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EMOÇÃO E VALOR
Jair de Oliveira Santos
Salvador – Bahia
Maio de 2006
“As emoções são internas aos valores, em verdade tão internas que são inseparáveis deles ou mesmo expressão deles.”
Michael Stocker
O Valor das Emoções, 2002.
INTRODUÇÃO
A necessidade da Faculdade Castro Alves de estabelecer um referencial teórico como parâmetro para a concepção e operacionalização do seu “Programa de Educação e Clarificação de Valores”, destinado a seus professores, alunos, gestores e corpo técnico administrativo, foi o objetivo inicial deste trabalho.
O citado programa tem como objetivos clarificar e analisar, para a comunidade docente, discente e administrativa da Instituição, os valores contidos nos seus estatutos, além de permitir a cada membro da Instituição clarificar e analisar os seus valores pessoais, de modo que possam definir seus campos de valores e delimitá-los em relação a seus parceiros sociais, facilitando assim seus desenvolvimentos enquanto pessoas.
Nosso interesse pela Teoria dos Valores data do início dos anos 80, quando publicamos dois livros, “Educação Médica e Humanismo” e “Educação Médica: Filosofia, Valores e Ensino”.
Posteriormente nossas reflexões nos levaram a estabelecer outro objetivo para este trabalho, o de criar uma interação e integração entre o Programa de Educação e Clarificação de Valores e o Programa de Educação das Emoções da Instituição mediante o estudo das relações entre Emoção e Valor.
Tivemos a atenção despertada com maior profundidade para o estudo sistemático das Emoções no início dos anos 90 o que foi expresso nos livros publicados: Educação Emocional na Escola, 1a e 2a ed. (2000), Manual de Educação Emocional” (2002), Educação Emocional - aspectos históricos, fundamentos e resultados (1997) e Educação das Emoções, no prelo (2006).
Publicamos também sobre emoções as seguintes monografias: Entropia Psíquica e Educação das Emoções (2005), Um Paradigma para a Educação Pós-Moderna (2004), Psicologia Positiva e Liderança (2004), Alquimia Emocional (2002), Educação Emocional, Relacionamento e Saúde (2001), Paciência - um antídoto da Raiva (2001), Manuais do Medo, do Estresse, do Controle da Raiva, da Tristeza, da Autoconsciência (1998), da Educação Emocional (1997), da Comunicação e do Relacionamento (1999).
Para elaborar este trabalho, em nossas reflexões procura-mos responder as seguintes indagações:
A emoção é parte constituinte do valor? Como as emoções constituem o valor? As emoções denotam valores e permitem revelá-los e identificá-los? É possível estabelecer a relação entre uma emoção e o valor que ela denota? A emoção propriamente dita e a competência emocional são valores? Qual o significado epistemológico das emoções nos processos de auto-conhecimento e conhecimento do outro? Qual a importância da emoção nos processos de valoração e avaliação? E na elaboração de juízos de valor e de julgamentos morais e éticos? A emo-ção é importante no aperfeiçoamento da pessoa e nas tomadas de decisão?
Como introdução do estudo, fizemos a análise do conceito e significado de valor nas perspectivas filosófica, psicológica e sociológica, e continuamos com o conceito e significado axiológico das emoções, fundamentados nas recentes idéias do neurofisiologista António Damásio e do psicólogo Csikszentmihayi. Abordamos a relação entre emoção e valor, concluindo que ela é importante na constituição dos valores, daí sua importância axiológica.
Continuamos com a análise da competência emocional, com ênfase nas perspectivas de Perrenoud, Goleman e Boyatzis mostrando seu significado axiológico. Segue a análise das relações entre valoração, avaliação e emoção ficando realçada a importância das emoções e dos afetos, tanto na valoração quanto na avaliação.
No curso dos estudos e reflexões a que este trabalho nos levou surgiu outro objetivo, de fornecer elementos para concepção e construção, por parte de sua comunidade docente, discente e ad-ministrativa, do “Paradigma da Faculdade Castro Alves”. Tal para-digma, dentro da concepção paradigmática de Thomas Kuhn, que considera um paradigma como expressão de um compromisso gru-pal, tem por finalidade construir, clarificar e institucionalizar os valores, crenças e generalizações simbólicas que devem ser consi-derados pelos membros da comunidade da Instituição em suas atividades.
Neste momento a Faculdade Castro Alves está constituindo uma comunidade científica para o estudo das emoções, particularmente para aplicação prática no campo da educação das emoções, em que tem sólida experiência bem sucedida, desde sua fundação há seis anos.
Daí a necessidade de constituir e explicitar um paradigma para a Instituição, dentro dos preceitos de Kuhn, com conceituação de seus valores, de suas crenças em determinadas idéias e modelos, de suas generalizações simbólicas que funcionem como normas institucionais, com definição de tipos de predições qualitativas e quantitativas e margens de erros a serem aceitas, de critérios para coerência interna, de modo que a comunidade se constitua em um todo que funcione de modo coerente, evitando assim entropia psicológica entre seus membros.
Com base em Santos (2005), entendemos que a construção coletiva de um paradigma diminuirá grandemente a possibilidade de existência da entropia psíquica entre os membros da comunidade, entropia esta que levará a atritos internos e conseqüente diminuição da produtividade acadêmica. A definição clara de princípios e normas que fundamentarão e nortearão as atividades grupais permitirá melhor compreensão humana entre os membros do grupo e maior coerência em suas atitudes e ações.
Jair de Oliveira Santos
Maio de 2006
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EMOÇÃO E VALOR
De início analisaremos a relação entre os conceitos de emoção e valor, sua natureza e em que consiste. Para tal, estabeleceremos um quadro referencial teórico, explicitando os conceitos considerados.
