REFLEXÕES SOCIOLÓGICAS
SOBRE
O CONCEITO DE “INTELIGÊNCIA SOCIAL”
DE DANIEL GOLEMAN
Prof. Fabiano V. Oliveira
1. Questionamentos e contribuições.
Para que serve a Inteligência Social? A tradição
do método sociológico nos faz realizar
esse primeiro questionamento para lembrar que, apesar
da natureza adversa da academia, o tema merece atenção
também dos acadêmicos.
Considerada por sociólogos como leitura de aeroporto,
isto é, texto de auto-ajuda, o argumento de Daniel
Goleman encontra ressonância em outras áreas
do conhecimento e em outras comunidades científicas
que não a mais ortodoxa. Desse modo, segundo a
mentalidade de Thomas Khun e suas estruturas das revoluções
científicas, o que vale aqui é responder
para que serve a Inteligência Social para esta
comunidade de pensadores sobre as emoções.
Admitir e reconhecer os processos neurofisiológicos
ajudam em que na compreensão dos processos interativos?
Esse é outro questionamento que a Sociologia e
a Antropologia das Emoções têm obrigação
de fazer, mesmo que até o momento não se
tenha estabelecido uma agenda mais aprofundada nesse
nível da discussão sociológica das
emoções. Até o momento o que se
tem é o debate sobre os vocabulários das
emoções, ou dos sentimentos (o que já é uma
indiscriminação perigosa do ponto de vista
neurocientífico), e as formas de expressão
das mesmas diante das diversas situações
sociais. Em princípio, admitir e reconhecer tais
processos ajudam a entender apenas a origem dos processos
interativos, mas ainda é a descrição
semântica (dos seus significados) que contam para
as tomadas de decisão individuais e sociais.
Como a arquitetura cerebral é modificada pelos
novos padrões sócio-ambientais de nossa
sociedade atual? O ambiente moderno e pós-moderno
apresenta uma série de novos elementos sócio-semânticos
que precisam ser levados em conta no momento de avaliar
as reações emocionais individuais.
Além disso, diante dos novos conhecimentos em
neurociência, aparentemente bem sustentados por
várias pesquisas, o design cerebral sociável,
isto é, aberto a construção e interação
constantes, possibilita uma percepção da
vida em sociedade bastante ampla de possibilidades, sejam
positivas ou negativas, muito a depender do fator educação
aplicado aos indivíduos que aprendem a viver nesta
sociedade.
A partir desses questionamentos básicos, algumas
conseqüências precisam ser elaboradas como
possíveis questionamentos diante das teorias de
Inteligência Social apresentadas por Daniel Goleman.
As relações estão restritas às
relações face-face? Como lidar com o processo
de encastelamento, que restringe os contatos face-face?
Especialmente diante hoje de uma sociedade tão
intensamente midiatizada pelos meios de comunicação
de massa e pelas novas tecnologias de informação
e comunicação (TICs).
O aprendizado da Inteligência Social pode ser usado
em estratégias de dominação e liderança?
A utilidade prática imediata de tal estudo, se é que
se baseia em elementos realmente possíveis de
serem manipulados pelos indivíduos interessados, é justamente
essa: usar a Competência da Inteligência
Social para superar obstáculos nos ambientes coletivos.
Os empresariais e competitivos seriam os mais eminentes
de absorverem tais tecnologias.
Daí surge uma nova questão: como fica a
questão da formação dos valores?
Será que o Etnocentrismo explica o conflito entre
Mente Tribal e Vida Global? Os indivíduos respondem
socialmente aos estímulos emocionais, sim ou não?
Porque se estes são os casos dos novos questionamentos,
então, a Inteligência Social nada mais é que
Inteligência Emocional. Isto é, uma elaboração
mais aprofundada das técnicas de construção
da competência emocional dos indivíduos,
porém nos âmbitos sociais dos mais diversos.
2. Posicionamento
Sociológico
A contribuição do aprendizado e da socialização
nos fazem remeter aos conceitos de Sociabilidade e de
Poder Simbólico. O primeiro conceito, tributário
da sociologia de Georg Simmel nos fala da importância
das interações do dia-dia para a construção
da vida social oficial. E o segundo conceito, desenvolvido
por Pierre Bourdieu, que guarda a importância dos
habitus dos grupos sociais detentores de poder que permitem
a entrada de novos membros diante da aquisição
do poder simbólico (títulos, relações
e reconhecimento). E ambos os conceitos podem ser ricamente
relacionados com a Inteligência Social de Daniel
Goleman.
Os indivíduos só são indivíduos
em sociedade. O aprendizado da Inteligência Social
só é viável ao se reconhecer o outro
(empatia, relação EU-TU). Que prossegue
com o processo de socialização e aprendizado.
Indivíduos educados dentro desse paradigma tenderão
a reproduzi-lo em suas relações futuras.
Esses estudos fazem parte da mesma estrutura estruturada
e estruturante na qual as relações de poder
e a produção do conhecimento são
ferramentas de dominação. Novamente, como
diz Pierre Bourdieu sobre o poder e a violência
simbólica, é uma possibilidade sociológica
que existe em qualquer forma de conhecimento.
Logo, não se pode negar que os estudos sobre Inteligência
Social são uma forma de verdade cuja utilidade
não é meramente filantrópica.
3. Desdobramentos
O conceito de Contágio Emocional e o aprendizado
da capacidade de interagir é bastante pertinente
dentro de uma abordagem interacional, pois daí pode-se
compreender uma série de comportamentos individuais
baseados na influência social.
O conceito de Neurônios Espelho afeta também
a compreensão dos processos de Sociabilidade,
pois permite um olhar complementar ao de Simmel sobre
como o prazer ou o desprazer influenciam nas relações
entre os indivíduos em diversas situações
oficiais e não oficiais.
Além disso, o cérebro só pode ser
enganado com estímulos ilusórios simbólicos
após o aprendizado desses símbolos. Isto é,
as modificações na arquitetura cerebral é dependente
dos elementos simbólicos que dão significado
(social) às relações humanas.
Para o sociólogo é relevante a relação
entre os processos decisórios e as conseqüências
coletivas dos mesmos, isto é, a contribuição à sociologia
dos elementos até aqui mencionados se encontra
na melhor compreensão da origem e possível
modificação dos padrões de comportamento
dos indivíduos em situações sociais
diversas.
O que nos leva a algumas conclusões provisórias.
4. Conclusão
Muito mais que um processo neurofisiológico, que é inegável,
o que interessa é notar como o desenvolvimento
da Inteligência Social dos indivíduos afeta
a vida coletiva. Pode-se até fingir tudo que se
sente, mas o que vai contar nas relações
sociais é o que é expresso, mesmo que os
neurônios espelho sintonizem diferente. Ex.: interações
entre pessoas de níveis hierárquicos diferentes.
Deve ser vantajoso para ambos desenvolver competência
emocional, pois fará a relação ser
bem mais agradável e produtiva. Infelizmente não é isso
que ocorre na maioria das vezes. Então, falta-lhes
Inteligência Social.
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