tualidade, perdão e misericórdia, bom humor, graça, animação, paixão e entusiasmo.

Ele atribui grande importância ao estudo e à identificação das gratificações como elementos produtores de felicidade na vida dos humanos. Argumenta10 que:
“ ...mesmo a metade menos favorecida da população mundial (três bilhões de pessoas) em termos de estado de espírito positivo, não esta fadada à infelicidade. Em vez disso sua felicidade está nas abundantes gratificações que pode ter e conservar”.
Para ele, mesmo uma pessoa que não tenha um temperamento que a leve a estados borbulhantes de animação ou de prazeres intensos, mas que tenha forças pessoais que a conduzam a estados de gratificação, pode ter e aumentar a felicidade em sua vida.

ENTROPIA PSÍQUICA, ANOMIA E ALIENAÇÃO

Alienação
Quando uma pessoa interage em seu mundo social podem ocorrer duas possibilidades extremas, que dependem da possibilidade dela ter certeza ou incerteza na predição dos resultados de sua interação. Estas alternativas dependem, de um lado, dela poder utilizar ou não suas habilidades e recursos pessoais com certo grau de liberdade, e, de outro lado, da freqüência e da variedade dos desafios a que é submetida.

Num extremo, quando as habilidades são escassas e os desafios são baixos, a pessoa se sente entediada ou ansiosa com as rotinas diárias que lhe são oferecidas, com poucas variedades, ou pequena freqüência de desafios, o que torna as interações sociais monótonas e tediosas. Ela per-cebe sua rede de relações sociais como constrangedora, e que seu mundo social não é um fato negociável, pois não tem possibilidade dela expressar sua vontade, e quase inexistindo sua participação autêntica em seus comportamentos.

Devido à inflexibilidade da estrutura social que a constrange, os resultados dos encontros sociais da pessoa são facilmente previsíveis e suas metas estão sujeitas à tirania do meio e por ele impostas. Ela recorre muito pouco a suas habilidades e recursos pessoais, como no caso do trabalhador de uma fábrica, durante sua jornada de trabalho – ele não tem autonomia para expressar sua criatividade, e pode predizer, com razoável grau de certeza, o resultado de suas ações durante a jornada de trabalho. Ele não tem liberdade para expressar livremente sua vontade e sua criatividade, e está alienado de seu trabalho.

Na visão de Marx5, dentro de uma perspectiva de ordem econômica, o trabalhador do sistema capitalista é alienado de seu trabalho, pois, forçado a vendê-lo aos proprietários dos meios de produção, se distancia de qualquer relação significativa com os bens que produz. Na alienação, numa visão marxista, a experiência do trabalho é destituída de criatividade, e se transforma em uma carga nociva, embora necessária para obtenção do sustento do trabalhador.

Para Mitchell, Jr.5 a alienação ocorre quando a pessoa pode prever suas condutas dentro de uma ordem social pré-estabelecida, percebendo seu mundo constrangido por forças sociais nas quais não tem voz, e é limi-tada por regras que eliminam sua criatividade e espontaneidade. Ela sabe antecipadamente o que vai fazer em determinada situação, independentemente de seu interesse, de seu desejo e de sua vontade. Segundo o autor citado, o mundo social alienante é castrador, onipresente, repressivo. É o caso da vida em um campo de concentração, em uma prisão ou em uma cadeia de montagem de uma fábrica, que proporcionam alto grau de certeza em relação aos resultados das ações desejadas e obtidas.

Para Mitchell, Jr.5 a alienação se manifesta de dois modos:
• o indivíduo se sente sem poder, pois percebe que através de sua conduta não pode modificar seu mundo social;
• o indivíduo se sente estranho a si mesmo pois não consegue recompensas em sua vida social, em termos de conforto e posse de bens que atendam suas necessidades básicas.

A certeza dos resultados converte a interação que deveria ser desafiante, em uma tarefa tediosa e monótona.
Analisando a alienação dentro da perspectiva da Educação das Emoções, vê-se que ela é um fator determinante do aumento da entropia psíquica pois determina o aparecimento de emoções negativas como o tédio, ansiedade, tristeza, e desesperança nos alienados, além levar à da falta de sentido em suas vidas. Os alienados devem se perguntar: para que e porque viver?

