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FACULDADE CASTRO ALVES
SUPERINTENDÊNCIA ACADÊMICA
NÚCLEO DE PESQUISA, PÓS-GRADUAÇÃO, EXTENSÃO,
ESTUDOS E DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL
Programa de Educação das Emoções
Programa de Iniciação Científica
Programa de Responsabilidade Social
VIII SEMINÁRIO
INTERDISCIPLINAR
Ciência dos Sentimentos
COORDENADOR CIENTÍFICO:
Prof. Dr. Jair de Oliveira Santos
Salvador – Bahia – Brasil
30 de setembro de 2006
“Os sentimentos de prazer ou de dor ou de toda e qualquer qualidade entre dor e prazer, os sen-timentos de toda e qualquer emoção, ou dos diversos estados que se relacionam com uma emoção qualquer, são a mais universal das melodias, uma canção que só descansa quando chega o sono e que se torna um verdadeiro hino quando a alegria nos ocupa, ou se desfaz em lúgubre réquiem quando a tristeza nos invade.”
António Damásio
INTRODUÇÃO À CIÊNCIA DOS SENTIMENTOS
Jair de Oliveira Santos
NATUREZA DO SENTIMENTO
Mapas cerebrais e sentimento
O corpo humano tem diversos órgão e sistemas que devem funcionar de modo integrado e harmônico para haver saúde e bem estar. Se você resolve dar uma corrida, vai fazer um esforço maior e seus músculos precisam de mais energia e força para o deslocamento.
A energia que eles precisam vem através do sangue e seu coração vai bater mais depressa mandando mais sangue para as pernas. Como será necessário mais oxigênio para os músculos se contraírem, seus pulmões vão trabalhar mais, sua respira-ção vai ficar mais rápida e mais forte.
A energia muscular vem da queima da glicose e você vai precisar mais dela no sangue que será lançada pelo fígado, e, se tudo funcionar de modo harmônico e integrado, você correrá confortavelmente, sem sentir nada.
Existe no organismo um controle não consciente do funcionamento dos órgãos que os faz funcionar de forma equilibrada, dentro de certos limites, de modo que uns atendem as necessidades dos outros. Para você correr, o coração, pulmão e fígado trabalham mais rapidamente, integradamente, para atender as necessidades dos músculos.
A coordenação do funcionamento dos órgãos é feita pelo cérebro, que permanentemente faz um levantamento da situação do corpo através de dados coletados no organismo e, com base nestes dados, elabora um mapa do seu estado naquele momen-to. As estruturas cerebrais recebem informações internas do corpo e as utilizam para controlar as funções orgânicas, integrar o funcionamento dos órgãos e manter a saúde.
A homeostase (homeos = igual, stase = estase) é a propriedade auto-reguladora de um sistema ou organismo, que permite manter o estado de equilíbrio de suas variáveis essenciais ou de seu meio ambiente. No sentido fisiológico é a tendência à estabilidade do meio interno do organismo.
É ela que garante o equilíbrio das funções do corpo e na sua origem estão mecanismos cerebrais que o mantém funcionando de forma equilibrada, dentro de certos limites, de modo contínuo e não consciente, com a estabilidade necessária à sobrevivência. Os mecanismos da homeostáticos são representados no cérebro continuadamente, de forma não consciente, expressan-do o estado de vida do corpo, a situação momentânea dos com-ponentes do organismo.
Para Damásio o sentimento resulta de informações recebi-das pelo o cérebro do estado do corpo em um momento:
“Um sentimento é a percepção de um certo estado do corpo, acompanhado pela percepção de pensamento com certos temas e pela percepção de certo modo de pensar”. (DAMÁSIO, 2004, p 92).
Assim, a origem do sentimento está na vida do corpo, tanto assim que quando morremos não temos mais sentimentos, pois não há mais vida.
Conteúdo e estrutura do sentimento
O conceito exposto implica na existência de dois componentes no sentimento: a experiência do sentir que é o sentimento propriamente dito e o pensamento que o acompanha, indissociável do sentimento e que se refere ao seu objeto, a temas vinculados ao sentimento considerado.
No caso do amor romântico, o pensamento do apaixonado pode ficar dominado pela imagem da pessoa amada de tal forma que ele pensará nela de forma obsessiva, dia e noite, compulsivamente. O sentimento do amor, a paixão, é indissociável do pensamento do apaixonado, sempre referente à pessoa amada.
O pensamento que acompanha qualquer forma de sentimento tem determinada forma que varia de emoção para emoção: na alegria, o pensamento é rápido e na tristeza é mais lento que o habitual.
Se você perde algo ou um ente querido, experimenta o sentimento da tristeza, que traduz o estado de vida do seu organismo naquele momento e que reflete a situação atual dos mapas do estado de seu organismo. Geralmente a tristeza é acompanhada de desânimo, apatia e redução das atividades físicas e mentais.
Concomitantemente à tristeza sentida, você tem pensamentos tristes, ligados ao objeto ou à pessoa querida perdida, que se caracterizam por serem pobres em imagens e por atraírem muito sua atenção que fica presa a eles.
Situação diferente ocorre quando você recebe um presente de alguém, gosta dele e fica alegre. O estímulo emocionalmente competente, o presente recebido gera em seu corpo a experiência do estado de alegria, inclusive devido à liberação de substâncias químicas como dopamina e noradrenalina.
Seu cérebro, ao fazer o mapeamento do corpo, detecta a mudança e a percebe sob a forma do sentimento da alegria. Você se sente alegre e em sua mente surgem pensamentos, que são alegres e se referem à situação experienciada, ao presente recebido. Tais pensamentos são ricos em imagens, mas não há grande concentração de sua atenção sobre elas, diferentemente do que ocorreria se os pensamentos fossem ligados à tristeza.
Para Damásio (2004) os sentimentos podem ter origem tan-to em emoções, como em impulsos, pulsões ou apetites desde quando existam estímulos devidamente competentes para desencadeá-los. Assim, os sentimentos podem emergir de qualquer reação homeostática que atinja determinado nível crítico, determinada intensidade que permita às estruturas cerebrais sua percepção ao registrar o mapa corporal daquele momento.
O coração, por exemplo, é permanentemente mapeado pelo cérebro, que recebe informações sobre a velocidade de seus batimentos, a intensidade de sua força de contração e a regularidade do seu ritmo, além de outras referentes ao seu metabolismo. Nós não temos consciência dos mapas do coração elabo-rados, nem da forma como são feitos e isto é válido para os ou-tros órgãos: rins, pulmões, fígado, sangue, estômago, ossos, músculos, etc.
Quando qualquer órgão funciona de modo inadequado, o cérebro toma as providências necessárias para restaurar o funcionamento regular.
O sentimento do amor
Se você está apaixonado e se encontra com a pessoa amada, fica feliz, alegre, sente prazer em estar com ela. Sente aumento de sua energia, fica hiperativo, o coração bate acelerado, tem palpitações, a respiração acelera e fica ansioso. Tudo isto corre por conta do aumento da concentração de dopamina e noradrenalina no sangue de seu cérebro, substâncias relacionadas com o sistema de recompensa do organismo que é capaz de identificar as recompensas, motivar-nos para alcançá-las e pro-mover comportamentos adequados para atingirmos os objetivos (Fischer, 2006).
Para Damásio (2004) as estruturas que elaboram os mapas do organismo situam-se em diversas regiões do sistema nervoso desde o tronco cerebral, hipotálamo, prosencéfalo basal e amígdala cerebral até aos córtices cerebrais mais diferenciados. O cérebro elabora mapas do seu próprio funcionamento, para fazer seu próprio controle.
Em síntese, o sentimento é a percepção da representação de um determinado estado de funcionamento do corpo, conhecido através de um “mapa” elaborado com dados coletados em cada órgão. As informações utilizadas na elaboração dos mapas emergem de reações homeostáticas que se processam em todo o organismo, com a finalidade de equilibrar seu funcionamento e estão relacionadas com as pulsões, motivações, emoções, impulsos, etc.
Ainda conforme Damásio a idéia tradicional de sentimento não é aceitável por não levar em consideração o estado de funcionamento do corpo e tal concepção esvazia os conceitos de sentimento e de emoção, que é uma reação natural do corpo a estímulos.
Sentimentos de fundo
Damásio (2004) também considera a existência dos senti-mentos de fundo que são expressões do funcionamento do or-ganismo. Eles são responsáveis por nos sentirmos bem em determinados dias, entusiasmados com a vida e outros dias apáticos, sem muita vontade para fazer as coisas.
Por causa dos sentimentos de fundo, tem dias que quando acordamos estamos calmos e em outros estamos irritados, estressados e ansiosos. Eles são responsáveis pelo mal estar que sentimos quando estamos doentes ou pelo vigor que temos quando estamos com saúde, e a explicação para a existência deles é que sinais eletroquímicos vindos do tronco cerebral e hipotálamo entram continuamente na consciência lhes dando origem.
Sentimento, emoção e pensamento
Dentro desta perspectiva, sentimentos e pensamentos são coisas diferentes. A essência dos sentimentos está no ato do corpo reagir a certos objetos e situações. Só depois pensamos sobre o corpo, surpreendido em sua reação. As reações corpo-rais e as substâncias químicas liberadas nas emoções são dife-rentes, na alegria e na tristeza, na raiva e no amor, no medo e no apego.
Por trás da alegria do apaixonado está o aumento da con-centração da dopamina e da noradrelina no sangue cerebral, e atrás da tristeza do deprimido porque perdeu a pessoa amada, está a redução da serotonina no cérebro. Tanto é verdade que eles melhoram tomando antidepressores que promovem aumento da concentração da serotonina no sangue cerebral.
Damásio entende que as emoções e os sentimentos não podem ser reduzidos à razão e é partidário da irredutibilidade das emoções à razão quando nos diz:
“A minha hipótese não é compatível com a idéia de que a essência dos sentimentos, ou a essência das emoções quando emoções e sentimentos são considerados sinônimos, é simplesmente uma coleção de pensamentos com certos temas ligados a um certo rótulo emocional, como por exemplo pensamentos de situações de perda em relação a tristeza e referidos ao objeto que os causou” (DAMÁ-SIO, 2004, p. 93).
A respeito da independência entre emoção e razão, Stocker (2002), cita Schachtel:
“O ideal da razão não emocional ou do raciocínio não emocional é completamente irrealizável. Realmente, é tão irrealizável que deve ser sumariamente rejeitado”. (STOCKER, 2002, p.
Santos (2006a) defende a independência da emoção em relação à razão, a não redutibilidade à razão, ressaltando a importância da emoção nos processos de avaliação, principalmente na avaliação dos seres humanos:
Realmente, para que possamos ter uma vida competente em termos de avaliação precisamos usar outros instrumentos além da razão, principalmente para compreender os seres humanos. Para nos relacionarmos bem preci-samos algo além da compreensão intelectual: precisamos muito mais de nossos sentimentos e afetos do que da razão. Só assim po-demos compreender os sentimentos e afetos do outro”. (SANTOS, 2006 a, p.51)
Epistemologia do Sentimento e da Emoção
O estudo do sentimento e da emoção deve considerar suas múltiplas dimensões e implica em uma abordagem multirreferencial, devendo-se considerar parâmetros biológicos, psicológicos, sociológicos, antropológicos e filosóficos.
Os aspectos biológicos são estudados pelas neurociências (Damásio, 2000, 2001 e 2004), pela anatomia, fisiologia e bio-química; os aspectos psicológicos pela psicologia geral, psicolo-gia social e psicologia cultural.
A Psicologia da Emoção e as Neurociências se ocupam do significado biológico da emoção, suas causas biológicas e seus efeitos corporais, mentais e comportamentais no indivíduo biológico e psicológico.
Os aspectos sociológicos são estudados pela Sociologia Geral e Sociologia da Emoção, vertente da Sociologia criada nos anos 70 do século XX, ainda em processo de estruturação e definição do seu objeto e campo de estudos (Espinheira, 2006). Da Antropologia Geral surgiu recentemente a Antropologia da Emoção, também em fase de organização e estruturação. É um movimento recente dentro dos estudos antropológicos (Khoury, 2006).
Para Khoury (2004), sob o ponto de vista sociológico a emo-ção é um elemento interativo que orienta as relações sociais. É uma categoria de entendimento capaz de apreender a noção de humano e da sociedade como um todo e se ocupa com as repercussões da emoção na sociedade. Procura entender a emoção como fenômeno sociológico e estabelece canais entre as dimensões micro e macro-sociológicas. Segundo Tsay (2003), há grande interferência da cultura na expressão da emoção, bem como na elaboração de seu significado Khoury (2004) considera que um objeto da Sociologia da Emoção é o estudo das expressões individualizadas da emoção objetivando compreender as configurações sociais da subjetivi-dade do sujeito social que as vivencia. A configuração social é a forma como é compreendida e compartilhada por uma coletivi-dade espacial e temporalmente dada, a experiência individual da emoção de determinado sujeito social. Uma preocupação bási-cas é saber qual a configuração social da subjetividade da emo-ção vivenciada por determinado sujeito, em determinado lugar, em determinado instante.
