FUNDAMENTOS DA INTELIGÊNCIA
SOCIAL
Jair de Oliveira Santos*
INTRODUÇÃO
Conceito de Inteligência Social
A Inteligência Social é a capacidade de
compreender e administrar adequadamente os relacionamentos
humanos. Edward Thorndike, em 1920, criou o conceito
para designar “a capacidade de entender e administrar
homens e mulheres”. (GOLEMAN,2007).
Entende-se por relacionamento a capacidade que a pessoa
tem de conviver e comunicar-se com seus semelhantes e
de aproximar-se de outra pessoa para atender às
necessidades recíprocas ou trocar informações.
Um relacionamento visa, além de atender às
necessidades mútuas das pessoas que elas troquem
informações sobre pensamentos, idéias
e sentimentos. O relacionamento só perdura se
as necessidades recíprocas dos parceiros forem
atendidas: se somente as necessidades de um são
supridas, ele tende a se extinguir (SANTOS, 2001).
Uma análise mais profunda das idéias de
Howard Gardner, da Universidade de Harvard, criador do
conceito de Inteligências Múltiplas, mostra
que ele considerou o conceito de Inteligência Social,
ao propor a Inteligência Interpessoal como parte
da inteligência pessoal, embora não tenha
usado esta denominação.
Em revisão recente, Gardner (2001), considera
que a inteligência interpessoal denota “a
capacidade de entender as intenções, motivações
e desejos do próximo e, conseqüentemente,
de trabalhar de modo eficiente com terceiros”.
Está claro que ele se refere ao relacionamento
social ao declarar “vendedores, professores, clínicos,
líderes religiosos, líderes políticos
e atores precisam ter uma inteligência interpessoal
aguda”.
Damásio (2001, 2004), trata em seus livros das
emoções sociais e considera que elas surgem
quando o indivíduo se relaciona socialmente. Médico,
Prof. de Medicina,
Mesmo sem usar o termo inteligência social, considera
que o estímulo para aparecer uma emoção
social está no relacionamento e trata das condições
para seu aparecimento, utilizando o conceito de Inteligência
Social.
Acredita que na base das emoções sociais estão as emoções
primárias, medo, raiva, tristeza, alegria, apego, nojo. Dá como
exemplos a simpatia, compaixão, vergonha, embaraço, culpa, desprezo,
indignação, espanto, admiração, gratidão,
orgulho, inveja e ciúme. Tais emoções são desencadeadas
por estímulos emocionalmente competentes de natureza social, como por
exemplo, quando um indivíduo fica indignado ao presenciar o espancamento
de uma criança indefesa por um adulto. Uma pessoa pode sentir vergonha,
culpa ou embaraço, por ter violado suas normas de conduta pessoais, ou
por elas terem sido elas violadas por um parente próximo. Outra pessoa
pode ter orgulho de seu pai devido às realizações sociais
e intelectuais dele.
Albrecht (2006), considera que a Inteligência Social é a habilidade
de se relacionar com outras pessoas e conseguir a cooperação delas. É uma
combinação entre a compreensão básica das pessoas
e um conjunto de técnicas para interagir com elas que deve ser desenvolvida
em todos os níveis de educação, desde a escola fundamental
ao ensino superior.
O efeito da Inteligência Social nos relacionamentos é grande, pois
através de nossas ações afetamos as emoções
e o estado de humor dos outros, bem como o funcionamento de seus corpos. Através
das emoções positivas como amor e alegria podemos ajudar a conservar
ou melhorar o estado de saúde de outra pessoa, e através de emoções
negativas como raiva, medo e tristeza podemos influenciá-las negativamente.
Abordagem da Inteligência Social
Numa abordagem epistemológica, pode-se considerar
dois fatores na Inteligência Social: um é o
sujeito cognoscente e o segundo tem dois componentes:
o objeto a conhecer, que é a outra pessoa, e o
meio social que o envolve.
Numa interação social o processo cognitivo
do sujeito cognoscente passa por diversas etapas: na
primeira,denominada de Empatia Primordial, ele percebe
as emoções, sentimentos e pensamentos do
outro; na segunda etapa, denominada de Sintonia, ele
tenta estabelecer um vínculo com o outro concentrando
sua atenção na sua expressão corporal,
em seus sentimentos e pensamentos.