Anomia
No outro extremo está a situação de uma pessoa cuja rotina diária está cheia de situações com problemas urgentes e difíceis para resolver, como o médico da emergência de um hospital, o corretor de ações durante o pregão da bolsa de valores ou o diretor de uma corretora de ativos finan-ceiros.

Para executar as tarefas a pessoa está sujeita a estresse permanente, fazendo grandes esforços para executar as ações necessárias – seu mundo social se apresenta como uma grande esfinge e ela permanentemente está diante da ameaça de “decifra-me ou devoro-te”. Ela nunca tem certeza das conseqüências de seus encontros profissionais, cujos resultados são imprevisíveis, incertos, confusos e contraditórios. Nunca pode ter certeza de que seus esforços foram adequados para resolver os desafios enfrentados e suficientes para controlar a situação.

Muitas vezes suas habilidades e recursos pessoais são inadequados ou insuficientes para controle da situação e pode acontecer que até os meios necessários para resolver os problemas não sejam claros. Há um certo caos no seu mundo social e ela não pode detectar regras claras ou implícitas que norteiem suas interações sociais. Chama-se de anomia a este estado polar de incerteza social, em que as normas sociais inexistem ou não são explícitas.

Para Durkeim, citado por Mitchell, Jr.5, a anomia é um transtorno de ordem social decorrente da ruptura de obrigações normativas. Para ele, quando as pessoas não estão constrangidas por uma ordem social estável “a atividade humana aspira naturalmente a limites além dos desejáveis e são estabelecidas metas inalcançáveis”.

A sensação de falta de normas leva a desejos descontrolados, que conduzem a pessoa a certa desorientação. Uma situação oposta à anomia é aquela em que há excessiva regulação através de normas e disciplina opressiva.
Mitchell, Jr.5 considera alienação e anomia estados subjetivos experimentados por atores sociais individuais, e as vê como pólos opostos da vida social, que oscilam entre a certeza e a incerteza na experiência vital. A alienação conduz ao sufoco da criatividade e à aceitação apática da vida, enquanto a anomia deixa a pessoa confusa, sem direção e sem certezas.

Para ele a anomia é experimentada pelo ator social individual quando a incerteza sobre os resultados de sua conduta se estende à maior parte de suas interações sociais. Nela, as regras aprendidas em encontros sociais anteriores não são válidas para novos encontros, os efeitos dos atos da pessoa nas interações sociais são incertos e o mundo social se apresenta como efêmero, irregular e sem maior consistência. Ocorre no mundo dos artistas, agentes secretos, motoristas profissionais de carretas, vendedores de um modo geral e diretores de empresas que operam em um mercado muito instável.

Segundo Mitchell, Jr.5 a anomia se expressa de três formas:
• quando as normas conhecidas de conduta social não funcionam ou não são aplicáveis;
• quando há falta de sentido na ação, pois não há finalidades perceptíveis para o comportamento;
• quando a pessoa se isola ao perceber que o apoio social dos companheiros é insuficiente.
Para o autor citado, “o indivíduo anômico se encontra sem o apoio dos membros do grupo a que pertence, não tem elementos objetivos para ajudá-lo a selecionar alternativas que façam sentido para sua vida, e ficam sem direção e sem propósitos, sem limites, sem fé que o guie, e sem esperança que o conforte. A incerteza a respeito dos resultados converte o habitual em problemático, a rotina em trauma, a tarefa normal em uma prova maior”.

Conclui dizendo que a meta natural de uma pessoa anômica é restabelecer a interação estável, escapar da incerteza generalizada e a reintegrar-se na ordem social compreensível e previsível. Buscar um estado em que as demandas estejam em equilíbrio com suas capacidades e habilida-des.