Conceito e significado de Valor
Para Hessen (1980a) a palavra valor pode significar três coisas diferentes: a vivência de um valor, referente ao domínio da consciência do sujeito cognoscente; a qualidade de valor de uma coisa, que expressa uma propriedade do objeto conhecido, um modo de ser da coisa; a idéia de valor em si mesma, que consiste no gênero sob o qual incluimos o conteúdo de todas as nos-sas vivências da mesma espécie.
O valor para Hessen (1980 a), numa abordagem fenomenológica e sem admitir nenhum conceito apriorístico,“É tudo aquilo que for apropriado para satisfazer determinadas necessidades humanas”.
O conceito de valor se refere às necessidades vitais, relacionadas com a biologia e às necessidades espirituais, incluídas aí as necessidades éticas, estéticas e religiosas. Para o autor, todo valor só existe para um determinado sujeito e o valor só é valor para alguém, pois
Valor é a qualidade de uma coisa que só pode pertencer-lhe em função de um sujei-to dotado com uma certa consciência capaz de a registrar. ( p.47)
Para Brameld (1980) a importância do(s) valor(es) na tomada de decisões, na escolha, é relevante e assume particular im-portância no caso da educação, pois através dela se dá a trans-missão e enriquecimento dos valores explícitos e implícitos de uma cultura. A educação, portanto deve prescrever os valores necessários para garantir que os fins da cultura a que serve sejam buscados e conquistados.
Para Santos (1987) a posição assumida em relação aos valores é função dos princípios filosóficos adotados. O idealista sustenta haver uma hierarquia de valores, em cujo topo estão os valores espirituais. O realista situa os valores racionais no topo, pois eles ajudam no ajustamento à realidade objetiva, às leis da natureza e às regras da lógica. O pragmatismo nega a existência de hierarquia fixa de valores e considera uma atividade tão boa quanto outra se for satisfeita uma determinada necessidade da pessoa ou tiver significado instrumental para ela atingir seus propósitos.
Para Jones(1976), o valor expressa uma relação entre os sentimentos de uma pessoa e determinadas categorias cogniti-vas.
Uma guerra (objeto pertencente à categoria cognitiva) é má (expressão de um sentimento) e um valor negativo. Um alimento (categoria cognitiva) é bom (expressão de um sentimento) e é um valor positivo. Assim, sob o ponto de vista psicológico, o valor implica na existência de uma relação entre elementos cogniti-vos e afetivos.
Allport (1976) coloca o conceito de valor no centro da vida e das aspirações humanas ao conceituá-lo como uma crença que o homem se baseia para atuar por preferência.
Para Rokeach (1972) na mesma linha, um valor é uma crença duradoura em que um modo específico de conduta ou um estado definitivo de existência, é pessoal ou socialmente preferível a um modo inverso ou oposto de conduta ou estado definitivo de existência. Dá como exemplos de modos de conduta, ser ho-nesto, tolerante, bondoso e de estados definitivos de existência segurança, tranqüilidade, etc.
Weil (2002, p 47) considera que
Valor é uma variável da mente que faz com que o ser humano decida ou escolha se comportar numa determinada direção e dentro de de-terminada importância.
Weil considera no valor três dimensões: uma cognitivo, uma afetivo e uma conativa. Na dimensão cognitiva, como causa de ação, é um pensamento, uma idéia ou uma representação mental. Na afetiva o valor é acompanhado de atitudes ou de emo-ções. A dimensão conativa do valor está na decisão, que leva posteriormente à ação.
O autor considera dois tipos de valores, os construtivos e os destrutivos. Os construtivos são os que estimulam comportamentos que favorecem a existência dos seres vivos no tocante a sua manutenção, sua felicidade e sua participação social produtiva. Os destrutivos são os que contribuem para a desagregação da existência dos seres vivos, impedindo ou prejudicando suas evoluções nas direções citadas.
Para Raths (1966), o valor é um guia que dá direção à vida da pessoa e orienta o que ela faz com seu tempo e energia. Os valores animam as pessoas e fazem elas se movimentarem no ambiente em que vivem, em busca de elogios e prazeres. São as marcas das experiências vividas e uma mudança nos padrões de experiências pode gerar modificações neles pois da mesma forma que as experiências se modificam, modificam-se os valores.
Adotaremos no nosso trabalho a concepção de Raths (1966), na qual o processo de valoração tem máxima importância. Só é valor algo que satisfaça a três condições básicas: existência de escolha prévia, apreciação do escolhido pela pessoa de modo que se sinta satisfeita e que seja praticada a ação para concretizar a preferência.
Um valor deve atender aos seguintes critérios:
• liberdade de escolha;
• escolha entre alternativas;
• escolha ponderada considerando as conseqüências;
• apreciação e estima da alternativa escolhida;
• afirmação pública da preferência;
• ação em relação à preferência, repetidamente.
Em síntese:
O valor é escolhido livremente, dentre alternativas, com a-preciação da escolha, sentimento de satisfação em relação a ela, ação de acordo com a preferência, publica e repetida.
Indicadores de Valor - o indicador de valor, segundo Raths (1966), não é um valor propriamente dito, pois não atende os critérios anteriores, mas indica a presença de um valor.
O autor considera os seguintes indicadores: propósitos, aspirações, atitudes, interesses, sentimentos, crenças, convicções, atividades, preocupações, problemas e obstáculos.
Os propósitos são desejos que dão direção à vida e podem organizar a existência de quem se propõe a atingi-los. As aspirações são desejos aparentadas com os propósitos, que diferem deles por sua realização em prazo mais longo.
As atitudes expressam o modo pelo qual algo é aceito ou rejeitado, uma tendência à ação ou a um sentimento. O interesse geralmente significa que gostaríamos de ouvir alguém falar sobre algo ou que gostaríamos de ler algo mais sobre uma determinada área. Os sentimentos são manifestações de alegria, depressão, tristeza, mágoa ou excitação e são uma reação psicológica a determinada situação, não se enquadrando nos critérios de valor. As crenças, convicções, atitudes, preocupações, problemas e obstáculos podem se tornar valores, mas não necessariamente.