Devem ser respondidas as seguintes perguntas: qual o es-paço na sociedade para a configuração da emoção vivida por determinado ator social? Quais as reações dos sujeitos sociais envolvidos em determinada situação social? Como a coletivida-de reage à emoção expressada por um indivíduo social?
A Filosofia da Emoção, segundo Stocker (2002) trata da com-plexidade da emoção, sua natureza e ontogênese, das relações com os valores, de sua importância epistemológica e no processo de avaliação, bem como de suas relações com a razão.
O diagrama seguinte, elaborado pelo Autor, evidencia as relações da emoção e do sentimento com as diferentes disciplinas do conhecimento humano.
Disciplinas que estudam Emoção e Sentimento
As neurociências, psicologia, sociologia. antropologia e filosofia estudam a emoção e o sentimento num enfoque multi-referencial.
TRANSMISSÃO DE SINAIS PARA O CÉREBRO
Os sinais que chegam ao cérebro se originam no meio ex-terno ou no meio interno corporal. Os de origem externa, são percebidos pela exterocepção e os vindos do meio interno, pela interocepção. Os sinais vindos das emoções decorrem de modi-ficações do meio interno.
As estruturas envolvidas na transmissão de sinais para o cé-rebro são a medula espinhal, tronco cerebral, nervo vago, hipotá-lamo e tálamo. No córtex cerebral são importantes as regiões somatosensitivas, ínsula anterior e posterior, região anterior do cíngulo e parte da região frontal.
Transmissão de sinais do corpo para o cérebro
Os sinais sensitivos internos chegam ao cérebro por dois caminhos diferentes: pelo sangue ou pelos nervos. O san-gue leva substâncias químicas que ativam diretamente o hipotálamo ou órgãos contidos nos ventrículos cerebrais.
Pelos nervos, através de seus neurônios, chegam sinais eletroquímicos ao hipotálamo e órgãos ventriculares, originados nas vísceras, músculos, ossos, articulações e nos órgãos dos sentidos: tato, olfato, paladar, visão e audição, sendo então conduzidos para a percepção no córtex cerebral.
Condução de sinais para o cérebro
Os sinais externos recebidos pelo corpo e os internos, nele originados, chegam ao cérebro pelo sangue e pelos nervos.
No córtex cerebral, a insula recebe sinais ligados à temperatura corporal, dor, coceiras, sensações viscerais e genitais, estímulos vindos do coração, pulmão, vasos, sinais referentes ao grau de acidez e alcalinidade dos líquidos, do nível de glicose no sangue e de diversas outras substâncias sanguíneas.
QUÍMICA DO SENTIMENTO
Segundo Fischer (2006), as características centrais do amor romântico são: atenção focalizada, forte motivação e comportamento orientado para os objetivos. Há pesquisas mostrando que níveis elevados de dopamina no cérebro são capazes de produzir estes comportamentos, daí a hipótese de que no amor ro-mântico haja aumento da concentração de dopamina no cérebro.
Conforme Klein (2005), a dopamina é uma substância química simples, composta de carbono, hidrogênio, oxigênio e ni-trogênio produzida no cérebro e que tem diversos efeitos no seu funcionamento. Sua grande fonte é a região denominada “substância negra”, do tamanho de uma unha, localizada bem no cen-tro do cérebro. Também é produzida em uma área vizinha de-nominada de “área tegmentar ventral”.
Destes dois núcleos saem neurônios para diversas partes do cérebro, permitindo assim a distribuição da dopamina em diversas áreas, nas quais existem receptores apropriados que executam as ações propriamente ditas. A levodopa (L-dopa) é um precursor da dopamina, produzido no próprio cérebro.
Centros localizados no córtex cerebral, destinatários do fluxo de dopamina, são responsáveis pela perseverança que temos para vencer certos desafios e pelo controle da musculatura voluntária. A dopamina é enviada também para núcleo accumbens, localizado na região frontal, para a amígdala cerebral e diversos núcleos outros, o que explica a grande influência desta substân-cia na nossa forma de pensar, desejar, sentir e agir.
Segundo Klein (2005) são múltiplos os efeitos da dopamina: ela participa do processo de sono e vigília, ajuda a concentrar a atenção, acentua a curiosidade, a capacidade de aprendizado, a imaginação e o desejo, inclusive o sexual. Quando desejamos algo ou alguém há interferência da dopamina, que também ativa o controle dos nossos músculos voluntários, fazendo com que o corpo obedeça aos comandos mentais.
Ela influencia no funcionamento da mente, pois chama a a-tenção para o que acontece de mais importante em torno de nós. Interfere na memória enviando às células cinzentas mensagens para que registrem as experiências. É o motor de nosso sistema de recompensas, conjunto de neurônios que entra em atividade quando recebemos um estímulo capaz de desencadear em nós um desejo, ao qual procuramos atender.
Se você vê algo ou alguém que gosta,graças à dopamina, seu sistema de recompensas é ativado: se você vê, ao passar por uma loja em um shopping, uma roupa que gosta, a dopamina é imediatamente liberada e você sente uma excitação, um sen-timento agradável de alegria que o impele para comprar a roupa desejada.
Graças à dopamina, sua atenção aumenta e seu cérebro transmite aos músculos uma ordem para movimentarem-se levando-o a entrar na loja. Sua memória fica mais alerta para receber as informações do vendedor e sua mente trabalha para tomar uma decisão rápida, transformando-a imediatamente em ação. Você compra o objeto do desejo e sente um prazer muito grande ao comprar a roupa desejada.
A dopamina é uma espécie de combustível que nos move, a força que nos anima. Nos dá motivação, entusiasmo,otimismo para fazermos as coisas e contribui para criar uma sentimento prazer ou mesmo de euforia.
O caso de Leonard Klein (2005) relata o caso de Leonard, paciente do médico Oliver Sacks que aos 46 anos teve lesão cerebral devido a uma inflamação que atingiu o mesencéfalo, onde fica a “substância negra” que produz dopamina.
Parecia uma múmia ambulante: seu rosto era liso, sem ru-gas e incapaz de expressar qualquer emoção na face. Incapaz de se mexer, ficou com os membros enrijecidos. Perdeu a voz e só se comunicava através de um quadro onde ele apontava as letras. Sua única alegria era ler, um enfermeiro passando as páginas do livro.
O Dr. Sacks estava experimentando um novo medicamento, a levodopa (L-dopa), precursora da dopamina no cérebro e fez a primeir aobservação em Leonard, em março de 1969. O efeito foi tão espetacular que o médico o comparou com a ressurreição de um morto.Duas semanas depois o paciente podia caminhar e se extasiava com as flores do jardim, com seus perfumes, em lua de mel com a felicidade. Disse que
“Sinto que fui salvo,que ressuscitei. Eu me sinto como um amante apaixonado,rompi as barreiras que me separavam do amor.Tenho a sensação de saúde que parece uma dádiva divina”. (KLEIN, 2005, p.87)
Voltou a dirigir e freqüentar a noite de sua cidade, New York. Para ele a “L-dopa é um santo remédio. Abriu as minhas janelas interiores que estavam cerradas. Se todos se sentissem tão bem quanto eu, nin-guém pensaria em conflitos ou guerra, poder ou posse. Todos simplesmente estariam feli-zes consigo mesmos e com os outros. Saberiam que o céu é aqui mesmo, na Terra” (KLEIN, 2005, p.87)
Mas a felicidade de Leonard durou apenas duas semanas. Sua alegria se transformou em mania. Falava com uma velocidade inacreditável e passou a ter desejo sexual tão intenso que agredia sexualmente as enfermeiras na clínica. Chegou ao ponto de pedir a seu médico que escalasse mulheres para ficarem a seu serviço durante a noite.
Passou a ter alucinações e idéias paranóicas, julgando-se perseguido por demônios, dizendo que em seu redor tinha armadilhas com cordas para enforcá-lo. O Dr. Sacks resolveu suspender a medicação depois de uma crise em que Leonard tentou se asfixiar com um travesseiro. Morreu em 1981, depois de al-guma tentativas frustradas de tratamento com outros remédios semelhantes.
Os sintomas do amor
Os apaixonados preferem a pessoa amada, focalizam-se in-tensamente nela, concentram-se em suas qualidades positivas e recordam-se facilmente de acontecimentos e objetos a ela referentes. Quando pensam no amado sentem alegria, êxtase, aumento de energia, hiperatividade, tremores, palpitações, respira-ção acelerada e ansiedade, podendo sentir também insônia e perda de apetite.
Como estes sintomas podem ser produzidos pela concen-tração elevada no cérebro de dopamina, a dependência e o anseio do apaixonado podem ser explicados pela ação desta substância.
Pesquisas mostram que viciados em álcool, morfina e cocaína apresentam níveis elevados de dopamina no cérebro e por isto o amor romântico é considerado como vício por alguns. Fischer (2006). A dependência do apaixonado pode ser tão grande em relação a seu amor que pode gerar síndrome de abstinência. Alguns apaixonados vão ao desespero com a ruptura do romance e suicidam-se.
Concomitantemente ao aumento do nível cerebral de dopa-mina, o apaixonado pode ter também aumento do nível da testosterona, o hormônio do desejo sexual que tem por função estimular o desejo para o apaixonado fazer sexo com o amado.
Algumas características do amor romântico são produzidas pela noradrenalina: alegria, energia aumentada, insônia, perda de apetite e aumento da memória. Este último efeito é que faz o amante lembrar de muitos detalhes dos momentos que passou junto com o amado. Outra característica marcante do amor ro-mântico é a obsessão, que faz o apaixonado pensar frequente-mente no amado, sendo que alguns só pensam nele.
No distúrbio obsessivo-compulsivo, o doente tem fixação do pensamento em objetos ou situações e há redução do nível de serotonina no cérebro. Como há pesquisas mostrando que nos apaixonados há redução do nível de serotonina, fischer (2006) levanta a hipótese que a causa da obsessão do apaixonado seja o nível baixo de serotonina.
Os argumentos citados fundamentam a hipótese de que os sentimentos, desejos e obsessão dos apaixonados decorram dos níveis cerebrais elevados de dopamina e noradrenalina e do baixo nível de serotonina.
Mas a paixão muda com o tempo. O êxtase se dissolve com o tempo, o anseio e a obsessão podem ser substituídos por no-vos sentimentos de amizade, união, parceria, conforto e tranqüilidade por estar junto ao parceiro. Com o passar do tempo, variando de pessoa para pessoa, o ardor da paixão diminui e ela pode ser substituída por amizade e afeto muito profundos, que desafiam o passar dos anos.
Acredita-se que os seres humanos desenvolveram um sistema de ligações inato expresso por comportamentos específicos, baseados em reações fisiológicas fundamentadas em reações químicas. Estas reações seriam responsáveis pela ligação com o parceiro, pela sensação de fusão com o companheiro de longo prazo e estariam relacionada com os hormônios ocitocina e a vasopressina.
A ocitocina é produzida, no homem, no hipotálamo e testícu-los e nas mulheres, no hipotálamo e ovários. A ocitocina é liberada nas fêmeas de mamíferos durante o parto e dá início às contrações uterinas, além de estimular as glândulas mamárias para produzirem leite. Também é secretada durante o ato sexual, no orgasmo e quando da estimulação dos genitais e mamilos. No homem, durante o orgasmo aumenta acentuadamente a va-sopressina, secretada pelo hipotálamo (Fischer, 2006).
Há evidências químicas de uma relação negativa entre a química da ligação e a química do romance. Níveis maiores de ocitocina podem interferir na ação da dopamina e norepinefrina diminuindo seus efeitos excitatórios, abrindo a possibilidade química para a diminuição ou extinção do romance.
A evidência comportamental desta possibilidade está no fato de que, em todas as culturas do mundo, a exaltação dos apaixonados diminui à medida que o tempo do casamento ou parceria aumenta. Por outro lado, o relacionamento entre o casal vai pode tornar-se cada vez mais seguro, estável e fundamentado na amizade, respeito mútuo, carinho e atenção recíproca. Não ocor-rer isto, podem advir separações, muitas vezes traumáticas ou mesmo trágicas.
A interpretação antropológica da substituição do amor rmântico pela ligação com o parceiro, segundo Fischer (2006), é que o propósito fundamental do amor romântico é levar homens e mulheres a buscar e escolher parceiros específicos para o aca-salamento. Feita a identificação e escolha os parceiros devem permanecer juntos o tempo suficiente para conceber um filho e depois para criá-lo, durante certo tempo, como fazem todos os animais.
Com o nascimento do filho os pais precisam de novo conjunto de substâncias químicas e de uma rede de distribuição ade-quada para criá-lo, cada um dando a contribuição necessária. Surge aí a química da ligação, que com o tempo faz esmaecer a intensidade do amor romântico original. Parece ser um processo natural a diminuição do êxtase do romance e sua substituição por um sentimento de união e ligação com o parceiro.
