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INTELIGÊNCIA SOCIAL:
analisando o amor entre o homem e a mulher.

Hélio Soares de Brito*

RESUMO

Este trabalho propõe-se a analisar aspectos relevantes do amor entre o homem e a mulher, descritos nos capítulos 13 e 14, do livro de Daniel Goleman Inteligência social: o poder das relações humanas. O autor inova ao relacionar o tema com a neurociência. Considera que o amor humano segue duas vias: a via secundária que corresponde aos circuitos subcorticais e a via primária que compreende o cérebro racional. Os dois sistemas são ativados de maneira diferente no homem e na mulher. Conseqüentemente, tanto podem propiciar a harmonia, como conflitos entre os casais. Esses pressupostos são associados a outros estudos sobre os níveis de satisfação dos casais. Finalmente, são feitos comentários sobre os métodos utilizados e propostas algumas recomendações.

Palavras chave: Amor Romântico. Apego, cuidado e sexo. Redes neurais. Experiências reparadoras.

1 INTRODUÇÃO

Daniel Goleman fez o doutorado na Universidade de Havard, é autor de vários livros, como a Inteligência Emocional, de ampla divulgação mundial, e Trabalhando com a inteligência emocional. É, também, co-autor de O poder da inteligência emocional. É redator do The York Times, onde escreve sobre a neurociência e as ciências comportamentais.

O tema desenvolvido, nesses capítulos, já foram anteriormente investigados por outros pesquisadores, como o conceito de apego, cuidado e sexo. A inovação consiste, porque Goleman relaciona esse tema com os conhecimentos da neurociência.

Será que existe correlação entre a dimensão biológica e as relações de amor entre o homem e a mulher? O texto de Goleman procura mostrar essa correspondência ao conectar o amor romântico com as redes neurais do cérebro.

2 O AMOR ROMÂNTICO

Considera, o autor, que a neurociência distingue as redes neurais referentes ao apego, cuidados e sexo.
Para Goleman (2006, p. 217), as variações do amor compreendem o amor romântico, familiar e dos pais:

A neurociência distingue as redes neurais referentes ao apego, cuidados e sexo. Os três sistemas se conectam para perpetuar a espécie. São variações do amor - romântico, familiar e dos pais - , bem como em nossa capacidade de conexão, seja em situações de amizade, compaixão ou ao afagarmos um gato. Apego determina quem procuramos em busca de socorro, pessoas que mais sentimos falta quando ausentes; Cuidado é o impulso para cuidar das pessoas com as quais nos preocupamos; E sexo ... bem, sexo é sexo.

2.1 O que leva os casais à união e à separação?

Goleman (2006), ao incluir a dimensão biológica do comportamento, amplia a compreensão da resposta dessa indagação, fundamentado, principalmente, nas pesquisas da neurociência. Pondera que o amor romântico compreende os três aspectos: apego, cuidado e sexo (desejo). Do ponto de vista cerebral, o amor tem duas vias: a via secundária que é regida pelos circuitos subcorticais e a via primária que compreende o cérebro racional. Esses dois sistemas são ativados de maneira diferente no homem e na mulher. Os homens, geralmente, têm níveis mais altos de testosterona, que estimulam o desejo (sexo) e níveis mais baixos das substâncias que estimulam o apego. As mulheres, ao contrário, têm níveis mais baixos da testosterona e mais altos da oxitocina, substância mais ligada às necessidades de cuidados, aconchego e carinho. O nível de satisfação do casal depende da harmonia entre as duas vias do amor, a primária e a secundária.

Nas mulheres apaixonadas, por exemplo, pesquisas com fotos dos amados ativam centros diferentes no circuito do cérebro social: o centro cognitivo de memória e atenção, ou seja, as mulheres costumam avaliar, previamente, o homem como seu futuro cônjuge. As mulheres tendem a se apaixonar mais lentamente que os homens. Tais diferenças podem criar conflitos no relacionamento amoroso:

À parte a cultura e a diferença de gêneros, talvez o maior dilema para o amor romântico tenha suas origens na tensão essencial entre os sistemas cerebrais subjacentes à noção segura de apego e os subjacentes a carinho e sexo. [... ] quando existem conflitos, o amor pode cambalear; quando existe harmonia,o amor pode florescer. (GOLEMAN, 2006, p. 230).

As diferencias entre os dois sistemas cerebrais, tanto podem levar à dependência, como à separação do casal. Para Jaak Panksepp (apud GOLEMAN, 2006), a paixão pode tornar o casal viciado um no outro e é similar à dependência do ópio.
Goleman pondera que a sintonia entre as pessoas amadas não se encontra no apego obsessivo que sufoca os parceiros, mas no respeito ao espaço pessoal do outro.

2.2 Estilos de apego dos casais

Refere-se ainda, o autor, aos estudos de Phillip Shaver, que revelaram vários tipos de apego identificados nos casais: 55% dos americanos são seguros, mantêm relacionamentos íntimos e confortáveis, menos conflitos; 20% são ansiosos, têm preocupações obsessivas, dependência emocional, medo de serem abandonados e de não serem amados, mais conflitos; 25% são evitativos, não confiam no parceiro, temem maior proximidade com o parceiro e compartilhar emoções. Esses tipos de apego são moldados na infância e podem ser modificados pela experiência, pela psicoterapia ou relacionamentos reparadores.