Para Hayes (2005) os valores são escolhas de direções em nossas vidas. Os valores guiam nossas vidas. O autor considera , numa metáfora, que nossa vida é como um ônibus que dirigimos ao longo de nossa existência, no qual vão entrando diversos passageiros: nossas memórias, sentimentos, emoções con-dicionadas, pensamentos programados, sensações corporais, impulsos, desejos, ansiedades, etc.
No decorrer da vida temos de escolher para onde o ônibus deve ir, qual direção devemos tomar: para o vale do norte, subir a montanha do sul, para a praia do leste ou para a floresta do oeste? Para onde ir? Qual direção devemos tomar?
São os valores que dão a direção de nossa vida e geralmente a escolha deles não é feita de modo consciente, pois vivemos no “piloto automático”. Daí a importância de aprendermos a identificar e clarificar nossos valores, pois, conscientes deles, poderemos orientar adequadamente nossas vidas.
A escolha de um valor não é necessariamente um processo racional, embora ela possa ser feita levando em consideração determinadas razões. A escolha difere do julgamento racional porque ao utilizar o julgamento para selecionar uma alternativa dentre outras existentes, comparamos cada alternativa com determinado padrão de referência.
Se você prefere comer peixe em vez de um sanduíche com presunto e maionese, deve decidir entre os dois alimentos e para isto considera como padrão ter uma boa alimentação para manter bem o coração e ter boa qualidade de vida.
O valor é diferente do julgamento: é uma escolha que não leva em conta a avaliação do escolhido. Avaliar algo implica em comparar o avaliado com determinado padrão. Quando você gosta mesmo de alguém, a pessoa amada é um valor seu e ao escolher gostar dela em vez de outra, você não a comparou com nenhuma outra, antes de escolher. Você gosta dela porque gosta, e pronto.
O valor é em si mesmo e não depende da ação da razão, pois a escolha de um valor não é guiada por uma avaliação pré-via com participação racional.
Veremos adiante que Stocker (2002) diferencia os conceitos de valor e valoração. Considera que valoração é um processo de atribuição de valor a algo, no qual a pessoa seleciona uma alternativa dentre outras depois de justificar para si mesma sua preferência.
Os valores são expressos por verbos, pois indicam ação. O valor é alguma coisa que você faz. Não é um objeto, um substantivo, nem um adjetivo. Assim, a verdade, enquanto objeto ideal procurado pelo homem, não é um valor, mas a busca da verdade, a ação de buscar a verdade, é, pois é uma ação. Vale tanto para a busca da verdade imanente, lógica, intrínseca ao pensamento, quanto para a busca da verdade transcendente, que transcende ao pensamento e representa a adequação da idéia referente a um objeto com o objeto propriamente dito.
Conceito e significado axiológico de Emoção
A palavra “emoção”, origina-se do latim emovere. Tem como raízes ex = para fora e movere = movimento. Etimologicamente significa “movimento para fora”.
Para Goleman(1995,p.305), citando o Oxford English Dictionary, emoção é “qualquer agitação ou perturbação da mente, sentimento, paixão, qualquer estado mental veemente ou excitado”.
Para o autor a emoção
Se refere a um sentimento e seus pensamentos distintos, estados psicológicos e biológicos e a uma gama de tendências para agir. (GOLEMAN,1995,p.305)
Para Csikszentmihayi (1998), a emoção é a atitude que a consciência adota em relação à informação que está sendo pro-cessada, basicamente em relação ao eixo “agradável - desagradável”.
Para Damásio (2004) a emoção é uma forma de adaptação dos seres vivos às mudanças do meio ambiente. Considera que as diversas formas de reação do organismo às mudanças do ambiente, são controladas através da homeostase – conjunto de reações automáticas necessárias para manter estável o meio interno de um organismo vivo.
Para o autor são cinco os estágios que surgem durante a evolução dos seres vivos: no primeiro estão os processos metabólicos, reflexos básicos e o sistema imunológico. No segundo os comportamentos de dor e prazer; no terceiro as pulsões e motivações - fome, sede, curiosidade e comportamentos explo-ratórios, lúdicos e sexuais; no quarto as emoções propriamente ditas: alegria, prazer, medo, ansiedade, angústia, culpa, raiva, tristeza, orgulho, nojo, etc.
No quinto estão os sentimentos, que são expressões mentais das emoções. O sentimento é a percepção da emoção e só existe no homem pois só ele têm consciência, percepção de si mesmo.
Damásio também diferencia as emoções dos sentimentos, embora reconheça que o uso habitual da palavra “emoção” inclui a noção de sentimento. Considera que a emoção é a parte pública, exterior, visível do processo e que a parte privada, interna, não visível dele é o sentimento.
A emoção precede ao sentimento na escala biológica, surge primeiro nos répteis e nos animais que os sucederam na evolução, até chegar ao homem.
Adotaremos como conceito operacional que a emoção é um processo de reação adaptativa orgânica automática que faz parte da evolução dos seres vivos, podendo expressar-se em ter-mos corporais, mentais e comportamentais. É uma resposta a estímulos que podem vir do meio orgânico interno ou do meio externo ambiental.
Alegria, prazer e suas variantes estão relacionados com a recompensa, com a tendência à aproximação existente nos seres localizados nos níveis inferiores da evolução. Medo, ansiedade, angústia e culpa estão relacionados com a punição, com o afastamento e constituem uma reação de fuga a uma ameaça.
A raiva é uma reação de luta a uma invasão da privacidade do indivíduo, e a tristeza é uma reação a uma perda. O orgulho é uma reação de prazer a uma situação, podendo tornar-se uma reação de superioridade e o nojo é uma reação a algo que pode ser maléfico ao organismo.