DO MAPA CEREBRAL AO SENTIMENTO
Quando o organismo funciona são enviados sinais através do sangue e dos nervos para o cérebro, a cada instante, e são elaborados mapas sensitivos referentes à situação vivida pelo corpo. Estes sinais são estímulos para os neurônios do córtex cerebral que entram em atividade e produzem determinados padrões de atividade, determinados padrões neurais.
Estes padrões neurais, por mecanismos ainda não bem elu-cidados, transformam-se em imagens mentais que servem como substratos para a elaboração de sentimentos e pensamentos conforme Damásio (2004).
Uma grande característica da imagem mental é que ela pode surgir devido à representação de um objeto real percebido ou devido à evocação de um objeto guardado na memória. No caso de excitação sexual, por exemplo, um homem ou uma mulher pode ficar excitado devido à visão real de uma cena eroticamen-te estimulante ou com a lembrança de uma cena erótica por ele vivida anteriormente, guardada em sua memória e por ele evocada.
O diagrama seguinte mostra o caminho seguido pelos estímulos resultantes do funcionamento do corpo, desde a origem até a formação dos sentimentos e pensamentos, de acordo com Damásio (2004)
Origem dos Sentimentos
Sinais enviados para o cérebro são estímulos para os neurônios corticais produzirem padrões neurais que se transformam em imagens mentais que são substratos para elaboração dos sentimentos e pensamentos.
ATIVIDADE CEREBRAL
ASSOCIADA AOS SENTIMENTOS
Pesquisa de Damásio
A atividade dos neurônios do córtex cerebral pode ser investigada através da medida do fluxo sanguíneo cerebral, com a técnica da Tomografia por Emissão de Prótons – PET. distribuição do fluxo sanguíneo nas diversas regiões do cérebro está relacionada com a atividade metabólica dos neurônios da região. Se aumenta a atividade metabólica, aumenta proporcionalmente o fluxo sanguíneo que chega à região, para abastecê-la com as substâncias nutritivas necessárias.
Se, durante a execução de determinada tarefa mental, há aumento ou diminuição estatisticamente significativos do fluxo sanguíneo em determinada região, isto indica que os neurônios da região estavam mais ativos ou menos ativos.
Damásio (2004) realizou pesquisa com PET em 40 pessoas sem doenças neurológicas ou psiquiátricas, para estudar os pa-drões de atividades de seus cérebros quando sentissem uma das quatro emoções seguintes: felicidade, tristeza, medo ou raiva.
As emoções foram desencadeadas pedindo a cada partici-pante para lembrar-se de uma situação por ele vivida anterior-mente em que tivesse vivenciado com grande intensidade a e-moção considerada. Antes da experiência cada participante foi instruído sobre qual emoção devia recordar e foram medidos seu ritmo cardíaco e a condutividade elétrica da pele, antes da evo-cação da emoção até o final da observação.
Ao sentir a emoção, o participante fazia sinal com o polegar e neste momento era ligado o aparelho do PET, tendo sido captados os efeitos do sentimento na atividade cerebral. Foi constatado que as áreas ativadas estavam distribuídas em diversos níveis do sistema nervoso central. As atividades registradas estavam relacionadas com dados do mapeamento do estado do corpo investigado e se originavam em diversas partes do organismo.
Foram ativadas áreas do córtex cerebral, hipotálamo e de núcleos do tronco cerebral. As áreas corticais ativadas estavam no cíngulo, regiões somatosensitivas S1 e S2 e insula.
O cíngulo é uma região onde interagem as emoções, atenção e memória ativa, relacionando-se também com a felicidade, auto-conhecimento emocional e com os sentimentos do outro, na interação social.
O córtex da insula é responsável pelo processamento de emoções, pela coleta de dados do corpo: do tato, temperatura externa, dor profunda e atividades do estômago, intestino e outras vísceras.
A pesquisa comprovou que o sentimento de uma emoção estava associado com alterações do mapeamento cerebral do estado do corpo.
Foi verificado que as áreas ativadas na alegria e na tristeza eram diferentes. Na alegria foram ativados o córtex do cíngulo anterior e posterior, o hipotálamo e prosencéfalo basal. Na tristeza as áreas ativadas foram a insula, cíngulo e hipotálamo, em regiões diferentes das ativadas na alegria e com diferentes pa-drões de ativação.
Em todos os participantes, durante a experiência, foi consta-tado que as alterações da condutância da pele existiram antes dele levantar o dedo indicando a percepção do sentimento. Isto é: antes dele perceber o sentimento, já existia a alteração da condutância elétrica da pele, indicando que os efeitos corporais da emoção existiam e apareciam antes da percepção do sentimento.
Pode-se concluir que a emoção existe previamente ao sen-timento correspondente e que seus efeitos fisiológicos aparecem antes dele.
Um achado não previsto na hipótese de trabalho foi encontrado na experiência com a tristeza: a desativação das regiões laterais do lobo frontal, que são relacionadas com o pensamento. Este achado é compatível com a idéia de que na tristeza o fluxo de pensamentos está reduzido. Na experiência em que a emo-ção desencadeada foi a felicidade houve ativação das citadas regiões, achado este compatível com a idéia de que na felicidade o fluxo de pensamentos está aumentado.
Pesquisas feitas por outros autores comprovaram os resultados de Damásio e mostraram que o córtex da insula e do cíngulo aumentam suas atividades quando a pessoa sente prazer, ao comer chocolate, no amor e na excitação erótica, reforçando a idéia de que os sentimentos estão relacionados com as citadas regiões do cérebro (Damásio, 2004).
Pesquisa de Fischer
Fisher (2006) examinou com ressonância magnética, durante o enlevo romântico, o cérebro de homens e mulheres apaixo-nados e encontrou algumas regiões cerebrais mais ativas. A pesquisa foi realizada com 20 homens e mulheres recentemente apaixonados felizes e com 20 homens e mulheres apaixonados porém com o romance rompido recentemente.
Os sentimentos de amor romântico intenso podem surgir, tanto quanto são mostradas fotos da pessoa amada ao amante, como quando ele ouve músicas que a lembrem ou quando ele se lembra espontaneamente dela (Fischer, 2006).
Os participantes da pesquisa olharam primeiro para a foto do amado ou amada e depois para a de um desconhecido e de-pois comparadas suas atividades cerebrais, durante a visão da foto do amado e durante a visão da foto do desconhecido. Constatou-se que muitas partes do cérebro tornaram-se ativas, particularmente o núcleo caudado e a área tegmentar ventral (ATV). Quanto mais apaixonado o participante, maior era a atividade do núcleo caudado.
Para impedir que os pensamentos apaixonados existentes na mente do participante após a visão do amado interferissem nos sentimentos percebidos quando da visão das fotos dos desconhecidos, antes de serem apresentadas estas fotos, foi mos-trado aos participantes um número de 4 dígitos (tipo 8.245) e solicitado que contassem decrescentemente a partir dele, de 7 em 7. Foi utilizada esta técnica para “limpar” suas mentes.
O núcleo caudado faz parte do cérebro reptiliano, área primitiva do cérebro humano localizada profundamente na porção central de sua base e que antecedeu ao cérebro dos mamíferos na evolução. Faz parte do “sistema de recompensas” do cérebro e é responsável pela excitação geral, por sentimentos de prazer e motivação que temos quando tentamos conseguir uma recompensa. Ele nos ajuda a detectar recompensas, discriminá-las e a preferir uma recompensa específica. É importante também no processo de prestar atenção e na aprendizagem.
A ATV é uma área relacionada com a síntese da dopamina e com sua distribuição para muitas regiões cerebrais, inclusive para o núcleo caudado. A irrigação do cérebro com o sangue rico em dopamina leva o apaixonado a concentração exagerada no amado, prazer em estar com ele ou pensar nele, alegria, mui-ta energia, motivação concentrada para a recompensa e exaltação.
Pesquisa de Londres
Foi realizada pesquisa com ressonância magnética fMRI, no University College, Londres, em 2000, com 17 homens e mulhe-res declarados apaixonados, utilizando fotografias. Os participantes ao olharam fotos de seus amados e foram constatadas atividades no núcleo caudado, córtex cingulado anterior e córtex insular, confirmando assim os achados de outras pesquisas.
A duração média da paixão no estudo de Londres foi 2, 3 anos. No estudo de Fischer, feito com paixões mais recentes, foi de 7 meses. No último estudo foi constatado, nas paixões mais duradouras, a ativação da ínsula e do cíngulo, também.
Parece que à medida que o relacionamento se prolonga re-giões cerebrais antes inativas, entram em atividade, e reagem regiões associadas a emoções, memória e atenção e isto faz o amor mudar com o tempo - é o que observamos em nossas vidas.
Pesquisas mostram que as regiões do cíngulo e da ínsula tiveram suas atividades modificadas substancialmente quando os participantes escutavam músicas excitantes, principalmente se as músicas tinham significado emocional particular para eles. Outras pesquisas mostraram que estas regiões são ativadas quando a pessoa sente dor ou têm sensações tácteis ou vibrató-rias (Damásio, 2004).
SENTIMENTOS POSITIVOS E NEGATIVOS
Para Damásio (2004), a regulação ótima dos processos homeostáticos da vida do organismo é acompanhada dos sentimentos correspondentes a este estado fisiológico ideal a ser mantido, chamados de sentimentos “positivos”. Eles se caracterizam pela percepção de diferentes formas de prazer e pela au-sência de dor e sofrimento. O significado atribuído ao termo posi-tivo é de que o prazer está presente e a dor ausente.
Por outro lado, há estados do organismo nos quais o equilíbrio orgânico está comprometido e os processos vitais se empenham em recuperá-lo, retornando para o equilíbrio perdido. Os sentimentos que acompanham estes estados do organismo são considerados “negativos”, no sentido de que a dor está presente e ausente o prazer.
Santos (2005) acredita que os processos de regulação homeostática do organismo visam diminuir ao mínimo a entropia orgânica. Sustenta que as emoções positivas desempenham papel importante na redução da entropia psicossomática e que as emoções negativas contribuem para aumentá-la, considera o autor que
“A questão básica do funcionamento da mente humana e da busca da felicidade é a do equilíbrio mental. Nossa satisfação e nosso bem estar dependem da existência de ordem em nossa mente, para que tenhamos quietude, tranqüilidade e paz. Devemos buscar permanentemente um equilíbrio entre a or-dem e a desordem, reduzindo a entropia a um valor mínimo possível”. (SANTOS, 2005, p. 72)
EMOÇÕES SOCIAIS
As emoções sociais são uma categoria de emoções inatas que surge quando o indivíduo se relaciona socialmente, que surge da interação social humana. São exemplos delas a simpatia, compaixão, vergonha, embaraço, culpa, desprezo, indignação, espanto, admiração, gratidão, orgulho, inveja e ciúme. Segundo Damásio (2004) as emoções primárias - medo, raiva, tristeza, alegria, apego, nojo - são a base das emoções sociais.
Tais emoções são desencadeadas por estímulos emocionalmente competentes de natureza social, e um exemplo de estímulo social emocionalmente competente é o comportamento desviante de alguém. Se um indivíduo presenciar o espancamento de uma criança indefesa por parte de um adulto, mesmo sendo ela desconhecida, a agressão pode desencadear uma emoção social: ele ficará indignado com o agressor, podendo até interferir na situação. No caso da indignação, a emoção básica relacionada é a raiva.
Problemas no comportamento de um indivíduo podem ser, para ele, fonte de vergonha, culpa ou embaraço, devido à violação das suas normas de conduta adotadas. Se o indivíduo é surpreendido praticando um ato que ele considere indecoroso se sentirá envergonhado, mas ele pode envergonhar-se também devido à violação de normas sociais praticadas por um parente próximo.
Da mesma forma que a violação de normas sociais pode desencadear desprezo ou indignação, o sofrimento de um indivíduo pode desencadear simpatia ou compaixão em outro.
O reconhecimento da conduta louvável de uma pessoa que pratique uma ação social de cooperação com a comunidade ou com outra pessoa, pode desencadear em outros emoções como admiração, gratidão ou orgulho. Podemos nos orgulhar de nosso pai, mãe, irmão ou amigo se eles tiverem uma conduta coopera-tiva e socialmente e relevante.
Emoção, Sentimento e Comportamento Social
Parece que o comportamento social do indivíduo está diretamente relacionado com suas emoções sociais. Um indivíduo com cérebro íntegro reage aos estímulos sociais produzindo emoções sociais e os sentimentos e comportamentos corres-pondentes. Existem dados concretos mostrando que fica prejudi-cada a conduta social quando há defeito na produção destas emoções.
Damásio (2004) constatou que indivíduos inteiramente normais, com comportamentos sociais compatíveis com as normas e convenções do meio em que vivem, perdem a capacidade de governar suas vidas depois de sofrerem lesões cerebrais em certas regiões cujos funcionamentos são necessários para a ocorrência de emoções e sentimentos sociais. Ocorre quando há lesões na parte ventromedial ou lateral direita do lobo frontal.