Para Erikson, (apud Goleman), conforme os padrões de apego dos pais, pode-se estimar, com precisão de 70%, o estilo de apego dos filhos: os pais seguros correspondem a filhos seguros; pais ansiosos a filhos ansiosos; pais evitativos a filhos evitativos.
Shore, (apud GOLEMAN, 2006, p. 196), fala sobre as experiências reparadoras:

Schore argumenta que os relacionamentos positivos mais adiante na vida podem ampliar a reescrita dos scripts neurais que foram criptografados no cérebro durante a infância.

O terapeuta, um parceiro amoroso ou um bom amigo podem propiciar experiências reparadoras nos relacionamentos mal sucedidos.

2.3 Como aumentar o nível de satisfação dos casais?
Segundo Goleman (2006), as pesquisas revelam que 94% das mulheres e 92% dos homens fantasiam durante o ato sexual; outros relatos falam em 47% para os homens e 34% para as mulheres. Outro estudo revelou serem mais freqüentes as fantasias com outra pessoa que com o parceiro atual. Tais fantasias, geralmente, descrevem o outro como um objeto para satisfazer os próprios desejos. A intimidade e o desejo sexual podem aumentar, se os parceiros concordam em vivenciar essas fantasias, principalmente os relacionamentos mais antigos.

Comentários
Os pressupostos de Goleman podem ser associados a outros estudos realizados sobre a avaliação dos níveis de satisfação de casais. Pesquisa de Heilborn (1995, apud Brito, 2005), por exemplo, pode ser relacionada com alguns conhecimentos da neurociência. Heiborn, comenta que os casais, no início de uma relação intensa de convivência, geralmente, experimentam uma emoção denominada de paixão, que corresponde aos opióides neurais; depois de dois anos, aproximadamente, a relação perde a sua vibração inicial e passa a ser reconhecida como amor, que corresponde a serenidade e cuidados recíprocos induzidos pela oxitocina; em seguida, vai caindo na rotina que alguns denominam de burocratização da relação. A autora acredita que a distância ideal entre os cônjuges constitui-se em desafio para os casais.

É , também, bastante conhecido o estudo de Olson (1988), para o qual, o grau de satisfação dos cônjuges, geralmente, varia de acordo com as etapas do ciclo vital. Tal satisfação, geralmente, é mais significativa quando o casal não tem filhos ou possui filhos menores de 12 anos, do que quando tem filhos adolescentes e maiores de idade. Para esse autor, a insatisfação conjugal tende a assumir uma forma de “U” pouco profunda. Começa com o nascimento do filho primogênito e prossegue, lentamente, através dos anos, atingindo seu momento crucial com a emancipação dos filhos e o estágio do “ninho vazio”, quando os filhos se casam e deixam o lar dos pais.

Ainda sobre a satisfação dos cônjuges, Brito (2005), realizou pesquisa com grupos de famílias consideradas resilientes e vulneráveis e constatou que o vínculo conjugal apresenta-se como o maior fator de risco nos dois grupos. Em 75% dos casais, a unidade conjugal é pouco diferenciada dentro do sistema familiar; é pouco gratificante, pois a relação é percebida como pouco prazerosa e construtiva. Já o apego afetivo com os filhos foi analisado como o maior fator protetor da família, conforme pode-se observar no relato de uma das esposas:
Sabe o que é, no dia que fez 23 anos que nós estamos juntos[...]aí quando eu fui dar parabéns pra ele, eu disse assim: “Eu não sei se lhe dou pêsames ou se lhe dou parabéns!” Mas eu não falei isso em tom que nosso relacionamento merecesse pêsames não. A expressão não é essa aturar {...] as lagrimas, sorriso e tudo e ele que interpretou por ser uma coisa ruim, mas não foi isto [risos]. Talvez pela diferença de idade[...] o que realmente desgastou a relação é que eu me sentia uma viúva de marido vivo, de dizer assim: “Cadê o seu marido?” – “Ah, não veio!” – “Não veio por que?” – “Porque não quis”. Sempre você tá dando desculpa pra alguém[...] a cama é só cama com tudo aquilo na sua cabeça não acontece nada. Na minha relação prá ele ficou muito ruim mesmo. Elas (as filhas) sofreram muito e aí a gente conversou e eu voltei (a esposa voltara após abandono provisório do lar). O que me incomodava antes, hoje já não me incomoda. (BRITO, 2005, p. 67).

Pode-se inferir que o sistema de troca recíproca do casal está comprometido, uma vez que a esposa revela, ao mesmo tempo, insatisfação e acomodação na relação conjugal. Alega que falta companheirismo e está afetado o relacionamento sexual com o marido. Já se separou provisoriamente, mas depois voltou ao lar por causa das filhas. Parece que a mãe atribui ao relacionamento com as filhas um significado especial, pois foi o motivo alegado para voltar a conviver com o marido e a família.