Dentro da perspectiva da Educação das Emoções, a anomia leva a pessoa a um aumento da entropia psíquica, na medida que gera grande insegurança, devido ao medo do presente e do futuro, e a uma desorienta-ção existencial, com perda do sentido de vida.
Coburn, citado por Mitchell5, identifica duas condições que trazem conseqüências negativas para a saúde do trabalhador: quando os desafios excedem suas capacidades e quando as capacidades são maiores que os desafios existentes.

GRATIFICAÇÃO EM UMA PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA

Com a finalidade de diminuir a entropia, a desordem mental e existencial gerada pela anomia e pela alienação, os atores sociais anômicos ou alienados procuram formas para equilibrar suas habilidades com os desafios e responsabilidades a que são submetidos. Na alienação procuram fazer coincidir os desafios a que são submetidos com os recursos que possuem, e avançam para um equilíbrio entre o que se sentem capazes de fazer e o que lhes é permitido. Na anomia procuram equilibrar-se com o que lhes é exigido pelo meio social. Ao conseguir tal equilíbrio em suas atividades cotidianas, são recompensados com a satisfação de praticá-las, enchendo suas vidas de sentido e restauram o equilíbrio psíquico, a ordem mental.

Sob o ponto de vista psico-social as expectativas de um papel são satisfeitas quando há uma atuação adequada e apropriada do ator social ao executá-lo. Em termos neuro-psicológicos as pessoas estão motivadas para atuar sobre o meio social para reduzir a variabilidade dos estímulos quando eles são excessivos, ou de aumentá-los quando são inferiores a um nível ótimo, buscando aquilo que White5 chamou de competência - uma sensação de eficácia nas suas interações sociais, acompanhada da per-cepção de crescimento pessoal.

A competência cresce proporcionalmente às habilidades da pessoa e a suas aplicações significativas. Sentir-se competente para exercer determinado papel social significa sentir-se qualificado, capaz, forte, suficiente e adequado para desempenhá-lo. Quando o talento, as habilidades e os recursos pessoais são utilizados de forma produtiva na superação de um desafio, problema ou dificuldade, a pessoa se sente competente e tem reforço da auto-estima.

Neste sentido, a competência é um pré-requisito para que se instale o fluxo, a gratificação, e surge como o oposto da anomia e da alienação. A gratificação é gerada por uma atividade que resulta de uma tensão dinâmica psicossocial, com certo grau de estresse que a pessoa tenta equilibrar, e nesta perspectiva, é um processo de adaptação do indivíduo ao seu ambi-ente psicossocial.

RELACIONAMENTO E ENTROPIA

Segundo Csikszentmihalyi6, para que você tenha um relacionamento ótimo, sem entropia, que leve ordem a sua mente e a da pessoa com quem se relaciona, devem ser satisfeitas pelo menos duas condições: primeiro, que haja compatibilidade entre as metas dos parceiros, que as metas sejam compartilhadas por ambos; segundo, – cada parceiro deve investir sua atenção e seu interesse nas metas do outro, esforçando-se para satisfazê-lo. As metas compartilhadas devem ser explicitadas com clareza por cada parceiro, e caso não estejam claras, devem ser devidamente explicitadas.

A ordem de um relacionamento, a negaentropia, será tanto maior quanto maior for a harmonia entre as metas dos parceiros, e quanto todos investirem suas atenções em metas partilhadas conjuntamente, o que ocor-re quando os interesses são coincidentes, fazendo agradável o relacionamento. Se as metas e os interesses não forem compartilhados, a entropia será grande e o relacionamento não persistirá.
As raízes dos conflitos entre as pessoas costumam ser preocupação excessiva consigo mesmo e incapacidade de prestar atenção às necessi-dades do outro. Isto gera entropia e impossibilita a existência de metas compartilhadas que garantam a ordem no relacionamento.

EDUCAÇÃO DAS EMOÇÕES
E REDUÇÃO DA ENTROPIA PSÍQUICA

O objetivo principal da Educação das Emoções no que tange à entropia psíquica é promover ações que levem ao equilíbrio mental, diminuindo a desordem (entropia) e aumentando a ordem (negaentropia).