O entendimento da situação destes pacientes passa pela compreensão de suas emoções sociais, pois há defeitos em su-as elaborações, que comprometem suas decisões.
Se não há produção destas emoções, herdadas da evolução biológica, elas não podem ser utilizadas como respostas a estímulos emocionalmente competentes vindos do meio social. A pessoa torna-se incapaz de responder adequadamente nas interações sociais e não pode ter os sentimentos corresponden-tes,conforme Damásio (2004).
Havendo lesão do lobo frontal fica comprometida principalmente a capacidade de decidir: o indivíduo perde a competência para conduzir adequadamente as relações sociais e tem dificuldade para decidir em quem confiar ou não. Não sabe avaliar o que é socialmente permitido, passa a não observar certas con-venções sociais. Com esses comportamentos inadequados rompem-se contratos sociais que antes respeitava. Podem dissolver-se casamentos, deteriorarem-se relações familiares entre pais e filhos e levando muitos a perda de emprego, como analisa Da-másio (2004).
Há modificações da personalidade, embora permaneçam as aptidões necessárias para realizar determinadas tarefas e ter as recompensas financeiras devidas. O comportamento passa a ser imprevisível e não confiável, e fica comprometida a capacidade de planejar, tanto a imediata quanto a futura, particularmente a financeira, podendo o indivíduo ter descontrole de sua vida mo-netária.
O indivíduo perde a capacidade de desenvolver empatia e não consegue mais compreender outras pessoas, mesmo aquelas com as quais convivia. Os relacionamentos ficam difíceis: um paciente que dava tratamento carinhoso à esposa mudou completamente a conduta depois da lesão e outro que gostava de aconselhar bem aos amigos perdeu esta capacidade.
Estes doentes conservam o QI, que pode ser bastante elevado, não tendo dificuldade para resolver problemas lógicos. O problema é emocional e sentimental. São capazes de resolver problemas sociais teoricamente e de apontar soluções adequadas, pois conservam a compreensão intelectual. Mas não são capazes de resolver problemas da vida real, face à incapacidade de compreensão humana.
No quadro seguinte, elaborado pelo autor, estão algumas emoções sociais, os estímulos correspondentes e as emoções básicas correlatas.
Emoções sociais, estímulos e emoções bases
Emoção Social Estímulo emocional-mente competente Emoção base
Vergonha, Culpa,
Embaraço Problemas no com-portamento ou no corpo do indivíduo Medo,
Tristeza,
Indignação,
Desprezo Violação de normas de conduta por outro Raiva,
Nojo
Compaixão,
Simpatia Sofrimento do outro Apego,
Tristeza
Admiração, Gratidão, Orgulho, Espanto. Reconhecimento da realização e coopera-ção de outro Alegria,
Felicidade
Emoções Sociais e Ética
As emoções e sentimentos sociais são importantes para o indivíduo responder a estímulos sociais, perceber seu entorno social e conhecer as regras de convívio e convenções sociais, além de construir os princípios éticos que orientam sua conduta.
Sem sentimentos sociais o indivíduo não pode elaborar princípios e normas éticas, pois é através deles que o outro é introduzido em sua consciência e é neles que começam o altruísmo e a alteridade.
É através da simpatia, compaixão e emoções correlatas que o outro passa a ter significado e valor para nós e passa a fazer parte de nosso mundo moral e ético, de nossas escolhas exis-tenciais, passando a ser um valor ético.
Através do embaraço, da vergonha e da culpa o indivíduo se dá conta que transgrediu ou está transgredindo as normas de convívio social e tem consciência que está promovendo desequi-líbrio psicológico em si mesmo e nos seus relacionamentos com o outro, com o grupo de convivência ou com a sociedade.
Consciente da sua transgressão, ele pode agir para evitá-la ou cessá-la evitando a punição que lhe seria imposta por tercei-ros ou os sentimentos de culpa que teria e auto-punição conse-qüente. Aprendendo a identificar e reconhecer suas emoções sociais a pessoa pode policiar-se e evitar a transgressão das regras de convívio.
Através da admiração, do orgulho ou da gratidão o indivíduo pode reconhecer, no outro ou em si mesmo, uma contribuição dada para a cooperação social, útil ao bom relacionamento e capaz de reforçar vínculos sociais individuais ou coletivos.
Através do desprezo e da indignação o indivíduo pode ex-pressar sua desaprovação a um comportamento que viole normas de conduta social. E pode exercer um papel fundamental da cidadania, reagindo ao descumprimento das regras sociais com indignação ou desprezo.
Para Damásio (2004), as emoções sociais não são privati-vas dos seres humanos e existem nos morcegos, lobos e chim-panzés, o que abre a possibilidade de considerar-se que algumas espécies animais parecem comportar-se de forma ética.
Estudos mostram que indivíduos das espécies citadas po-dem exibir simpatia, apego, embaraço, vergonha, orgulho dominante, submissão e são capazes de censurar ou recompensar animais congêneres que transgrediram normas de convívio. Os macacos Rhesus podem se comportar de forma altruísta com macacos semelhantes, mostrando não ser o altruísmo uma ca-racterística exclusiva dos humanos,conforme demonstra Damásio (2004).
“Quer se concebam os princípios éticos como baseados na biologia natural ou como basea-dos em estruturas religiosas, é legítimo con-cluir que na ausência de emoções e senti-mentos normais, especialmente na ausência de emoções sociais, a emergência de com-portamentos éticos seria improvável”. (...) “Na ausência de emoções e sentimentos normais, o indivíduo deixa de poder categorizar a sua experiência de acordo com a marca emocio-nal que confere a cada experiência a qualida-de do “bem” ou “mal”. (DAMÁSIO, 2004, p.170)
Obviamente não se pretende elaborar uma explicação neu-robiológica única para a emergência da ética, que seguramente depende de fatores outros, como os religiosos e os racionais. O que se pretende é chamar a atenção para a valiosa contribuição dada no processo da emergência e constituição dos processos éticos pelas emoções de um modo geral e particularmente pelas emoções sociais, contribuição esta que deve ser considerada ao lado das fornecidas pela Sociologia, Antropologia, Psicologia Geral e de outras disciplinas do saber humano.
REFERÊNCIAS
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______________ Introdução à Sociologia da Emoção, João Pes-soa, Ed. Manufatura, 2004.
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____________ Paradigma das Emoções, Salvador, Faculdade Castro Alves, 2006 a.
____________Emoção e Valor, Salvador, Faculdade Castro Alves, 2006 b.
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STOCKER M. E HEGEMAN, E. O Valor das Emoções, São Paulo, Palas Athena, 2002
TSAI, J. L. A influência da Cultura in Como lidar com as emoções destrutivas, Dalai Lama e Goleman, D., Rio de Janeiro, Campus, 2003.
OS APETITES E AS EMOÇÕES
Angelina de Athayde
Este trabalho propõe-se a analisar o capítulo 2, Os apetites e as emoções, do livro de Antônio Damásio “Em busca de Espi-nosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos”.
Sentimento e Emoção
Damásio considera os sentimentos de dor ou prazer como alicerces da mente e que a doença neurológica é cruel para os doentes, mas tem também um lado redentor, porque funciona como um bisturi que epara o cérebro normal do doente, com muita precisão.
Sua reflexão sobre a situação de alguns doentes o levou a construir diversas hipóteses sobre as doenças neurológicas. Verificou que certas espécies de sentimentos podiam ser blo-queadas pela lesão de um setor cerebral discreto e que a perda de um setor cerebral específico implicava na perda de uma clas-se específica de um fenômeno mental.
Constatou que sistemas cerebrais diferentes controlam dife-rentes espécies de sentimentos e que a lesão de determinada região anatômica cerebral não causava a perda de todas as for-mas possíveis de sentimentos.
Notou que quando os doentes perdiam a capacidade de ex-primir certa emoção, também perdiam a capacidade de ter o correspondente sentimento. Verificou que alguns doentes inca-pazes de ter certos sentimentos eram ainda capazes de exprimir as emoções correspondentes, como por exemplo exibir uma expressão de medo, mas não sentir medo.
Apesar dele considerar a emoção e o sentimento como irmãos gêmeos, tudo indicava que a emoção tinha nascido primei-ro, seguida pelo sentimento e que o sentimento seguia sempre a emoção como uma sombra, ou seja, tudo indicava que a emoção precedia o sentimento.
Essas hipóteses puderam ser testadas com a ajuda de téc-nicas de neuro-imagem, que permitem a obtenção de imagens da anatomia e da atividade do cérebro humano, possibilitando estudar cérebros doentes e pessoas sem doença neurológica, além de mapear a área do cérebro que sente. A meta era eluci-dar os mecanismos que permitem aos nossos pensamentos de-sencadear estados emocionais e construir sentimentos.
Damásio coloca, em seus dois livros precedentes, “O Erro de Descartes” e o “Mistério da Consciência”, que a emoção e o sentimento desempenham papéis importantes, embora, bem diferentes. No “O Erro de Descartes” abordou o papel da emo-ção e o sentimento na tomada de decisões e no “O Mistério da Consciência” descreveu o papel da emoção e do sentimento na construção do self.
Neste novo livro o foco está nos sentimentos propriamente ditos, naquilo que são e no que fazem. Muitos dos dados que apresenta não existiam quando escreveu os outros dois, e sua finalidade principal é descrever o progresso alcançado no enten-dimento da natureza e significado dos sentimentos, como ele vê agora como neurologista, neurocientista e “consumidor habitual”. Para o autor, na perspectiva atual os sentimentos são a expres-são do florescimento ou do sofrimento humano, na mente e no corpo, são revelações do estado da vida dentro do organismo.
A emoção e as várias reações com ela relacionadas estão em sintonia com o corpo e os sentimentos. A investigação da forma como os pensamentos desencadeiam as emoções e de com o as modificações do corpo durante as emoções se trans-formam nos sentimentos, abre um panorama novo sobre o corpo e a mente, duas manifestações aparentemente separadas de um organismo integrado e singular.
Espinosa no pensamento de Damásio
Para Damásio compreender a neurobiologia das emoções e dos sentimentos é necessário para que se possa formular princí-pios, métodos e leis capazes de reduzir o sofrimento humano e engrandecer o florescimento humano.
Por que Damásio evoca Espinosa no seu título? O autor diz que Espinosa é profundamente relevante para qualquer discus-são sobre a emoção e sentimentos humanos. Ele considerava as pulsões (drives) e motivações, emoções e sentimentos (conjunto que Espinosa designava como afetos), um aspecto central da humanidade. A alegria e a tristeza foram dois conceitos funda-mentais na sua tentativa de compreender os seres humanos e sugerir maneiras de a vida ser mais bem vivida.
Para Damásio, Espinosa tratava dos temas que mais o pre-ocupam como cientista - a natureza das emoções e dos senti-mentos e a relação entre o corpo e a mente. Esses mesmos te-mas preocuparam muitos pensadores do passado.
Quando Espinosa dizia que “o amor nada mais é do que um estado agradável, a alegria, acompanhado pela idéia de uma causa exterior” (Damásio, 2004), para Damásio ele estava sepa-rando o processo do sentir do processo de ter uma idéia sobre um objeto que pode causar uma emoção. Alegria era uma coisa e o objeto que causava alegria era outra. Eles juntam-se na mente, mas começam distintos.
Para Damásio, Espinosa descreveu uma organização fun-cional que a ciência moderna está revelando como um fato, pois os organismos vivos são dotados de uma capacidade de reagir emocionalmente a diferentes objetos e acontecimentos. A rea-ção, a emoção, é seguida por um sentimento. A sensação de prazer ou dor é um componente necessário desse sentimento.
Espinosa (Damásio, 2004) propôs também que o poder dos afetos é tão grande que a única possibilidade de triunfar sobre um afeto negativo – uma paixão irracional - requer um a afeto produtivo ainda mais forte, desencadeado pela razão. Um afeto não pode ser controlado ou neutralizado exceto por um afeto contrário, mais forte do que aquele que necessita ser controla-do”. Recomendava que lutássemos contras as emoções negati-vas, com emoções ainda mais fortes, porém positivas, consegui-das com o raciocínio e esforço intelectual.
Para Damásio (2004), a parte central do pensamento espi-noseano está na noção de que para dominar as paixões preci-samos usar as emoções guiadas pela razão e não utilizar a ra-zão. Outra idéia de Espinosa que se revelou pertinente no traba-lho de Damásio é a de que mente e corpo são atributos parale-los, ou seja, manifestações da mesma substância, além de con-siderar que “a mente humana é a idéia do corpo humano”. O citado autor declara estar convencido de que
“os processos mentais se alicerçam nos ma-peamentos do corpo que o cérebro constrói as coleções de padrões neurais que retratam as respostas aos estímulos que causam e-moções e sentimentos”.
A emoção pública e o sentimento é privado
O uso habitual da palavra “emoção” tende a incluir a noção de sentimento e para separar e clarificar as idéias o autor faz a seguinte distinção: emoção é a parte pública do processo e o sentimento é a parte privada. Damásio concebe a emoção como ação e movimento, muitas podendo ser vistas no rosto, na voz ou em comportamentos específicos.