Terapeutas Familiares ponderam que o desejo sexual do casal, no início da relação é, geralmente, mais intenso e depois tende a cair na rotina. Recomendam que esse desejo deva ser constantemente alimentado para evitar o seu declínio. Acreditam que o homem, mesmo cansado, na maioria das vezes, responde a estímulos sexuais. Enquanto a mulher acaba adiando o sexo ou porque lhe falta disposição física ou porque o parceiro não a estimula adequadamente ou pelo constrangimento de ter que tomar a iniciativa. A mulher, geralmente, necessita ser envolvida por um clima romântico e do toque do parceiro para se entregar ao sexo.
Beavers e Hampson (1995) recomendam a realização de programas de enriquecimento conjugal, como uma forma de propiciar competências interpessoais ao casal. Ressaltam, os autores, a importância de se realizar investigações sobre a eficácia desses programas.

3 CONCLUSÃO

Pode-se chegar a algumas conclusões, destacando as principais contribuições e restrições, referentes aos capítulos 13 e 14, do livro de Daniel Goleman: Inteligência social: o poder das relações humanas.

Para o autor, as diferenças existentes entre os sistemas cerebrais de apego, cuidados e sexo, do homem e da mulher, tanto podem levar à união, quanto à separação dos casais. Os homens, geralmente, são mais estimulados pelo desejo (sexo) e as mulheres são mais propensas aos cuidados, ao aconchego e ao afeto.

Apesar das investigações da neurociência ampliarem a compreensão da dimensão biológica do amor entre os casais, o amor humano não pode ser reduzido a essa dimensão. Ao contrário, deve ser contextualizado e articulado com outras dimensões, como a psicológica, a social, a cultural, a econômica e a política.

Algumas pesquisas apresentadas, por Goleman, poderiam ser mais contextualizadas. Por exemplo, quando o autor apresenta os estilos de apego dos americanos, parece generalizar os resultados das pesquisas, sem antes descrever suficientemente as características da amostra. Os dados são meramente quantitativos, ou de laboratório, quando poderiam ser complementados com outros recursos, como a análise qualitativa e estudos longitudinais, para a melhor compreensão do problema.

O tema desenvolvido é tão relevante que poderiam se formuladas novas indagações. Por exemplo, se existe correlação entre os vários estilos de apego, tais como, seguros, ansiosos e evitativos com a idade, com a diferença de gênero, com o grau de instrução, com a classe social e com as diferenças transculturais dos parceiros. Quais são as características de casais resilientes, aqueles que, apesar dos desafios ou condições adversas, mantêm a unidade conjugal de forma sadia e adequada? Como fortalecer os vínculos conjugais?

Esses conhecimentos são importantes para propiciar aos casais a compreensão e a empatia pelas diferenças de gênero, a fim de se minimizar os conflitos e propiciar o bem estar da família.

Tais conhecimentos são, também, recursos úteis para os profissionais da área da educação, da saúde, do trabalho e, em especial, para o desenvolvimento da Educação das Emoções.

ABSTRACT

This study proposes to examine relevant aspects of love between man and woman, described in Chapters 13 and 14, of Daniel Goleman's book Social Intelligence: the power of human relations. The author innovates to relate the issue with neuroscience. Believes that human love follows two tracks: the sideline that corresponds to the subcortical circuit and the primary route that corresponds to the rational brain. The two systems are activated differently in men and women. Consequently, both can provide the harmony, as conflicts between couples. These assumptions are associated with other studies on the levels of satisfaction among couples. Finally, comments are made about the methods used and proposed some recommendations.

Key words: Romantic Love. Affection, care and sex. Neural networks. Remedial experience.

*Mestre em Ciências da Família da Universidade Católica de Salvador.
Professor da Faculdade Castro Alves

REFERÊNCIAS
BEAVERS, W. R.; HAMPSON, R. B. Familias Exitosas: evaluación, tratamiento e intervención. Traducción de Fernando Inglés Bonilla. Buenos Aires: Paidós, 1995.
BRITO, H. S. Estresse, resiliência e vulnerabilidade: comparando famílias com filhos adolescentes na escola. Dissertação (Mestrado em Ciências da Família) – Universidade Católica de Salvador. Salvador, 2004.
GOLEMAN, DANIEL. Inteligência social: o poder das relações humanas. Tradução de Beatriz Rodrigues. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.
HEILBORN, M. L. O Que Faz um Casal, Casal? Conjugalidade, Igualitarismo e Identidade Sexual em Camadas Médias Urbanas. In: RIBEIRO, Ivete ; RIBEIRO, Ana Clara T. (Orgs.). Famílias em Processos Contemporâneos: inovações culturais na sociedade brasileira. São Paulo: Loyola, 1955.
OLSON, D. H. Tipos de Família, Estrés Familiar y Satisfacion com la Família: una perspectiva del desarrollo familiar. In: FALICOV, C. J. Transiciones de la Familia: continuidad y cambio en el ciclo de vida. Tradução de Zoraida J. Valcárcel. Buenos Aires: Amorrortu, 1991.

 

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Sexta-feira, 18/05/2012.

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