A satisfação de uma pessoa é um sentimento de bem estar, de felicidade, que surge quando sua mente está equilibrada, quieta, em ordem, com pouca entropia. Ninguém se sente bem, nem está feliz, quando está com raiva, medo tristeza, ansiedade, depressão, tédio e outras emoções negativas. As emoções positivas nos fazem sentir bem - perdão, gratidão, prazeres físicos e prazeres maiores, fé em nós mesmos ou em algo sobre-natural, esperança, otimismo, entusiasmo, etc.

Acreditamos que a questão básica do funcionamento da mente humana e da busca da felicidade é a do equilíbrio mental. Nossa satisfação, nosso bem estar dependem da existência de ordem em nossa mente, para que tenhamos quietude, tranqüilidade e paz. Devemos buscar permanentemente um equilíbrio entre a ordem e a desordem, reduzindo a entropia a um valor mínimo possível.

Fatores que aumentam a Entropia Psíquica

Acreditamos que, além de outros, os seguintes fatores aumentam ou contribuem para aumentar a entropia psíquica:
• emoções negativas;
• estresse prolongado, devido a doença física ou psíquica (ansiedade, angústia, depressão, psicoses, neuroses, etc.), ou a problemas no trabalho, no lar e na família, problemas pessoais ou sociais e problemas financeiros;
• uso de drogas: álcool, cocaína, crack, maconha, etc.;
• excesso de informações;
• paixão romântica;
• lembranças de fatos desagradáveis;
• auto-estima baixa.

Redução da Entropia Psíquica

A redução da entropia psíquica pode ser conseguida através do aumento das emoções positivas, do aumento das gratificações e do controle das emoções negativas.

Aumento das Emoções Positivas
As emoções positivas podem estar voltadas para o passado – gratidão, perdão, reconciliação, satisfação, contentamento, realização, sereni-dade, orgulho, etc.; para o presente - os prazeres físicos (evocados pelo toque, gosto, cheiro, movimento do corpo, visão e audição) e os prazeres maiores (alegria, contentamento, bom humor, entusiasmo, conforto, divertimento, relaxamento, etc.); ou voltadas para o futuro - fé, esperança, confiança, otimismo, etc.

O desenvolvimento de competências emocionais relacionadas com as emoções positivas requer a utilização de metodologia adequada durante o tempo necessário, tendo-se em mente que a mudança de comportamento emocional demanda, além da vontade de querer mudar da pessoa, de um esforço continuado, de perseverança constante. Uma análise mais aprofundada da questão transcende aos objetivos deste trabalho

Aumento das Gratificações
É significativa a contribuição que pode dar o aumento das gratificações para a diminuição da entropia mental. Tanto mais que a prática de atividades que levam à gratificação não depende do temperamento da pessoa e está ligada às suas forças de caráter, expressões de suas virtudes pessoais.
Segundo Seligman10 a felicidade de uma pessoa depende de três fatores – um é genético, outro ligado às circunstância que envolvem sua vida e o terceiro é sua vontade.

Todos nós nascemos com determinadas tendências genéticas, que se acredita constituir cerca de 50% de nossos traços de personalidade. Elas nos levam a sentir emoções positivas ou negativas, a sermos tristes ou alegres, a termos medo ou coragem, sermos mais ou menos sociáveis.
Isto está no código genético e não podemos alterá-lo, mas podemos, através de nossa vontade, influir nestas tendências e modificá-las, até onde for possível.

O segundo fator que influi na felicidade de uma pessoa é relacionado com as circunstâncias que envolvem sua vida. São elas uma vida social mais rica e mais plena, o casamento, a religião, o relacionamento romântico e o dinheiro, até certo ponto. Segundo Seligman10, as pesquisas apontam que este fator contribui entre 8 a 10% para a felicidade pessoal.

O terceiro fator que interfere na felicidade é a vontade da pessoa, que influi de forma expressiva no nível constante de felicidade, variando de 35% a 42%. Assim, se a pessoa quiser e souber como se comportar, pode ser mais feliz na vida. Vale a pena investir esforços para compreender os mecanismos capazes de aumentar a felicidade, e como desenvolver as habilidades necessárias para colocá-los em prática.