Alguns comportamentos da emoção não podem ser perce-bidos a olho nu, mas podem ser conhecidos através da determi-nação de níveis hormonais sanguíneos ou padrões de ondas eletrofisiológicas. Já os sentimentos são invisíveis, e por isso a emoção é pública e o sentimento é privado.A emoção ocorre no corpo, o sentimento ocorre na mente:As emoções fazem parte dos mecanismos baixos de regulação da vida e o sentimento também contribuem para a regulação da vida.
As emoções e as suas reações precedem ao sentimento e são os alicerces dos sentimentos. As emoções e os sentimentos estão intimamente relacionados e para Damásio as emoções precedem os sentimentos pelos seguintes motivos:
• Na evolução biológica vieram primeiro as emoções,os sentimentos depois;
• As emoções foram construídas a partir de reações que promovem a sobrevida de um organismo e que foram adotadas pela evolução.
Controle da vida
Todos os organismos vivos, desde a ameba até o ser humano, nascem com dispositivos que solucionam automaticamen-te, sem qualquer raciocínio prévio, os problemas básicos da vi-da.
Uma ameba movimenta-se com pseudópodos em direção a uma partícula, que engloba para alimentar-se. Da mesma forma se afasta, se o meio for desfavorável à sua sobrevivência.
Os organismos vivos buscam encontrar fontes de energia, incorporar e transformá-la , manter no interior do organismo um equilíbrio químico compatível com a vida; substituir os subcom-ponentes que envelhecem e morrem de forma a manter a estru-tura do organismo e defendê-lo de processos de doenças e de lesões físicas. A palavra homeostasia descreve esse conjunto de processos de regulação e o resultante estado de vida bem regulada.
Na base da regulação da homeostasia encontramos respostas simples tais como a de aproximação ou de afastamento de um organismo inteiro em relação a determinado objeto. Pode-mos dizer que os movimentos de aproximação ou de afastamen-to são precursores dos movimentos de fuga ou de luta, existen-tes nos animais que já têm organizado um sistema nervoso, ain-da que primitivo. Neles podemos entender a fuga como atuação do medo e a luta ou ataque como atuação da raiva.
Damásio usa a metáfora de uma árvore bem alta e larga pa-ra entender a máquina da homeostasia, em que os variados ra-mos são os fenômenos automáticos da regulação da vida. Nos s ramos mais baixos estão as respostas imunitárias, os reflexos básicos e a regulação metabólica. Nos ramos médios estão os comportamentos de dor e prazer, e um pouco acima dos ramos médios estão as pulsões e motivações. Próximos do cume da árvore estão as emoções propriamente ditas.
O processo de metabolismo, que está nos ramos básicos, inclui componentes químicos e mecânicos (secreções endócri-nas/hormonais, contrações musculares relacionadas com a di-gestão) que mantém o equilíbrio químico interior. Essas reações governam o ritmo cardíaco e a pressão arterial dos quais depen-dem a distribuição apropriada do fluxo sanguíneo do corpo, os ajustamentos da acidez e da alcalinidade do meio interior (os fluidos que circulam no sangue e nos espaços entre as células) e o armazenamento de distribuição de proteínas, lipídios e carboi-dratos necessários para abastecer o organismo de energia, que por sua vez é necessária para o movimento, para a fabricação de enzimas e para manter e renovar a estrutura do organismo.
Os reflexos básicos incluem o reflexo de alarme ou susto que os organismos exibem quando reagem a um ruído inespera-do e os mecanismos que levam os organismos a escolher a luz em lugar do escuro ou evitar o frio e o calor extremos (tropismos ou “taxes”). O sistema imunológico defende o organismo de ví-rus, bactérias, parasitas e de moléculas tóxicas que podem inva-dir o organismo. Constitui uma linha de defesa dos organismos vertebrados quando há ameaça à sua integridade.
Nos ramos médios estão os comportamentos de prazer, (re-compensa) ou de dor (punição), que incluem reações de aproxi-mação e de afastamento do organismo em relação a um objeto ou situações específicas. Nos seres humanos, que além de sen-tir podem relatar o que sentem, essas reações são descritas como dolorosas ou aprazíveis, recompensadoras ou punitivas, aparecendo expressões faciais de alarme e sofrimento, respos-tas estas que são acompanhadas de diversas outras.
Da mesma forma que o cérebro reage a um problema que aparece no corpo, também reage quando o corpo funciona bem. Quando o corpo está bem, a aproximação em relação a outros corpos é facilitada, há uma descontração e abertura, bem como expressões que traduzem confiança e bem-estar, sendo libera-das pelo sistema nervoso as endorfinas e o conjunto dessas reações e dos sinais químicos a elas associadas resultam na experiência do prazer. A dor e o prazer têm causas diversas, podendo ser gerados por problemas do funcionamento do corpo ou por problemas externos.
Um pouco acima dos ramos médios da árvore estão as pul-sões e motivações. Incluem exemplos como a fome, a sede, a curiosidade e comportamentos exploratórios, comportamentos lúdicos e os comportamentos sexuais. Espinosa designou estas reações de apetite e usou a palavra desejo quando o indivíduo de forma consciente toma conhecimento de um apetite. Esta distinção de Espinosa equivale à distinção que Damásio faz en-tre emoção e sentimento.
Próximo do cume estão as emoções propriamente ditas, as emoções no sentido estrito do termo – da alegria à mágoa, do medo ao orgulho, da vergonha à simpatia. Damásio diz que nas emoções se encontram as “jóias da regulação automática da vida”. Na parte mais alta da árvore, na ponta dos diversos ramos é que estão os sentimentos.
Esses dispositivos, graças ao genoma estão ativos na data do nascimento ou pouco depois, com pouca ou nenhuma de-pendência da aprendizagem, embora a aprendizagem venha a desempenhar um papel importante na determinação das ocasi-ões em que estes dispositivos virão a ser usados. Quanto mais complexa a reação, mais a aprendizagem assume este papel.
Reações como chorar e soluçar estão prontas na data do nascimento, mas as razões porque choramos ou soluçamos va-riam ao longo da vida com nossa experiência. Todas essas rea-ções são automáticas e em geral estereotipadas, embora a a-prendizagem possa modelar a execução de certos padrões este-reotipados. O riso ou o choro são executados de forma diferen-tes e em circunstâncias diferentes.
Para Damásio os comportamentos de prazer e dor, as pulsões e as motivações e as emoções propriamente ditas, são às vezes designadas pelas mesmas palavras - emoções no sentido lato do termo, que ele considera aceitável por terem a mesma finalidade. A homeostase tem como finalidade equilibrar os pro-cessos vitais, contribuindo para manter a vida e para o que os seres pensantes chamam de “bem estar”. Segundo ele:
“as emoções propriamente ditas – o medo, a felicidade, a tristeza, a simpatia e a vergonha – visam a regulação da vida, direta ou indire-tamente. Nem todas as emoções são iguais no que diz respeito à sua capacidade de pro-mover sobrevida e bem-estar e tanto o con-texto em que a emoção ocorre, como a sua intensidade tem muito a ver com os possíveis benefícios da emoção”.
O autor diz que numa sociedade moderna a zanga é contra-producente assim como a tristeza, e que as fobias são enormes obstáculos, no entanto é evidente que a raiva e o medo salvaram numerosas vidas ao longo da evolução. Essas reações prevale-ceram na evolução porque levaram à sobrevida, direta e automa-ticamente e ainda permanecem porque continuam a desempe-nhar um papel valioso, em certas circunstâncias.
Compreender a biologia das emoções oferece oportunida-des novas para a compreensão moderna do comportamento humano. Para Damásio algumas das emoções são más e é pre-ciso procurar modos de suprimir ou reduzir as conseqüências delas, principalmente as reações que levam a preconceitos raci-ais e culturais, baseadas nas emoções sociais.
Emoções propriamente ditas
Damásio considera três tipos de emoções: as emoções de fundo, as emoções primárias e as emoções sociais.
Emoções de fundo – são aquelas que um indivíduo é capaz de diagnosticar, energia ou entusiasmo em alguém que acaba de conhecer, ou é capaz de detectar mal-estar ou ansiedade nos seus amigos e colegas. O diagnóstico depende de manifesta-ções sutis como expressão facial e tom de voz.
As emoções primárias ou básicas incluem medo, raiva, nojo, surpresa, tristeza, felicidade e são identificadas em seres huma-nos independente de sua cultura e raça. As emoções sociais incluem simpatia, compaixão, embaraço, vergonha, culpa, orgu-lho, ciúme, inveja, gratidão, admiração, espanto, indignação e desprezo.
Para Damásio numerosas ações regulatórias, bem como componentes das emoções primárias, são partes integrantes em diversas combinações das emoções sociais. Afirma que as emo-ções sociais não estão presentes apenas nos seres humanos, sendo encontradas em chimpanzés, golfinhos, leões, lobos, cães e gatos.
A disposição que permite uma emoção social está profun-damente gravada no cérebro desses organismos, pronta para ser utilizada quando chega o momento apropriado. É um dom que faz parte da lista de dispositivos inatos de regulação da vida de certas espécies. Nem todas as emoções são inatas, no senti-do estrito do termo, nem estão prontas para serem usadas logo após o nascimento. Algumas sim, outras requerem um grau mí-nimo de exposição ao ambiente.
O trabalho de Robert Hinde, que mostrou ser o medo inato de cobras que os macacos têm só aparecerem depois dele ma-caco ter visto na mãe a expressão de medo em relação à cobra. Algo semelhante certamente acontece com as emoções sociais, com referência ao estabelecimento de padrões de dominância ou submissão em primatas muito jovens.
Para Damásio é provável que a existência de emoções so-ciais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos culturais da regulação social. Entre os seres humanos, por exemplo, algumas pessoas tornam-se líderes e outras seguidoras, porque algumas impõem respeito e outras se acovardam. Tem muito a ver com qualidades físicas que promovem certas respos-tas emocionais no outro. Ele afirma que existe uma outra classe de reações cuja ori-gem não é consciente, relacionada com a aprendizagem durante o desenvolvimento individual. O indivíduo passa a gostar ou de-testar, depois de uma longa experiência de percepção, de pes-soas, grupos, objetos, atividades e lugares.
Damásio refere-se a Freud e coloca que as emoção inatas e aprendidas parecem interrelacionar-se intimamente no poço sem fundo do nosso inconsciente. Refere-se também a Darwin e Freud colocando que o jogo inconsciente assinala o intercruza-mento de dois testamentos intelectuais, dois pensadores que se dedicaram ao estudo das influências subterrâneas naquilo que é inato e naquilo que é adquirido.
Emoções e saúde
Todos esses fenômenos interferem no corpo e na saúde do organismo e as emoções propriamente ditas influenciam os ape-tites e vice-versa. Assim, o medo inibe a fome e a atividade se-xual, como a tristeza e o nojo. Ao contrário, a alegria promove a fome e o sexo. A satisfação das pulsões – fome, sede e sexo – causa alegria; bloquear a satisfação dessas pulsões pode causar raiva, desespero e tristeza.
As reações automáticas são mapeadas no sistema nervoso representadas como agradáveis e desagradáveis (dolorosas) e depois tornam-se conscientes. Os seres humanos têm a possibi-lidade de controlar a expressão de suas emoções, pelo menos em parte, e isso depende deles. O controle da nossa interação com os objetos que causam emoções possibilita exercer algum controle sobre o nosso processo de vida levando, dessa forma, o nosso organismo a um estado de maior ou menor harmonia. Isso significa que podemos nos libertar do automatismo tirânico e impensado da maquinaria emocional.
Sintetizando, Damásio define a emoção propriamente dita como uma coleção de respostas químicas e neurais que formam um padrão distinto. As respostas são produzidas quando o cére-bro normal detecta um estímulo emocionalmente competente, o objeto ou acontecimento cuja presença real ou relembrada desencadeia a emoção. As respostas são automáticas.
O cérebro está preparado pela evolução para responder a certos estímulos com repertórios de ações específicos, além de muitos outros adquiridos pela experiência individual. O resultado imediato dessas respostas é uma alteração temporária do estado do corpo e do estado das estruturas cerebrais que mapeiam o corpo e sustentam o pensamento.
O resultado final das respostas é a colocação do organismo direta ou indiretamente em circunstâncias que levam à sobrevida e ao bem-estar. As emoções são um meio natural de avaliar o ambiente que nos rodeia e reagir de forma adaptativa e uma das finalidades principais da nossa educação é interpor uma etapa de avaliação não automática entre os objetos que podem causar emoções e as respostas emocionais. Isto significa adequar as nossas respostas emocionais aos padrões da cultura.
É importante que mesmo quando uma emoção ocorre sem que tenhamos consciência do estímulo emocional competente, ela continua a indicar que o organismo avaliou de certo modo a situação. As emoções são um meio natural de avaliar o ambiente que nos rodeia e reagir de forma adaptativa.