Consideramos o sentimento a percepção de uma emoção, expressão mental dela, que só existe no homem porque só ele têm consciência. Filogeneticamente a emoção precede ao sentimento. Pesquisas recentes feitas no homem localizam em sítios cerebrais diferentes as regiões ativadas nas emoções e nos sentimentos. Nos sentimentos as regiões cerebrais ativadas localizam-se principalmente no córtex cerebral do lobo da insula e no cíngulo cérebro.
A emoção propriamente dita não é um valor em si, pois como objeto observado e conhecido pelo self do sujeito cognoscente, não pode ser um valor, pois valor é um atributo do objeto, não fazendo parte de seu ser. Segundo Hessen (1980a) e na perspectiva do subjetivismo axiológico, o valor é propriedade do sujeito, pertencendo a ele e não ao objeto.
Se uma pessoa sofre uma agressão física, automaticamente, numa reação natural, fica com raiva do agressor. Ela não es-colhe se vai ou não ficar com raiva, portanto a raiva não pode ser considerada um valor para ela, pois não foi atendido o primeiro critério do processo de valoração: não houve escolha.
Mas o efeito comportamental da emoção que ela terá, é um valor, pois a pessoa poderá escolher ter um determinado com-portamento: poderá entregar-se ao impulso de lutar com seu agressor, ou poderá controlá-lo e não partir para a agressão. Depois de escolher livremente qual comportamento deve ter e de apreciar sua escolha, ela poderá então praticar a ação correspondente e agir repetidamente desta forma. E este compor-tamento é um valor
Dentro desta perspectiva, medo, alegria, raiva, tristeza e ou-tras emoções não são valores em si, como objetos da consciência do sujeito cognoscente. Os efeitos comportamentais destas emoções se tornam valores, depois de passarem pelo processo de valoração e serem escolhidos pelo sujeito.
A análise feita acima é pertinente para as emoções conscientes, percebidas sob a forma dos sentimentos correspondentes. Mas as emoções propriamente ditas, segundo Damásio18, não são percebidas pelo córtex cerebral, e sim reações automáticas do organismo reguladas pelo processo homeostático, pelo protoself, que é o estado de atividade do conjunto de mecanismos constituintes do processo da homeostase.
Segundo Zajonc (1988) há emoções que não são percebidas pelo consciente e permanecem ao nível do inconsciente emocional. Ele demonstrou que as preferências de uma pessoa, suas reações emocionais, podem ser formadas sem qualquer re-gistro consciente de estímulos, ou seja, sem a participação da cognição.
A emoção para o autor independe da cognição e tem primazia sobre ela. Experiências com exposição subliminar a estímu-los (exposição a objetos durante 5 milésimos de segundos) mostraram que as pessoas pesquisadas tiveram preferência pelos objetos aos quais foram expostos previamente de modo subliminar
Recentemente Le Doux (1998) descobriu um feixe de neurônios ligando um centro cerebral, o tálamo, à amígdala cerebral, órgão relacionado com a produção e controle das emoções. Este feixe permite à amígdala receber estímulos diretamente, antes deles transitarem pelo córtex cerebral e permite que ela inicie uma resposta orgânica mais rápida do que a existiria se o estímulo transitasse pelo córtex cerebral, que é via cognitiva natural.
Isto indica que, em certas circunstâncias de perigo a emoção de uma pessoa pode antecipar-se à sua cognição, à sua compreensão, ao seu pensamento e à sua razão. Quando estamos diante de uma ameaça eminente e reagimos automaticamente nos defendendo. Somente depois teremos consciência do perigo que passamos bem como nosso comportamento. Esta é uma situação em que a emoção é mais importante para a vida huma-na do que a própria razão.
Este tipo de emoção descrito acima, uma emoção propriamente dita, jamais pode ser um valor, pois seus efeitos cognitivos não são percebidos pela pessoa, não podendo portanto passar pelo processo de valoração.
Relação entre emoção e valor
Para Stocker (2002) as emoções são muito importantes por-que além de serem reveladoras de valores, são também seus constituintes essenciais. Se você orgulha-se de algo ou de alguém, isto indica que este algo ou alguém tem valor para você, pois você preferiu orgulhar-se dela e não de outra – houve escolha.
Se você ama alguém, essa pessoa tem valor para você, que a preferiu para amar e não a outra. Se você ficar triste porque perdeu alguma coisa, é porque essa coisa tem valor para você que ficou triste por ela e não por outra coisa.
Ontogênese dos valores - ao fazer-se a ontogênese dos va-lores, constata-se que as emoções são constituintes deles. Dentro dos critérios de Raths (1966) algo para ser considerado valor, deve ser primeiro selecionado livremente, dentre outras alternativas.
Esta escolha é fundamentada nas emoções do sujeito valorante, participando dela a emoção agradável, pois ninguém, em condições de normalidade, livremente, escolhe algo que lhe é desagradável. Um dos princípios básicos da psicologia humana ensina que quando alguém escolhe algo, prefere aquilo que lhe traz prazer, que lhe seja agradável e não o que lhe traga dor e sofrimento. Então Stocker (2002) tem toda razão ao dizer que as emoções são internas aos valores, tão internas que se tornam inseparáveis deles.
Continuando o processo de valoração a pessoa faz a apreciação, a avaliação da escolha realizada que depende, de um lado, de fatores afetivos como sua atitude, interesses, emoções e sentimentos, e de outro lado de fatores extra-emocionais da emoção, de padrões a ela subjacentes, como de sua atenção, seus desejos e pensamentos. É importante que após a aprecia-ção a pessoa se sinta confortável e satisfeita com a escolha feita.
Nenhuma pessoa normal, saudável escolhe como valor algo que lhe seja desagradável. Mesmo aqueles que escolhem como valor o sofrimento, como os masoquistas, têm satisfação com sua escolha, tanto que repetem a situação causadora de sofrimento repetidas vezes, como os masoquistas sexuais que sentem prazer em serem chicoteados e maltratados fisicamente durante o ato sexual.