Ninguém está condenado geneticamente a ser infeliz, pois cerca de 50% dos fatores que interferem na felicidade dependem de componentes não genéticos – da nossa vontade e das circunstâncias em que vivemos. Mesmo alguns componentes genéticos podem ser controlados, na medida que a pessoa tome como desafio promover as mudanças necessárias.

Quem tiver um impulso grande para ficar sozinho, evitando o contato social, pode mobilizar sua vontade para modificar esta tendência e socializar-se adequadamente. E a socialização é fator importante para o nível constante de felicidade - as pessoas felizes são muito sociáveis, segundo pesquisas de Csiskzentmihayli6, pois parte de nossas gratificações vêm de conversas agradáveis com outras pessoas.

Controle das emoções negativas
As emoções negativas induzem aumento da entropia mental e perturbam o equilíbrio psíquico, por isto devemos desenvolver as competên-cias emocionais necessárias para lidar adequadamente com elas.

Santos13 considera a autoconsciência, enquanto percepção e com-preensão das informações que temos de nós mesmos, fator fundamental para o controle das emoções negativas. A pessoa deve registrar as observações de tudo que se passa dentro de sua consciência, observando os pensamentos, emoções, sentimentos, sensações corporais, desejos, inten-ções, atitudes e atos, de modo neutro e imparcial, sem fazer nenhum jul-gamento.

A autoconsciência faz a identificação imediata das emoções e permi-te tomar os cuidados necessários para impedir que aumentem suas inten-sidades, pois quanto mais intensa a emoção, mais difícil seu controle. Por exemplo, no caso da preocupação, através da autoconsciência a pessoa se conscientiza dos pensamentos preocupantes, desde o início, impedindo-os de crescer e aumentar cada vez mais. Se ela deixar a preocupação instalar-se, outros pensamentos negativos virão se somar aos iniciais, agravan-do a ansiedade, que cursa naturalmente com ela .

Estratégias para lidar com a raiva, medo e tristeza

O referido autor recomenda as seguintes estratégias para lidar com a raiva, medo, tristeza e depressão.

Como lidar com a Raiva
Nunca se entregue à raiva, pois o maior prejudicado será você mes-mo. Algumas recomendações:
• fique sempre se vigiando, principalmente quando pedir a alguém para fazer alguma coisa e não for atendido;
• quando perceber que está ficando irritado, não deixe a irritação crescer, pois fica mais difícil controlá-la;
• quando estiver com raiva procure distrair-se e pensar em outras coisas. Não deixe o pensamento raivoso crescer, nem ceda a seus impulsos agressivos. Só aja depois que a raiva passar;
• não fique ruminando sobre o assunto que causou a raiva. Procure esquecê-lo;
• só pense nos acontecimentos geradores da raiva depois que ela passar - aí a visão da situação será clara e racional;
• quando você estiver com raiva de alguém, procure conhecer seu ponto de vista;
• convença-se que deve controlar sua raiva. Cultive uma atitude mental de que “Não vou me entregar à raiva”;
• nunca entre na raiva de outra pessoa, pois a raiva se alimenta da raiva. Não discuta com ela, pois sua razão está “fora de campo”.

Como lidar com o Medo e a Preocupação
• Fazer reflexão construtiva, realista e positiva sobre a situação.
• Usar técnicas de relaxamento, porque a atenção é desviada para a respiração ou palavras que está repetindo.
• Escrever sobre sua preocupação tem efeitos benéficos, devido ao “desabafo”, mostram as pesquisas.
• Fazer exercícios físicos neutralizam as reações corporais do medo e da preocupação crônica, principalmente quando se faz contração muscular vigorosa ou musculação.
• Fazer massagem ou alongamento muscular.
• Infundir confiança apegando-se a sua crença religiosa é útil - rezar, pedindo ajuda a Deus ou outras entidades que confie.