Algumas vezes avaliamos de forma consciente os objetos que causam as emoções, observando sua presença e sua rela-ção com outros objetos e sua ligação com o passado. Nestas ocasiões atuamos de forma adequada, ou seja, modulamos as nossas respostas emocionais e, nesse caso, não há uma reação automatizada.
Quando ocorre a emoção sem que haja a consciência do es-tímulo emocionalmente competente, ela continua a indicar que o organismo avaliou a situação, de certo modo. Não se trata de avaliação consciente, mas de uma resposta biológica, de uma resposta automática, diferente da apreciação consciente de uma situação.
Um dos aspectos fundamentais da história do desenvolvi-mento humano diz respeito ao modo como a maior parte dos objetos que nos rodeiam é capaz de desencadear emoções for-tes ou fracas, boas ou más, conscientemente ou não. Alguns objetos transformam-se em estímulos emocionais no curso da nossa experiência individual e outros não.
Muitas vezes é uma casa onde se passou a infância e na qual se tenha tido uma experiência de medo intenso. Na idade adulta ao se visitar essa casa é possível sentir uma sensação de mal estar, sem que haja nenhuma justificativa real para esse mal estar. O mal estar é imposto pela memória emocional: a experi-ência de sua vida fez com que seu cérebro associasse certo tipo de casas com o mal estar, provocado por uma emoção, que foi sentida no passado.
O gosto ou aversão que sentimos por vários objetos tem muitas vezes essa simples origem. Isto significa que uma memó-ria armazenada, não consciente, pode levar a uma emoção. Como também, uma memória consciente pode causar emoção, ou seja, quando lembramos de um episodio desagradável, a perda de um ente querido, sentimos tristeza.
Damásio refere que Espinosa disse algo sobre esse assunto, ao escrever que um homem é afetado, agradavelmente ou dolorosamente, pela imagem de uma coisa passada ou futura como pela imagem de uma coisa presente.
Mecanismo cerebral da emoção
A cadeia de fenômenos que leva à emoção inicia-se com o aparecimento na mente do estímulo-emocional competente. Em termos neurais, as imagens do estímulo competente são apre-sentadas nas diversas regiões sensitivas que mapeiam as suas características, por exemplo, nos córtices visuais ou auditivos.
Esta é a parte do processo de “apresentação”. Na fase se-guinte, sinais ligados à representação sensitiva do estímulo são enviados para outros locais do cérebro, que são como se fossem fechaduras que só se abrem com as chaves que lhes correspon-dem, que são os estímulos emocionais competentes.
Em linguagem neuroanatômica ou neurofisiológica Damásio diz:
“a cadeia começa quando os sinais neurais correspondentes a um certo objeto (por e-xemplo, os sinais que representam um objeto ameaçador nos córtices visuais) são comuni-cados em paralelo ao longo de diversas pro-jeções neurais para outras regiões do cére-bro. Algumas das regiões receptoras, como por exemplo a amígdala, entram em ação quando detectam uma certa configuração de sinais – ou seja, quando a chave encaixa na fechadura – e por sua vez iniciam sinais que atingem outras regiões cerebrais, continuan-do dessa forma a cadeia de acontecimentos que virá a tornar-se uma emoção”.
Essas descrições lembram de certo modo as de um antíge-no (um vírus, por exemplo) que ao entrar na corrente sanguínea leva a uma resposta imunológica feita com anticorpos capazes de neutralizar o antígeno. O processo neural e o processo imu-nológico têm uma certa semelhança formal: no caso da emoção o “antígeno” é apresentado pelo sistema nervoso e o “anticorpo” é a resposta emocional.
Hoje as regiões do cérebro identificadas como desencadea-doras de emoção incluem a amígdala cerebral, situada na parte profunda do lobo temporal, uma parte do lobo frontal chamada de córtex pré-frontal e em outra região frontal no córtex do cíngu-lo e na área motora suplementar.
Na nossa experiência passada, a aprendizagem vem asso-ciando emoções e pensamentos numa rede que funciona em duas direções. Isto significa que o pensamento gera a emoção e a emoção reforça o pensamento. Os planos cognitivos emocio-nais estão constantemente ligados por essas interações.
Essa ligação foi demonstrada experimentalmente em traba-lhos de Paul Ekman. Ele demonstrou que a contração muscular correspondente à determinada emoção aciona a emoção o que pode ser comprovado pela reação dos músculos faciais sem que aquele que se submete à experiência tenha a noção do que está ocorrendo em sua face embora sinta a emoção.
Finalizando o capítulo, Damásio descreve vários estudos que já mapearam áreas do cérebro correspondentes a várias emoções como o riso, a tristeza, entre outras, demonstrando que hoje o estudo sobre as emoções é cientificamente comprovado. E os estudos não param por ai, certamente o próprio Damásio já deve ter novos conhecimentos a revelar, já que o livro estudado data de 2003.
A nossa conclusão é a de que emoção é vida, portanto não podemos viver sem emoção. Dispomos de emoções positivas e emoções negativas e ambas regulam a vida. Para se ter saúde e qualidade de vida é importante trabalhar no sentido de reforçar as emoções positivas e controlar as emoções negativas.
REFERÊNCIAS
ACCIOLY, J. ATHAYDE, A.. Educação Emocional, o caminho para a competência emocional. Salvador, Bahia. Gráfica Santa Helena. 1996.
DAMÁSIO, A. R. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciên-cia dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 358 p.
EKMAN, P. Facial expression of emotion: new filings, new questions. 1992. American Psychological Society, vol. 3, n 1. January 1992
EKMAN PAUL, LEVENSON, ROBERT W. FRIESEN, WALLACE V. Autonomic Nervous System activity distinguishes among emotion. Science, vol 221
CORPO, CÉREBRO E MENTE
Hélio Soares de Brito
INTRODUÇÃO
Este trabalho propõe-se a analisar o capítulo 5, Corpo, cé-rebro e mente, do livro de Antônio Damásio “Em busca de Espi-nosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos”.
O autor nasceu em Portugal, é Professor e chefe do Depar-tamento de Neurologia da Universidade de Iowa, professor ad-junto do Instituto Salk de Estudos Biológicos em La Jolla, Cali-fórnia, membro da National Academy of Sciences e da American Academy of Arts and Sciences. Recebeu importantes prêmios e publicou os livros “O erro de Descartes”, “O mistério da consci-ência”, “Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sen-timentos”.
Trata-se de tema polêmico, cuja unidade mente-corpo é de-fendida por Damásio fundamentado na neurociência e em consi-derações filosóficas de Espinosa. O autor considera que o pro-blema ainda não encontrou a solução satisfatória e suas princi-pais indagações são as seguintes:
Será que a mente e o corpo são duas coisas diferentes ou apenas uma? Se são a mesma coisa, será que a mente e o cor-po são feitos de duas substâncias diferentes ou apenas de uma? Como é que essas substâncias, se é que são duas, interagem? E já que conhecemos melhor a forma como os circuitos neurais funcionam, será que poderemos, também, compreender como é que a atividade desses circuitos se relacionam com os proces-sos mentais presentes na nossa introspecção?
O texto, a seguir, descreve as idéias principais do autor e, no final, constam as considerações gerais.
Descrição do assunto
Para Damásio, embora o processo interativo entre mente, cérebro e corpo não esteja satisfatoriamente explicado pela neu-rociência, as imagens mentais surgem do cérebro e, também, de sinais provenientes do corpo propriamente dito. Observa, tam-bém, que Espinosa adotou similar concepção ao sugerir a influ-ência da mente e do corpo na modelagem de conteúdos recípro-cos. Ressalva, porém, que a mente tem autonomia para criar outras idéias às quais o corpo não tem acesso.
O autor defende a posição de Spinosa para quem a mente e corpo são dois atributos distintos de “aspecto”, mas são produtos da mesma substância. Corpo, cérebro e mente são três aspectos que podem ser dissecados sob o microscópio da biologia, mas são inseparáveis durante o funcionamento normal do organismo.
Para Damásio, os fenômenos mentais foram revelados co-mo estreitamente dependentes do funcionamento de uma enor-me variedade de circuitos cerebrais.
A posição dualista de Descartes, para quem o corpo e a mente são duas substâncias e que se influenciam mutuamente por meio da glândula pineal, é questionada pelo autor, por não encontrar fundamentos na neurobiologia e nos dados da intros-pecção.
Mente e cérebro
Damásio considera que todos os sentidos e outras capaci-dades mentais, o movimento ou a fala, etc., dependem de regiões neurais específicas e que se conectam com os hemisférios cerebrais. Tenta justificar essa interação com argumentos de que as lesões e administração de drogas podem alterar a função química das células nervosas e afetar o correspondente - mente, sentimentos e pensamentos. Sustenta ainda que, embora haja um nexo causal entre mente-cérebro, esse fato não esclarece o problema mente-corpo.
Mente e corpo
A seguir, o autor passa a descrever os seguintes sintomas que podem justificar a conexão corpo-mente, como:
a) as auras do epiléptico que começam na região do estô-mago ou do peito (epigástricas) e acompanham a perda de consciência;
b) no caso, também, da assomatognosia, quando o indiví-duo tem a sensação de que não perdeu o sentido do seu ser e sim que perdeu apenas o seu corpo;
c) o acidente vascular cerebral, causado por uma pequena cicatriz cerebral que pode produzir a crise cerebral;
d) um membro amputado pode ser sentido como se estives-se presente, através da sensação de membro fantasma; e, fi-nalmente, existe a perturbação mental quando zonas mais ex-tensas do corpo são afetadas.
Prosseguindo na análise da interação mente-corpo, Damá-sio diz que a construção das imagens do corpo dá-se da seguin-te maneira: primeiro, as imagens são estimuladas por objetos exteriores ao corpo, como luz e som que são captados pelas sondas sensitivas. As alterações podem ser mapeadas pelo cérebro e inclui alterações microscópicas e macroscópicas que podem se apreciadas a olho nu; segundo, a atividade numa re-gião do corpo costuma produzir uma alteração estrutural, transi-tória do corpo; terceiro, o cérebro constrói mapas dessas altera-ções do corpo em regiões apropriadas para esse mapeamento. A construção é feita com a ajuda de sinais químicos conduzidos pela corrente sanguínea e sinais eletroquímicos transmitidos por feixes nervosos.
Para Damásio, com o auxílio dos instrumentos da neuro-anatomia, da neurofisiologia e da neuro-química, podem-se des-crever padrões neurais. As interfaces, contudo, entre os padrões neurais e as imagens mentais não são ainda conhecidos. En-quanto não encontra as respostas, sugere o autor, considerar a mente como um fenômeno que emerge da cooperação de diver-sas regiões cerebrais. Dentro desta perspectiva como seria a interação mente, cérebro e corpo do sujeito na construção da realidade?
A construção da realidade
O conhecimento dá-se através de imagens mentais (idéias e pensamentos).
As imagens da nossa experiência são construções provoca-das por um objeto, e não imagem em espelho desse objeto.
Por ter uma essência biológica similar, o ser humano cons-trói, em relação ao mesmo objeto, padrões neurais bastante se-melhantes. Essa circunstância dá a impressão de que a idéia que se tem em mente de determinado objeto é como uma ima-gem em espelho desse mesmo objeto. Na realidade, porém, esse objeto é bem diferente. A imaginação criadora além de re-presentar os objetos pode elaborar novas imagens para simboli-zar objetos e acontecimentos ou representar abstrações. Essas imagens ultrapassam as imagens provenientes diretamente do corpo.
Desde o nascimento o cérebro está formado com um grande repertório de sabedoria que indica como o organismo deve ser gerido, como a vida deve ser organizada e como o organismo deve responder a certos acontecimentos exteriores. Desse mo-do, a mente encontra-se na perspectiva geral do corpo, e não apenas na perspectiva mais restrita do cérebro. Daí a importân-cia da mente consciente para a orientação da vida e do bem estar.
Mente consciente
O componente da mente que tem a ver com o self fornece à mente uma orientação. O self introduz na mente a noção de que todas as atividades aí representadas correspondem a um orga-nismo singular cujas necessidades de auto-preservação são a causa principal daquilo que está sendo representado. O self ori-enta o processo mental do planejamento de forma a satisfazer essas necessidades. Essa orientação é possível apenas porque os sentimentos são partes integrantes do conjunto de operações que constituem o self.
Na ausência da consciência (filme-no-cérebro) – a vida não pode ser gerida de forma adequada. A suspensão da consciên-cia, mesmo que temporária, acarreta uma perturbação do mane-jo da vida e tira a autonomia de qualquer ser humano.
Considerações Gerais
As idéias principais do texto são claras, atuais, inovadoras e relevantes, pois a linha de pesquisa dos sentimentos oferece fundamentos científicos, sem precedentes para a compreensão das bases biológicas do comportamento.