Somente depois da apreciação, e de ser colocado em ação repetidamente, o objeto passa a ser um valor para aquela pessoa.
Percebe-se, assim, que a emoção é parte constituinte do valor, ficando também fácil compreender porque as emoções são reveladoras de valores, comprovando-se a validade da afirmação de que as emoções denotam valores.
COMPETÊNCIA EMOCIONAL:
SIGNIFICADO AXIOLÓGICO
Conceito e significado axiológico de Competência
A análise do significado da expressão “competência emocional” passa pelo exame do significado dos vocábulos “competência” e “emocional”.
A palavra competência vem do latim competentia, e segundo o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1986) é a “qualidade de quem é capaz de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa; capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade”.
Para Perrenoud (2000), competência é a faculdade de mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, informações, capacidades, etc.) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações.
Como, conforme demonstrado por Damásio (1996) e (2004), as emoções participam do ato da vontade na fase de decisão, acreditamos que deva ser levada em conta a dimensão afetiva da personalidade humana no conceito de competência, e trabalharemos com o seguinte conceito:
Competência é a faculdade que uma pessoa tem de mobilizar os recursos cognitivos e afetivos necessários para solucionar com pertinência e eficácia uma situação.
O conceito de competência engloba cognição e ação, além da dimensão afetiva. A competência de alguém para executar algo implica que tenha os recursos cognitivos e afetivos indispensáveis, bem como as habilidades necessárias para modificar a situação da realidade através de ações eficientes e eficazes.
Um exemplo é o médico competente: profissional que tem a experiência e a cultura médica que lhe propiciem as informações necessárias e suficientes para, depois de analisar criticamente as informações colhidas no paciente, através do exame físico, história da doença e exames subsidiários, possa dar o diagnóstico da doença que acomete seu paciente e fazer a terapêutica necessária.
Consideramos competência um valor pois atende aos critérios de seleção, apreciação e ação. A pessoa escolhe se quer ser ou não ser competente em determinado aspecto de sua vida profissional ou pessoal. Ela escolhe se adquirirá ou não as informações e os saberes necessários para ter determinada com-petência e aprecia, se gosta ou não gosta da escolha, se vai executar ou não, repetidamente, as ações correspondentes a sua escolha. Ela pode, inclusive mudar, deixar de executar a escolha selecionada, se verificar que não está mais satisfeita com ela.
Significado axiológico de Competência Emocional
Consideramos Competência Emocional um valor, assim definido: Faculdade de uma pessoa de mobilizar seus recursos cognitivos e afetivos para solucionar com pertinência e eficácia situações em que é envolvido pelas emoções, de modo a ter au-toconsciência, autogestão delas e consciência social delas e saber administrar adequadamente seus relacionamentos.
A validação do conceito surge da leitura dos comentários feitos a propósito do conceito de competência, e da aplicação dos elementos do processo de valoração a ele.
Para Goleman e Boyatzis (2002), as competências emocionais básicas são duas, a pessoal e a social, e pertencem aos quatro domínios da inteligência emocional: autoconsciência, au-togestão, consciência social e administração de relacionamentos.
A competência emocional pessoal engloba a autoconsciência emocional e a autogestão emocional.
As competências da autoconsciência emocional são três:
• Identificar as próprias emoções e seus impactos; usar a “intuição” para guiar as decisões.
• Fazer auto-avaliação precisa: conhecer nossos limites e possibilidades.
• Desenvolver autoconfiança: um sólido senso de nosso próprio valor e capacidade.
As competências da autogestão emocional são seis:
• Autocontrole emocional: controlar as emoções e os impul-sos destrutivos.
• Transparência: ser honesto, íntegro e digno de confiança.
• Adaptabilidade: flexibilidade na adaptação a novas situa-ções ou na superação de obstáculos.
• Superação: ímpeto para melhorar o desempenho a fim de satisfazer padrões interiores de excelência.
• Iniciativa: prontidão para agir e aproveitar oportunidades.
• Otimismo: ver o lado bom dos acontecimentos.
A competência emocional social engloba a consciência soci-al e a administração de relacionamentos.
As competências da consciência social são três:
• Empatia: perceber as emoções alheias, compreender seu ponto de vista e interessar-se ativamente por suas preocupações.
• Consciência organizacional: identificar as tendências, as redes de decisão e a política em nível organizacional.
• Serviço: reconhecer e satisfazer as necessidades dos subordinados e clientes.
As competências da administração de relacionamentos são seis:
• Liderança inspiradora: orientar e motivar com visão instigante os colaboradores.
• Influência: dispor de uma variedade de táticas para persuasão;
• Desenvolvimento dos demais: cultivar as capacidades alheias por meio do feed-back e da orientação.
• Catalisação de mudanças: iniciar, gerenciar e liderar em uma nova direção.
• Gerenciamento de conflitos: solucionar divergências.
• Trabalho em equipe e Colaboração cooperação e criação em grupo.
EMOÇÃO E VALORAÇÃO
Para Stocker (2002) devemos diferenciar os conceitos de valor e valoração. O valor consiste em uma preferência natural da pessoa, como o leite para uma criança que está sendo amamentada ela escolhe o leite materno e o ingere por um impulso natural, que surge devido às suas necessidades biológicas, às suas carências de prote-ínas, gorduras, glúcidas e minerais. O leite é um valor para ela.
É diferente da situação de um adulto que come uma verdura, como a cenoura: pode ser até que ele não goste, mas aprendeu que seu organismo precisa da vitamina A e dos beta carotenos contidos na cenoura e por isto passa a comê-la diariamente. A pessoa se convence da necessidade de ingerir determinado alimento, através de um processo de cognição, de reflexão e este alimento passa a ser um valor para ela. Houve um processo de valoração do objeto, que passou a ser um valor para a pessoa.