Como lidar com a Tristeza e a Depressão Discreta

• Procure dar sentido a sua vida, pois uma das causas da depressão é a perda do sentido de vida. Estabeleça, no início de cada dia, uma meta, um sentido imediato para sua vida. Preencha seu tempo, com atividades agradáveis, para que sua vida não fique sem sentido.
• Procure distrair-se. Programe atividades agradáveis como passear no shopping, ir ao cinema ver um filme cômico, ao teatro ver uma peça de humor, ver uma partida de futebol, ir à praia, encontrar-se com amigos, ler livros e revistas, etc. Estudos mostram que quem assiste muito televisão fica mais deprimido depois de assisti-la.
• Pratique exercícios físicos. Andar e fazer ginástica são úteis para combater a depressão leve, pois mudam o estado de espírito e trazem estímulo para o organismo. O exercício físico distrai das preocupações e diminui o estresse.
• Faça ginástica facial com regularidade pois ela é útil para reverter os efeitos da tristeza sobre os músculos da face. Force os cantos dos lábios para cima, como se estivesse sorrindo e prenda durante alguns se-gundos (três a quatro sessões de dez elevações ao dia).
• Sorria, mesmo sem querer, pois ao sorrir você manda uma mensagem positiva para seu cérebro, evocando a alegria em sua memória, que condicionou a alegria ao ato de sorrir.
• Conteste os pensamentos tristes e pense em coisas alegres e verifique o lado bom da situação que o deprimiu. Lembre-se que seu mundo não acabou, procure ter pensamentos positivos, e não se entregue. Recor-de situações em que você se divertiu com a família e amigos, e estava feliz.
• Procure melhorar a auto-imagem e cuide de sua aparência. Use o perfume que mais gosta, vista-se bem, e faça uma boa maquiagem, se for mulher.
• Procure ajudar outras pessoas, pois você se sentirá útil por estar fazendo o bem e desviará sua atenção de suas preocupações, que lhe fará bem. O trabalho voluntário modifica o estado de espírito negativo.
• Rezar faz bem, pois a reza é eficaz para combater a tristeza e a depressão. A pessoa se sente fortalecida e esperançosa ao buscar ajuda sobrenatural.
• Escreva sobre sua tristeza durante quinze ou vinte minutos por dia, durante cinco dias seguidos, pois isto tem efeito benéfico, mostram as pesquisas.
• Pratique relaxamento, principalmente se houver ansiedade. As técnicas de relaxamento reduzem os estímulos musculares do corpo e diminuem a ansiedade.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O autor entende que o Paradigma Termodinâmico, fundamentado nos princípios termodinâmicos da Conservação da Energia (Primeiro princípio) e da Entropia (segundo princípio), é um instrumento de analise válido, tanto sob o ponto de vista epistemológico, quanto sob o ponto de vista cognitivo, pois ajuda a percepção e compreensão lógica da realidade, na medida em que seja utilizado de forma contextual-mente adequada para a percepção da complexidade do real.

Como Einstein descreveu na Teoria da Relatividade, qualquer forma material é a expressão da concentração da energia, através de uma relação definida pela equação e = m . c2 (e = energia, m = maté-ria e c= velocidade da luz), assim, tudo que encontramos no universo está sob a forma de energia ou pode ser nela convertida.

Segundo Capra22, até o terceiro quartel do século XX a Física acreditava que a matéria estava constituída de partículas, algumas es-táveis e muitas outras instáveis, que logo se desintegram após brevíssimo intervalo de tempo. Entre as estáveis, de vida relativamente longa, estão os léptons (neutrino, eletron e múon), os bárions (prótons, neutrons, lambdas, sigmas, etc) e os mésons, correspondendo a cada partícula uma antipartícula.

No final do século XX, Laszlo23 comenta que os cientistas não podem mais identificar entidades básicas da matéria sob a diversidade dos fenômenos manifestos, nem tampouco dizer se tais entidades e-xistem realmente como partículas. No início do século XXI, não temos mais nenhuma base para dizer o que são as partículas, nem o que elas fazem.