Qual seria a contribuição de Damásio? Podem-se destacar os seguintes aspectos: primeiro, a abordagem da unidade men-te-corpo baseada na neurociência. Considera que há mais fun-damentos para a relação mente-cérebro do que para a interação mente- corpo; segundo, a reabertura da polêmica discussão so-bre o dualismo Cartesiano, refutada pelo autor, que defende a unidade mente-corpo, também, sugerida por Espinosa; terceiro, a apresentação de argumentos que, embora não solucionem o problema, evidenciam sinais de conexão entre mente-cérebro, e mente-corpo; finalmente, os estudos de Damásio contribuem para a compreensão científica dos sentimentos.
Embora ressalte, em seus estudos, a dimensão biológica, é importante fazer algumas ressalvas para que suas considera-ções não sejam interpretadas como reducionistas. Quando Da-másio diz que a mente consciente fornece ao self uma orienta-ção da vida e do bem estar através do sentimento, é importante advertir que o bem estar humano não pode ser reduzido apenas à necessidade de preservação de um organismo singular ou individual. A mente tem autonomia para abstrair e criar novos mundos a nível simbólico, que ultrapassa o nível biológico. Por exemplo, alguém poderá sacrificar a sua vida por uma causa altamente significativa.
Damásio considera, no capítulo 2, que o ser humano age, muitas vezes, de acordo com uma maquinaria biológica, localizada no cérebro, herança dos antepassados de comunidades tribais e ligada ao inconsciente coletivo. Essa maquinaria apesar de poder conduzir as pessoas à violência e conflitos entre grupos sociais, poderá, também, ser modificada graças ao poder de abstração e de simbolização do ser humano.
Desse modo, as pessoas poderiam se orientar não apenas para o seu bem estar individual, de seu grupo familiar e dos seus semelhantes, mas também para o bem estar coletivo e para a-ceitação das diferenças. O mal estar de alguns poderá afetar o bem estar de outros. Por exemplo, a má distribuição de renda poderá levar à desigualdade social, à pobreza, à fome e violên-cia social; mas ela poderá ser minimizada com o desenvolvimen-to da consciência social. As mudanças sociais conduzem às mu-danças dessa maquinaria biológica e, portanto, às mudanças cerebrais.
Apesar de Damásio enfatizar a importância do equilíbrio homeostático para o bem estar individual, deve-se ressaltar que a felicidade não dever ser reduzida, meramente, à homeostase, pois de acordo com as leis da evolução todo organismo tende não apenas à sua manutenção, mas também, à sua adaptação ao meio-ambiente que implica em processo de mudança ou de-sequilibração.
O ser humano tende não apenas ao equilíbrio biológico, mas também ao seu pleno desenvolvimento nas várias dimensões: biológica, cognitiva, emocional, motora, espiritual, social, eco-nômica, política e cultural; dentro do contexto atual e histórico, do consciente e do inconsciente.
O tema poderá despertar o interesse geral de acadêmicos e profissionais da área de saúde e de ciências humanas.
INDIVIDUAL, SOCIAL E BIOLÓGICO EM QUESTÃO
A Sociologia e a Antropologia na Ciência dos Sentimentos (António Damásio em evidência)
Fabiano Viana Oliveira
RESUMO
O presente texto pretende mostrar as relações existentes entre a obra de António Damásio, especialmente o “Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos” e os diversos conceitos usados normalmente pelas ciências sociais, especial-mente a Sociologia e a Antropologia, e como a Ciência dos Sen-timentos pode contribuir para uma compreensão mais profunda das relações sociais, das estruturas e desvios que constituem a vida social e como tudo isto está ligado ao indivíduo e suas e-moções e sentimentos. Passando por questionamentos e auto-res que fazem-nos perguntar sobre se o que nos determina mais é a cultura ou a genética; não garantindo uma resposta, mas apenas a abertura a mais conhecimento sobre o ser humano e sua vida em sociedade.
Palavras-chave: Sentimentos e emoções. Sociedade. Indi-víduo. Ciências Sociais. Antônio Damásio.
INTRODUÇÃO
A proposta do presente texto é expor e analisar as teorias do neurocientista português Antônio Damásio em confrontação com algumas teorias correntes nas ciências sociais, mais especi-ficamente na Sociologia e na Antropologia. A principal intenção do que será discorrido a seguir é buscar respostas para os ques-tionamentos levantados a partir dos estudos da chamada Ciên-cia dos Sentimentos (uma ciência nova que herda traços da Psi-cologia e da Neurociência, mas com problemas novos e bastante relevantes para o estudo da realidade humana).
Esses questionamentos colocam certos conceitos sobre cul-tura, sociedade e indivíduo num patamar diferente do tradicio-nalmente aceito nas ciências sociais, pois que sugere (apenas sugere) que fatores biológicos (filogenéticos e ontogenéticos) teriam uma participação maior na construção do que chamamos de indivíduo socializado.
Em verdade, a argumentação mostrará muito mais como es-tes diferentes pontos de vista, de diferentes ciências, comple-mentam-se na construção do conhecimento sobre o homem e sobre sua vida. Tentar-se-á mostrar justamente os pontos em que as idéias convergem, como também onde elas discordam para um desenvolvimento frutífero de uma compreensão mais ampla dobre o mistério humano.
A obra de António Damásio em debate principal aqui é o “Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimen-tos”. Ao longo dos meses de exposição e debate no Núcleo de Estudos das Emoções da Faculdade Castro Alves, várias das suas hipóteses e conclusões, assim como fortes argumentos e provas experimentais, trouxeram dúvidas a respeito de algumas certezas presentes nas ciências sociais.
A partir disso sugeri uma catarse sócio-cultural dos aspectos que ligam a ciência dos sentimentos com o relacionamento dos indivíduos em sociedade. Sem pretensões psicológicas e nem mesmo órficas, a tentativa era de se construir um conhecimento cada vez mais sólido a partir mesmo da quebra (desmonte) dos conceitos preexistentes nas ciências sociais. E para isso apresentar-se-á alguns trechos de obras de vários autores, além do próprio Damásio, e alguns comentários serão tecidos relacio-nando os mesmos com o problema em debate, numa metodolo-gia basicamente interpretativa.
DO SOCIAL E DO EMOCIONAL
O tema das emoções e dos sentimentos não é estranho às ciências sociais. Na verdade já até existem grupos de pesquisa no Brasil a este respeito. O Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia da Emoção (GREM) na Universidade Federal da Paraíba realiza e publica trabalhos com estas afinidades, porém numa linha diferente daquela expressa pelas pesquisas de Antó-nio Damásio ou mesmo dos tradicionais Estudos das Emoções.
A emoção como objeto analítico das Ciências Sociais, pode ser definida, então, como uma teia de sentimentos dirigidos diretamente a outros e causado pela interação com outros em um contexto e situação social e cultural determinados (KOURY, 2004). Em sua fundamentação analítica vai além do que um ator social sente em certas circunstâncias ou com relação às histórias de vida estritamente pes-soal. (KOURY, 2005).
O que mostra que a emoção é mais vista como uma catego-ria analítica dentro das realidades sociais intersubjetivas, diferen-te do ponto de vista de Damásio, que vai tão fundo no estudo da emoção e do sentimento que irá supor a submissão das realidades sociais aos processos adaptativos da vida humana para a sua preservação num contexto macro ecológico ou cósmico. “Os sentimentos não são uma mera decoração das emoções, qual-quer coisa que possamos guardar ou jogar fora.” (DAMÁSIO, 2004, p.15).
Desse modo, será que os sentimentos são as expressões sociais das emoções? Independente da resposta do quem vem primeiro: o social ou o biológico, restam as factuais instâncias da vida cotidiana que exigem a adaptabilidade do indivíduo. Porém, entender o mecanismo dos sentimentos é vital para uma adapta-ção mais adequada. inclusive para melhor compreender os nos-sos possíveis desvios.
Resgatando uma outra obra de António Damásio: “O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano”, vemos que
É , por isso, ainda mais surpreendente e inédi-to que a ausência de emoções não seja me-nos incapacitadora nem menos suscetível de comprometer a racionalidade que nos torna distintamente humanos e nos permite decidir em conformidade com um sentido de futuro pessoal, convenção social e princípio moral. (DAMÁSIO, 1996, p.12). (grifo nosso).
Afirmação cujos temas relacionados em ciências sociais são: socialização; ajuste ou enquadramento; prevenção de des-vios e a habilidade para entender e sentir as regras de acordo com os arquétipos de certo e do errado aprendidos socialmente em suas expressões conscientes na forma de ações.
Nesta obra, Damásio trata, como fonte para reflexão, sobre os problemas e conseqüências de certas lesões cerebrais e da incapacidade de projetar ou definir ações futuras decorrente des-tas lesões. Mais especificamente ele relata o caso Cage , que em cuja incapacidade de relacionamento social frutífero demons-tra-se a ligação do cérebro com comportamento social.
O aspecto mais marcante dessa história de-sagradável consiste na discrepância entre a estrutura da personalidade normal que prece-deu o acidente e as características de personalidade nefandas que emergiram a partir daí e permaneceram para o resto da vida de Ga-ge. Ele tinha outrora sabido tudo o que preci-sava saber para efetuar escolhas que levas-sem ao melhoramento de sua pessoa. Tinha um sentido de responsabilidade pessoal e so-cial que se refletia no modo como assegurava a promoção na carreira, se preocupava com a qualidade de seu trabalho e atraía a admira-ção de patrões e colegas. Estava bem adap-tado em termos de convenções sociais e pa-recia ter seguido princípios éticos na sua conduta. Depois do acidente, deixou de de-monstrar qualquer respeito pelas convenções sociais; os princípios éticos eram constante-mente violados; as decisões que tomava não levavam em consideração seus interesses mais genuínos; era dado à invenção de narra-tivas que, segundo as palavras de Harlow, "não tinham nenhum fundamento, exceto na sua fantasia". Não existiam provas de que ele se preocupava com o futuro, nem qualquer sinal de previsão acerca do mesmo. (DAMÁ-SIO, 1996, p.31).
[...]
Porém, compreender a alteração de compor-tamento de Gage significaria acreditar que a conduta social normal requeria uma região cerebral correspondente particular, e esse conceito era ainda mais impensável do que seu equivalente para o movimento, os senti-dos ou mesmo para a linguagem. (DAMÁSIO, 1996, p.34)
Esses argumentos de Damásio se ligam diretamente à pro-blemática aqui estudada. Voltando ao Em Busca de Espinosa, em seu capítulo quatro intitulado Depois dos Sentimentos, ele discorre sobre “os sentimentos e o comportamento social” (DA-MÁSIO, 2004, p. 149-154) e nos diz que as pessoas, por causa das lesões, “perdem a capacidade de governar o seu comportamento na sociedade em que vivem.” “Nesses doentes, rompem-se os contratos sociais.” “Esses doentes deixam de ser capazes de manter o seu status social e perdem a sua independência financeira.” “Desrespeitam por certo as convenções sociais.” E que são afirmações inquietantes para o ajuste dos indivíduos às diversas situações sociais que requerem habilidades de natureza sócio-emocional. Ou ainda:
O problema é que ninguém pode contar com eles para que se apresentem no trabalho ou para que executem as várias tarefas que são necessárias para que uma certa meta seja atingida. (DAMÁSIO, 2004, p. 150-151)
Algo que pode causar sérios problemas de desvio de com-portamento dentro de uma estrutura social que exige do indiví-duo a observação de certas regras, como por exemplo, no trabalho.
DESVIO NA ESTRUTURA SOCIAL
É mile Durkheim (1978) em “Da Divisão do Trabalho Social” fala da solidariedade orgânica e do desvio. Ele fala do normal e do patológico na sociedade. São conceitos que tratam da inter-dependência entre indivíduos numa estrutura social que estabe-lece papéis e regras para moldar o funcionamento de um siste-ma que, se não é perfeitamente equilibrado, exige constante manutenção e cuidado.
Durkheim não falava de lesões cerebrais porém, se em par-te a doença social é o desvio do indivíduo inserido na sociedade, não se nega uma coisa com a outra, apenas se entende com mais profundidade a relação entre as convenções da estrutura social e os modos de apreensão do sentimento do indivíduo pe-rante a situação; sendo o estudo do ponto de vista neurológico, que é o de Damásio, algo de mais apurado e abrangente, pois busca explicações dos desvios de comportamento também no âmbito cerebral, que inerentemente complementam o social e vice-versa.
A capacidade de predição do futuro, capacidade emocional e reflexiva, nos habilita navegar em sociedade. Avaliar pessoas, relações e vantagens. Já as pessoas com lesões: “Não obser-vam certas convenções sociais e podem também não observar certas regras de ética.” (DAMÁSIO, 2004, p.151)
O desvio social pode também vir em forma de anomia (DURKHEIM, 2000), pois o indivíduo se vê em uma situação fora de sua capacidade apreensiva de solução, o que pode levar à depressão. No caso atingindo tanto a si mesmo quanto aos ou-tros próximos. Neste caso também há a “falta de empatia” des-ses doentes como recorrente.
E sendo a causa imediata do problema uma lesão cerebral numa região específica, pode-se perguntar se uma reeducação do indivíduo não parece ficar impedida pela ausência das cone-xões neurais! Afinal, o poder de socializar o indivíduo em sociedade ficaria reduzido ou anulado perante o reconhecimento da lesão. Nesse caso, qual será o predominante: o social ou o bio-lógico?