A valoração é um processo de atribuição de valor a algo. No processo de valoração, que é um processo lógico, a pessoa explica e justifica para si mesma porque algo deve ser valor para ela. A emoção participa da valoração, quando ela considera se o objeto valorado é agradável ou não para ela, ao fazer sua apreciação e avaliação. Neste momento entra em ação a dimensão afetiva da emoção propriamente dita. No caso da cenoura, se a pessoa não gostar do seu sabor, dificilmente conseguirá comê-la e ela não será valor para ela.
O exercício físico não é valor para muitas pessoas, mesmo elas sabendo de suas vantagens para a saúde, simplesmente porque elas não gostam de fazer exercício físico.
EMOÇÃO E AVALIAÇÃO
Para um dado sujeito, são coisas diferentes avaliar algo (objeto, situação ou pessoa), fazer a valoração de algo e considerar algo como valor.
Para Dorsch (2004) avaliação significa triagem, valorização e interpretação de informações sobre o efeito de ações. A avaliação tem como finalidade avaliar e legitimar as ações, decidir sobre elas e melhorá-las.
Entendemos que avaliar algo significa identificar qualitativa e quantitativamente as características de um objeto, situação ou ação, situá-lo em um contexto e inferir sua importância, significado, valor e utilidade em relação a determinado referencial.
Avaliar uma guerra significa identificar mentalmente seus horrores e o sofrimento dos que dela participam e, comparar o quadro mental elaborado com uma situação de paz, completando o trabalho de avaliação.
Para Stocker (2002) toda avaliação leva em si mesma carga afetiva maior ou menor do avaliador, a depender das circunstâncias. Mesmo sem estar consciente, o avaliador leva em conta sua atitude em relação ao objeto observado, seus interesses, sentimentos e emoções, e também elementos não afetivos de suas emoções, padrões a ela subjacentes, constituídos por seus pensamentos, atenção, desejos e valores.
Na nossa vida diariamente estamos sempre avaliando pes-soas, acontecimentos e circunstâncias que nos cercam, para decidirmos o que devemos fazer e nos adaptarmos às mudanças contínuas da realidade, na qual devemos tenta interferir para atingir nossos propósitos e ações, que dependem de nossas escolhas e decisões.
Nossas avaliações dependem de nossas emoções e a cada momento estamos exercitando nossa emocionalidade, exteriorizando as emoções, em maior ou em menor intensidade, sempre, de forma continuada. Ás vezes nossas emoções são bem evidentes e dominam nosso comportamento, quando temos grandes raivas, alegrias, medos, tristezas ou outras emoções fortes.
Como considera Damásio (2004) as emoções fazem parte do arsenal que os seres vivos dispõem para promover a regulação da vida, e constituem uma reação adaptativa que surgiu na evolução dos seres vivos, para permitir que eles se adaptem a novas circunstâncias existentes no meio ambiente externo ou interno. E isto é particularmente válido para os seres humanos.
É um erro pensar-se que as emoções só ocorrem episodicamen-te em nossas vidas e isto decorre de não termos a atenção voltada para elas devidamente, porque não fomos educados para percebê-las e identificá-las. É um traço de nossa cultura que geralmente as pessoas só tomam conhecimento de suas emoções quando elas são muito intensas e principalmente quando seus efeitos são danosos para si mesmas ou para outras pessoas de seus relacionamentos – quando têm raiva muito intensa ou um medo muito forte, que as tiram do sério, deixando-as completamente descontroladas.
Nossa educação tem como tradição voltar-se, se não exclusivamente, mas de forma predominante, para as coisas da razão, em decorrência da filosofia do Iluminismo, sublinhada por Descartes, conforme Padovani (1974), no famoso “cogito ergo sum” - penso logo existo, que induziu na nossa cultura a depre-ciação das emoções e de tudo que é ligado a elas.
Na realidade, sob o ponto de vista ontogenético e filogenético o enunciado correto deveria ser “cogito et sinto ergo sum” - penso e sinto, logo existo. Na verdade, primeiro surgiram a emoção e os sentimentos nos seres humanos, concomitantemente ao desenvolvimento do sistema límbico e depois veio a razão, conseqüência do desenvolvimento do córtex cerebral.
Daí a necessidade da educação das emoções, para podermos avaliar adequadamente a importância delas e dos sentimentos na vida humana, na elaboração de pensamentos e julgamentos avaliadores e na formação de juízos de valor éticos. É importante a empatia na avaliação, pois através dela uma pes-soa pode compreender melhor o outro a que se propõe avaliar.
Stocker (2002), lembra que filósofos modernos como Schachtel, Krystal e Tomkins sustentam que nossas vidas são basicamente emocionais e que as emoções são essenciais para a pessoa poder avaliar, elaborar julgamentos morais e praticar atos válidos eticamente.
Reproduzimos a seguir a citação de Falk feita por Stocker( 2002, p. 140):
“Que algo tenha o poder de favorecer uma verdadeira compreensão do que pareça ser (isto é, do que seja bom), dependeria em parte da coisa que pareça ser e em parte da afetividade dos que experimentam isso ou o contemplam pelo que parece ser. Nada poderia ter provavelmente valor exceto para os que podem amar ou odiar”.
Strawson citado por Stocker (2002,p. 392) declara que:
“ A existência de um quadro referencial de atitudes é algo que nos é dado com a ocorrência da sociedade humana”.
Para ele ter atitudes reativas é essencial para ser reconhecido como pessoa e essencial para o entender a importância da avaliação e de fazer avaliações sobre pessoas e comunidades.
As emoções são epistemologicamente importantes para as avaliações e para o conhecimento avaliador, não sendo verdade dizer que elas colocam numa posição epistemológica ruim quem está avaliando. Isto só ocorre se forem muito fortes e prejudicarem a percepção da realidade feita pelo observador.