A Teoria dos Quanta, baseada no postulado de Max Plank, ensina que a matéria emite energia em quantidades finitas e proporcionais à freqüência, proporcionalidade esta garantida por uma quantidade fundamental de energia, o quantum de energia (E = h . f , em que E = energia, h = constante de Plank e f = freqüência). Ela nos fala de entidades in-concebíveis ao senso comum, como nuvens de energia que estão simultaneamente presentes em mais de um lugar e nos fala de entidades que são ondas e corpúsculos ao mesmo tempo, dependendo da forma como interagimos com elas.
Na atual concepção quântica da Física subatômica, quando se faz a fissão do átomo encontra-se as partículas clássicas referidas (protons, nêutrons, elétrons, etc), e quando se faz a fissão destas par-tículas, encontram-se os quarks. Na fissão dos quarks encontram-se as cordas, que quando cindidas levam às super-cordas. Por isto a me-cânica quântica relativista descreve o Universo como uma teia complexa de relacionamentos, de campos energéticos ou ondas ou padrões de energia (Laszlo23, Capra22).

É nesse contexto que os princípios da Termodinâmica devem ser interpretados. O Primeiro Princípio, em sua essência, estabelece que a energia do universo é constante, e o Segundo Princípio estabelece as regras para a energia transformar-se de uma modalidade em outra. Assim, a análise de qualquer fenômeno nos seres vivos e nos inanimados, passa pela análise de transformações de energia.
Se a mecânica quântica relativista descreve a realidade como constituída por uma complexa teia de relações energéticas e se a energia constitui a essência da realidade, a análise racional desta realidade passa pela aplicação das leis gerais da energia, nas leis da Termodinâmica.

Com isto não estamos defendendo um fisicalismo absoluto, com a tirania das leis físicas, nem que podemos compreender todos os fenômenos relacionados com os organismos vivos, suas relações e a própria sociedade, exclusivamente através da aplicação das leis da Termodinâmica e de seus corolários.

Defendemos, sim, que a utilização adequada dos princípios da entropia e da constância da energia, associados com outros conceitos e outros paradigmas - como o Paradigma Sistêmico e os que regem as relações psicológicas e sociais – são úteis para a compreensão da realidade dos seres vivos, bem como da sociedade.

As reflexões contidas neste trabalho são exemplo de um exercí-cio de lógica fundamentado nas idéias acima expostas. Após a concei-tuação dos Princípios da Termodinâmica, os aplicamos aos sistemas vivos e analisamos a entropia nos sistemas biológicos, fazendo uma interface entre a Teoria dos Sistemas e o Paradigma Termodinâmico, apresentando evidências experimentais da validade desta associação.
Na etapa seguinte, considerando a indiscutível unidade entre o biológico e o psíquico dos seres humanos, analisamos a entropia na dimensão psicológica e o efeito das emoções sobre ela. Para não restar dúvidas a respeito da validade epistemológica do arcabouço conceitual considerado, incluímos na análise a avaliação quantitativa da entropia psíquica, respaldada em pesquisas científicas recentes, realizadas em respeitadas universidades dos Estados Unidos.

Como conseqüência lógica das reflexões efetuadas, chegamos ao conceito de Entropia Existencial, que se nos parece uma concepção válida para analisar e compreender o ser humano enquanto ser no mundo.
Fundamentado nas concepções de grandes pensadores da sociologia, nos sentimos a vontade para avançar em direção ao contexto social, mostrando a importância do conceito de entropia como instru-mento de análise e compreensão da alienação, da anomia e do relacionamento social.

Por fim, chegamos ao objetivo maior das reflexões, de estabele-cer uma interface entre a entropia psíquica e a Educação das Emoções e mostramos a importância do conceito de entropia psíquica en-quanto instrumento de reflexão para a educação. Em resumo, podemos dizer que se o propósito maior da Educação é propiciar condições para que o educando seja feliz, isto assume maior realce no caso da Educação das Emoções. E dentro de uma cosmovisão entrópica, podemos considerar como o objetivo último da Educação das Emoções que o educando desenvolva as competências necessárias para reduzir ao mínimo sua entropia psíquica, pois a felicidade, como foi demonstrado nestas reflexões, cursa com a ordem mental, com uma en-tropia psíquica tão reduzida quanto possível.

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Quarta-feira, 08/02/2012.

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