DO EMOCIONAL BIOLÓGICO AO SOCIAL
Todas as afirmações sobre emoções no nível neuro-biológico parecem inegáveis. O nosso papel é desenvolver as possibilidades de interação social mesmo reconhecendo a primi-tividade existencial do nosso sistema neurológico-emocional. Daí que reconhecer as ações emocionais nos outros e em si faz com as interações possam se tornar mais eficientes (no trabalho), pacíficas (no pessoal) e proveitosas (no individual). Que são no fundo prescrições feitas a partir das crenças aqui interpretadas sobre os sentimentos e a vida social.
Tudo isso tem como base a capacidade de se relacionar com o outro e poder produzir os interesses que levem às metas e aos meios de alcançá-las. Essa produção de interesses é uma atividade predominantemente cultural, mesmo reconhecendo sua base original no instinto de sobrevivência de caráter biológi-co.
Resgatando uma hipótese de Clifford Geertz (1989): o cére-bro humano se desenvolve mais a partir do momento que a cul-tura se desenvolve; assim a evolução biológica teria sido acelerada pela cultura. Vemos, pelo que diz Damásio (2004), capítulo dois, intitulado Os Apetites e As Emoções, que Geertz não esta-va muito longe do que se sabe hoje sobre o desenvolvimento do cérebro. Neste capítulo, a partir do modelo de uma árvore (figura 01), o topo da árvore representa os sentimentos e são reflexo do encontro entre as emoções, que também existem também em outros animais, e o contexto sócio-cultural, que ensina o indiví-duo humano a entender e expressar o sentimento, isto é, se socializar.
“ As emoções ocorrem no teatro do corpo. Os sentimentos ocorrem no teatro da mente.” Isto é, as emoções são inconscien-tes e os sentimentos são conscientes, logo, as necessidades ambientais (a era do gelo, no caso exemplificado por Geertz) que influenciaram a evolução cerebral para o estágio que está hoje, fizeram com que os humanos primitivos aprendessem a sentir as emoções por que estavam passando (medo, raiva, tris-teza), pois de outro modo não teriam podido criar novas solu-ções para a sobrevivência, pois que o instinto não era mais sufi-ciente para a nova situação ambiental. (GEERTZ, 1989)
Diante disso, pode-se abordar a questão da homeostasia, “que descreve esse conjunto de processos de regulação e, ao mesmo tempo, o resultante estado de vida bem regulada.” (DAMÁSIO, 2004, p.38). E que esses homens primitivos se encon-travam num sério risco de entrar em entropia total, chegando à extinção, e por isso tiveram de desenvolver artefatos culturais para sobreviver à nova condição física (o frio). Assim a criativi-dade e a capacidade de cooperação faz evoluir a espécie ao mesmo tempo em que se desenvolve o cérebro ao estado atual.
Esse modo de pensar leva Damásio, em alguns momentos, a construir formulações que poderiam ser interpretadas como sugerindo o “determinismos biológico”, o que pode ser conside-rada quase uma “heresia” nas Ciências Sociais. Diz ele:
O genoma garante que todos esses dispositi-vos estejam ativos na data do nascimento, ou pouco depois, com pouca ou nenhuma de-pendência da aprendizagem, embora a a-prendizagem venha a desempenhar um papel importante na determinação das ocasiões em que esses dispositivos virão a ser usados. Quanto mais complexa a reação, mais a a-prendizagem assume esse papel. Reações como chorar e soluçar estão prontas na data do nascimento, mas as razões por que cho-ramos ou soluçamos ao longo da vida variam com nossa experiência. (DAMÁSIO, 2004, p.42).
Porém ele também diz que “a finalidade do esforço homeos-tático é produzir um estado de vida melhor do que neutro, produ-zir aquilo que nós, seres pensantes, identificamos como o bem estar.” (DAMÁSIO, 2004, p.43). E enfim que:
É claro que a tentativa contínua de conseguir um estado de vida equilibrada é um aspecto profundo e definidor da nossa existência. É o que nos diz Espinosa, que vai mais longe e chama a essa tentativa a primeira realidade da nossa existência, uma realidade que ele descreve como o esforço implacável da auto-preservação presente em qualquer ser. Espi-nosa designa esse esforço implacável com o termo conatus... (Idem).
Vê-se então que o argumento de Damásio nos leva ao reco-nhecimento do imperativo biológico como fundamento do com-portamento social humano. Coisa difícil de se aceitar quando se pensa na vontade humana como algo livre. Mas não dá para deixar de lado a constatação da homeostasia, para imaginar que até as ações desviantes ou anômicas (como o suicídio) não deixam de ser a falta desta por uma razão ou por outra, seja interna (lesões ou doenças) ou seja externa (perdas pessoais, dificulda-des sociais, crime, família, fracasso, exigência social, etc.).
Voltando ao modelo da árvore (figura 02), agora com a se-paração entre emoções de fundo; emoções primárias e emoções sociais. É nesta última que me concentro agora, extraindo as idéias do capítulo dois e quatro do livro de Damásio para nossa análise da importância das emoções para as relações sociais.
As emoções sociais incluem a simpatia, a compaixão, o em-baraço, a vergonha, a culpa, o orgulho, o ciúme, a inveja, a gra-tidão, a admiração e o espanto, a indignação e o desprezo. Nu-merosas reações regulatórias, bem como componentes das e-moções primárias, são parte integrante, em diversas combina-ções, das emoções sociais. O encaixamento de componentes mais simples é observável, por exemplo, quando o desprezo utiliza as expressões faciais do nojo, uma emoção primária, que evoluiu em associação com a rejeição automática e benéfica de alimentos potencialmente tóxicos.
Até mesmo as palavras que utilizamos para descrever situa-ções de desprezo e indignação moral — confessamo-nos enoja-dos ou desgostosos em relação a certas situações sociais — giram à volta desse princípio de encaixamento e incorporação. Ingredientes de dor e de prazer são igualmente bem evidentes na profundidade das emoções sociais. (DAMÁSIO, 2004, p.54)
Neste espírito, Erving Goffman (1999) e outros autores já se guiavam por essas emoções sociais para trabalhar as interações sociais, as expressões e impressões que os indivíduos querem ou não deixar transparecer aos outros e que são reveladas por estas mesmas palavras: embaraço, vergonha, etc. A diferença talvez aqui seja que Damásio diz o mesmo com confirmação do estudo neurológico, e deixando claro que o aprendizado para a sobrevivência social tem origem na herança neuro-genética.
Para alguém que esteja convencido de que os comportamentos sociais são exclusiva-mente resultado da educação, é sempre difícil aceitar que espécies animais extremamente simples possam exibir comportamentos soci-ais inteligentes. Mas a verdade é que podem e nem sequer precisam de um cérebro gigan-te para fazê-lo. (DAMÁSIO, 2004, p.55)
A posição sócio-cultural restrita seria realmente esta, já que toda tradição sócio-antropológica nos diz que é a cultura o for-mador do comportamento adaptativo social. Mas somos parte de uma ciência e esta deve ser dinâmica. No fim das contas contri-bui-se muito mais compreendendo as interações e desvios soci-ais para o aprimoramento da vida em sociedade, independente se a origem é biológica.
Daí que, "esse curioso comportamento faz pensar em vários conceitos sociais: segurança por meio da cooperação, apertar o cin-to, altruísmo, sindicatos, conceitos que normalmente atribuímos à invenção humana." E ainda que "é muito provável que a existência de emoções sociais tenha tido um papel no desenvolvimento dos mecanismos curturais da regulação social." (DAMÁSIO, 2004, p.56)
Admitir a origem biológica das ações sociais humanas não tira o status humano da noção antropológica de ética, mesmo esta sendo neurobiológica, como hipotetisa Damásio (2004, p.74):
É evidente, contudo, que o comportamento é-tico humano tem um grau de elaboração e complexidade que o torna distintamente humano e não apenas uma cópia daquilo que outras espécies têm ao seu dispor. As regras da ética criam obrigações especificamente huma-nas para qualquer indivíduo normal que as conheça, e, é claro, a codificação das regras é exclusivamente humana. Quanto às narrati-vas que se construíram em torno das situa-ções e das regras, são também exclusiva-mente humanas. No fundo não é assim tão di-fícil conciliar a percepção de que uma parte da nossa estrutura biológica e psicológica tem ra-ízes não humanas com a noção de que a nos-sa compreensão profunda da condição humana confere a essas estruturas uma dignidade única.
E o próprio Damásio (2004, p.177) reconhece que
A elucidação dos mecanismos biológicos em que se assentam os comportamentos éticos não significa que esses mecanismos ou a sua disfunção sejam a causa singular de um de-terminado comportamento. O fato de que con-tribuem para o comportamento não significa que sejam, necessariamente, determinantes desse comportamento.
Mesmo assim, o papel determinador das emoções na regulação da vida humana e a primordialidade das emoções na for-mação da vida em geral, leva-me a dizer que Damásio deixa claro que os comportamentos sociais possuem uma determina-ção neurofisiológica, ou pelo menos uma clara influência.
Isso poderia, como disse antes, ser visto como determinis-mo genético, mas não é, é conhecer o repertório (que precisa ser estimulado socialmente) de possibilidades dadas pela gené-tica para assim compreender melhor o comportamento sócio-cultural.
CONCLUSÃO - O SOCIAL, O BIOLÓGICO E O EMOCIONAL: INDIVÍDUOS
Claude Lévi-Strauss (1980) nos conta das Estruturas In-conscientes como aspecto universal de todas as culturas. Essas estruturas podem ser interpretadas como todo contexto social supra individual que impõe aos indivíduos certos comportamentos. Algo que Durkheim (1978) já havia falado com o nome de Coesão Social. Ambos nada mais são do que os sentimentos (quando conscientes) das emoções sociais que enquadram ou sujeitam os indivíduos àquilo que é melhor para a sobrevivência do grupo. No fim, tudo parece ser sobrevivência.
No capítulo cinco do Em busca de Espinosa ainda há a dis-cussão sobre a separação entre corpo e mente, e que parece levar Damásio, desde O Erro de Descartes, a caminhar por entre esta discussão de cunho às vezes metafísico. No entanto, mes-mo evitando todos os reducionismos possíveis, a lição a ser tira-da ainda é sobre como os indivíduos em inseparável situação social podem aprender sobre si e sobre os outros para garantir uma vida social em equilíbrio, já que esse seria o princípio vital que o move dentro da sociedade.
Norbert Elias (1994) pesquisou sobre o Processo Civilizador da humanidade ocidental e, resumidamente, extraiu do cons-trangimento e da vergonha (sentimentos e/ou emoções sociais, a depender do nível de consciência de quem sofre o mesmo) todo processo de aprendizado e sobrevivência social que chamamos de civilização. E isso é independente do corpo e a mente serem ou não a mesma entidade, já que ambas as noções estão inse-paráveis no indivíduo em sociedade, pois quando atuamos soci-almente, usamos tudo (corpo - cérebro - mente); para o interlo-cutor é uma coisa só, uma pessoa.
Inegavelmente Damásio contribui muito para questionamen-tos bastante antigos nas Ciências Sociais, meio que direciona a reflexão sobre o problema do humano para o determinismo bio-lógico, mas com as ressalvas inerentes a qualquer argumenta-ção com pretensões de ciência, como é este nosso caso:
Será que os imperativos adaptativos sócio-biológicos con-seguem dar conta de uma possível auto-extinção? Se o proces-so evolutivo está correto, somente os mais adaptados sócio-emocionalmente deverão sobreviver ao próximo cataclisma só-cio-ecológico? E onde fica o senso de moral com relação aos não adaptados, será que reconhecemos neles parte de nós mesmos (empatia) ou será que são apenas perdas parte do pro-cesso de equilíbrio homeostático cósmico?
Acredito que a essas perguntas nem Damásio nem ninguém pode tentar se atrever a responder de maneira sintética, pois envolvem uma crítica ao nosso modo de viver na atualidade e às nossas humanas pretensões de preponderância diante de tudo: Deus, natureza ou outros homens.
REFERÊNCIAS
DAMÁSIO, António. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
_______________. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Trad.: Dora Vicente e Georgina Segurado. São Paulo: Cia. das Letras, 2000.
_______________. O Mistério da Consciência, São Paulo: Cia. das Letras, 2001.
DURKHEIM, Émile. Os Pensadores: textos. Trad.: Luz Cary e outros. São Paulo: Abril, 1978.
_______________. O Suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Trad.: Vera Ribei-ro. Rio de Janeiro: JZE, 1994.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janei-ra: LTC, 1989.
GOFFMAN, Erving. As representações do Eu na vida cotidia-na. Trad.: Maria Raposo. Petrópolis: Vozes, 1999.
KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. A Antropologia das Emo-ções no Brasil. João Pessoa: GREM/UFP, 2005.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Os Pensadores: textos. Trad.: Eduar-do Graeff e outros. São Paulo: Abril, 1980.
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