Erros de avaliação ocorrem tanto na presença de emoções como em julgamentos racionais desde quando eles se baseiem em crenças, fatos ou premissas não verdadeiras.
Estamos permanentemente avaliando o mundo e as avaliações que fazemos têm um processo emocional subjacente, do qual participa a emoção propriamente dita e também seus constituintes não emocionais como o pensamento, desejo, atenção e valores do avaliador. As emoções são mais importantes em nossas vidas do que pensamos.
Em cada avaliação pode predominar o componente emocional ou o racional, assim como pode haver equilíbrio entre eles. Se na avaliação predomina o componente emocional, provavelmente ela será inadequada e deverá ser refeita em outro momento, após a cessação dos efeitos da emoção dominante, positiva ou negativa.
Ao avaliarmos as qualidades de uma pessoa querida num momento de enlevo afetivo, seguramente estaremos superestimando suas qualidades e a veremos com menos defeitos do que ela tem. De forma semelhante, se avaliarmos as qualidades de uma pessoa com que estamos com raiva no momento, seremos muito severos com ela e veremos mais defeitos do que ela tem. A “cabeça fria” sempre será um juiz melhor do que a “cabeça quente”.
A emoção é especialmente importante para avaliação de outras pessoas. Se o avaliador for uma pessoa emocionalmente fria, terá dificuldades para estabelecer empatia com o outro, e isto dificultará a ele colocar-se no lugar dele e com a visão de mundo que ele tem.
No campo da patologia, pacientes portadores de alexitimia têm dificuldades para expressar suas emoções e de distinguir quais emoções estão sentindo e em conseqüência têm dificuldades no relacionamento social, vivendo em constantes brigas com seus parceiros sociais, graças à incapacidade de avaliá-los cor-retamente.
Educação dos Valores
Consideraremos a Clarificação de Valores de Raths (1966) e a Análise de Valores proposta por Coombs (1982). Ambas têm como objetivo levar a pessoa a perceber os valores que são significativos, para ela, seu grupo e as instituições em que atuam, e perceber os juízos de valor que são veiculados na cultura em que vive.
A partir da conscientização de seus valores, a pessoa terá condições de conhecer-se melhor e às pessoas com quem convive. Situando-se enquanto pessoa singular, ganha condições para definir suas semelhanças e diferenças com “o outro”. Defi-nindo seu campo de valores, poderá situar-se melhor nele e ampliá-lo.
Análise dos Valores
Enquanto a clarificação de valores faz uma abordagem fenomenológica-existencial dos valores, a análise dos valores é uma abordagem racionalista, e expressa a perspectiva de um ser humano racional, que pode resolver as questões referentes a seus valores aplicando a razão e o método. Procura levar o es-tudante a raciocinar sobre o princípio e fatos relevantes, subjacentes a seus juízos de valor.
Limita o significado de valor a um julgamento de valor — é o julgamento que avalia as coisas com respeito aos seus merecimentos. Os critérios de avaliação adotados são de natureza mo-ral, estética, econômica, etc., e os objetos são avaliados de acordo com os valores assumidos pela pessoa.
Seu propósito básico é auxiliar os estudantes a usarem o raciocínio lógico e procedimentos da investigação científica no tratamento das questões referentes aos valores e seu principal ob-jetivo é questionar as razões que suportam os julgamentos de valor.
Clarificação de Valores
Raths (1966) acredita que o tipo de sociedade atual, com suas mudanças rápidas e excessivas, determina uma certa con-fusão de valores nas pessoas, que passam a ter dificuldades em estabelecê-los e ficam sem objetivos claros. Elas não sabem claramente a favor do que ficam ou contra o que ficam, para on-de estão indo e o porque de suas ações. Quando os valores não são explicitados, a pessoa perde a direção de sua vida, e os critérios de escolha do que fazer com seu tempo, com sua energia e com seu ser.
Para Raths, a confusão de valores pode levar a pessoa à apatia, desinteresse, conformidade e incapacidade de realização. Acredita existirem evidências de que a clarificação de valores ajuda muitos estudantes a se tornarem mais cheios de propósitos, mais entusiasmados, mais positivos e mais conscientes daquilo que vale a pena esforçar-se para obter.
A clarificação de valores se preocupa mais com o processo de valoração do que com o valor propriamente dito e Dewey 5 é o suporte desta visão, pois para ele o campo de valores pertence a esfera comportamental, no sentido de que deixam os fatos abertos a observação e ao teste, ficando assim excluída qualquer hipótese que trate o valor como independente do processo de vida, e o objetivismo axiológico.
Bicudo (1982) considera oportunos os pressupostos teóricos de Raths, pois abrem uma oportunidade para trabalhar com os valores. Enfatiza que a aprendizagem da pessoa sobre seus sentimentos é um importante caminho da auto-conscientização, representando uma ampliação do domínio de valores do estudante. Ao verificar que sua forma de sentir é a mesma dos outros, o aluno se percebe como ser singular, mas também como um ser que partilha da comunidade humana.
Apresentamos a seguir um guia por nós elaborado com a finalidade de lhe ajudar a identificar e clarificar os valores pessoais.
GUIA PARA CLARIFICAÇÃO
DE VALORES PESSOAIS
Valores são escolhas de direções em nossas vidas e funcionam como guias que orientam o que fazer com nosso tempo e energia. Para que algo seja considerado valor, este deve ser escolhido livremente e dentre alternativas e deixar quem escolhe satisfeito, a ponto de praticar suas ações de acordo com ela, repetidamente.
Na elaboração do roteiro tomamos como referências a proposta de Hayes (2005) de dividir a vida em domínios, as forças pessoais propostas por Peterson (2004) e os valores relacionados por Weil (2002).
Consideramos oito domínios para os valores:
Relacionamento no casamento ou íntimo /com os filhos/ com a família;
Relações sociais e amizades;
Profissão e emprego;
Educação / treinamento / desenvolvimento pessoal;
Lazer / recreação;
Espiritualidade;
Cidadania / Preservação Ambiental;
Saúde / bem estar físico;
Consideraremos como valores construtivos, conforme Weil, P. (2003), aqueles que estimulam comportamentos que favorecem a existência dos seres vivos no referente à sua manutenção, felicidade e participação social produtiva. Os valores destrutivos são os que contribuem para a desagregação da existência dos seres vivos, impedindo ou prejudicando suas evoluções nas direções citadas.
Na primeira coluna do quadro estão os domínios e na segunda alguns valores sugeridos para você clarificar, sendo que muitos se repetem em diferentes domínios. Além dos citados, considere todos que julgar apropriados.
Este quadro é para seu uso pessoal, exclusivamente.
Domínios de Valores |
Valores considerados |
| 1. Relacionamento no casamento ou íntimo e com os filhos e a família; |
® Identificar suas emoções e do parceiro(a) e compreender sua visão de mundo. |
| ® Respeitar o parceiro(a) |
| ® Ter paciência e tolerância com o parceiro(a) |
| ® Dialogar com o parceiro(a) e compreendê-lo(a) |
| ® Ser companheiro e cúmplice do parceiro(a) |
| ® Satisfazer o parceiro(a)no possível |
| ® Ser solidário |
| ® Agir com compaixão; |
| ® Amar e aceitar ser amado; |
| ® Dar apoio material, intelectual e emocional ao parceiro(a) |
| ® Ter autocontrole; |
| ® Perdoar; |
| ® Ser grato; |
| ® Ter humildade e modéstia; |
| ® Ser bondoso e generoso; |
| ® Ter bom humor para enfrentar as situações da vida; |
| ® Ser imparcial nos julgamentos; |
| ® Ser prudente e moderado; |
| ® Ser bom líder. |
| ®Outros valores: |
| 2. Relações sociais e amizades |
® Identificar suas emoções e as dos parceiros sociais e compreender suas visões de mundo; |
| ® Respeitar o parceiro social; |
| ® Ter paciência e tolerância; |
| ® Dialogar com o parceiro (a) social e compreendê-lo; |
| ® Satisfazer o parceiro social no possível; |
| ® Ter responsabilidade social; |
| ® Preservar sua liberdade de pensar e agir e sua autonomia pessoal nos relacionamentos; |
| ® Preservar sua privacidade. |
| ® Outros valores: |
| 3.Profissão e emprego |
® Identificar suas emoções e as dos colegas de profissão / emprego e compreender suas visões de mundo; |
| ® Respeitar os colegas de profissão / emprego |
| ® Ter paciência e tolerância. |
| ® Dialogar e compreender o colega de trabalho / emprego; |
| ® Satisfazer o parceiro de trabalho / emprego no possível. |
| ® Outros valores: |
| 4.Educação, treinamento e desenvolvimento pessoal |
® Buscar a Sabedoria |
| ® Buscar a Verdade |
| ® Esforçar-se para manter-se sempre atualizado nas áreas de conhecimento de sua predileção. |
| ® Outros valores: |
| 5.Lazer e recreação |
® Praticar esportes/ exercícios habitualmente; |
| ® Ver novelas e filmes de seu agrado; |
| ® Não ter vida sedentária; |
| ® Ler jornal diariamente e semanalmente revistas de informação; |
| ® Assistir diariamente jornais informativos na televisão. |
| ® Outros valores: |
| 6.Espiritualidade |
® Meditar regularmente; |
| ® Sentir-se e agir como parte da natureza; |
| ® Ler livros de seu agrado |
| ® Praticar religião ou equivalentes |
| ® Outros valores: |
| 7.Cidadania/ Preservação Ambiental |
® Conhecer as leis básicas do país. |
| ® Identificar seus direitos e deveres de cidadão. |
| ® Exercer seus direitos e deveres |
| ® Colaborar com a comunidade. |
| ® Respeitar a natureza e a vida |
| ® Evitar poluir o ambiente: não jogar lixo nas ruas e praias |
| ® Fazer parte de grupos e ser leal e dedicado a ele; |
| ® Respeitar as autoridades |
| ® Outros valores: |
| 8. Saúde e bem estar físico |
Praticar: |
| ® Exercícios físicos: andar, correr, musculação, nadar, etc. |
| ® Ter alimentação balanceada com frutas, verduras, legumes e carnes brancas; beber pelo menos 2 litros de água por dia. |
| ® Evitar comidas industrializadas. |
| ® Não fumar. |
| ® Usar álcool com moderação. |
| ® Outros valores: |
Além dos valores citados, você pode escolher outros entre os seguintes e incluí-los na área adequada.
Valores Construtivos |
Valores destrutivos |
| Desejar paz e tranqüilidade |
Agredir e ser cruel |
| Desejar prazer e alegria |
Destruir, ferir |
| Ter perseverança |
Entregar-se à raiva, mágoa e ressentimento |
| Lutar pelo sucesso e ter perspectiva de futuro |
Orgulhar-se de más ações |
| Ter disciplina |
Ser egoísta e possessivo |
| Ser honesto |
Guardar ódio / rancor e ser vingativo |
| Ter ambição comedida |
Ter ciúme |
| Ter entusiasmo pela vida |
Ser hostil |
| Ter esperança e otimismo |
Ter desprezo |
| Respeitar à democracia |
Ser dominador |
| Preservar sua dignidade e liberdade |
Agredir |
| Ter prestígio, poder e dinheiro |
Ter vaidade excessiva |
| Ser responsável e criterioso |
Entregar-se ao medo |
| Ter coragem |
Entregar-se à tristeza |
| Ter criatividade |
Gostar de humilhar |
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