Na terceira etapa o sujeito procura o compreender os
sentimentos e pensamentos do outro, através da
Precisão Empática e, finalmente, procura
identificar os elementos componentes do meio social circundante,
para contextualizar socialmente o relacionamento, na
etapa da Cognição Social.
Para Goleman (2007) a inteligência social deve
passar da perspectiva de uma pessoa para a de duas, interagindo
em um relacionamento, e deve ser feito um esforço
para atender tanto nossos interesses e necessidades pessoais
quanto os dos outros. Desta forma, a inteligência
social terá uma perspectiva ética, pois
enriquecerá os relacionamentos com sentimentos
da empatia, compaixão e solidariedade.
Os elementos básicos dos relacionamentos devem
participar da definição de Inteligência
Social, sob pena, desta definição pecar
pela ausência dos valores humanos, o que a empobreceria
muito.
As neurociências deram grande contribuição
para a compreensão da inteligência social
ao mapear as áreas do cérebro que se ativam
durante os relacionamentos.
A inteligência social inclui aptidões cognitivas,
relacionadas com o pensamento e com a compreensão
intelectual e aptidões não cognitivas relacionadas
com as emoções e a intuição,
que, por serem automáticas, não precisam
ser pensadas para serem executadas.
Exemplo de atividade automática você tem
quando está ao volante de um carro, percebe um
barulho e desvia imediatamente o volante para o lado
oposto, sem pensar. Só depois toma conhecimento
do movimento rápido e não consciente que
fez para livrar-se do perigo.
Isto ocorre porque a velocidade dos impulsos nos neurônios
em que trafegam os estímulos conscientes é de
alguns segundos, enquanto a velocidade dos estímulos
nos neurônios que processam as emoções é de
milissegundos ou microssegundos. Isto significa que a
velocidade dos estímulos com que trafegam as informações
não conscientes é mil a um milhão
de vezes maior do que a velocidade das informações
conscientes, daí você primeiro virar o volante
para o lado e só depois perceber o movimento feito.
Goleman entende que considerar a inteligência social,
além da inteligência emocional, possibilita
uma nova maneira de pensar sobre a aptidão humana
para o relacionamento (Goleman, 2007).
COMPONENTES DA INTELIGÊNCIA SOCIAL
Goleman (2007) considera dois componentes, a consciência
social e a facilidade social. A consciência social
abrange a capacidade de sentir instantaneamente o estado
interno do outro, compreendendo seus sentimentos e pensamentos,
além das situações sociais. Tem
quatro componentes: empatia primordial, sintonia, precisão
empática e cognição social.
A empatia primordial permite a compreensão dos
sentimentos da outra pessoa. A sintonia possibilita que
a pessoa se conecte com a outra, enquanto a precisão
empática possibilita a compreensão do que
o outro sente. A cognição social permite
saber como o mundo social funciona e como resolver os
problemas sociais com os quais nos deparamos. Considerar-se
os relacionamentos sociais só numa perspectiva
cognitiva é negligenciar seu componente emocional
e deixar de lado a empatia primária e a sincronia.
A facilidade social permite utilizar os componentes da
consciência social nos relacionamentos para que
eles se tornem produtivos e eficazes. Não basta
apenas sentir o que o outro sente e saber o que ele pensa
ou pretende fazer, mas é importante utilizar estes
conhecimentos para tornar a interação social
produtiva.
A facilidade social inclui quatro elementos: sincronia,
apresentação
pessoal, influência e preocupação. A sincronia é baseada
na interação não verbal com a outra pessoa e permite que
a relação social flua naturalmente através de uma inter-relação
não verbal harmônica entre os atores sociais. Seu fundamento está na
capacidade de ler os sinais não verbais emitidos pelo outro através
de sua face, de seus olhos, de seus membros e de seu corpo.
São sinais não verbais de sincronia saber sorrir para o outro
na hora certa, balançar a cabeça em sinal de concordância
com o que ele diz ou faz ou inclinar o corpo para sua direção
na hora certa. São sinais de assincronia ficar balançando as
pernas nervosamente ou permanecer imóvel durante a interação
social.
O segundo elemento da facilidade social é a Apresentação
Pessoal, importante para causar a impressão e o impacto desejados e
relevante nas interações sociais. Influem muito em nosso relacionamento
a forma como nos apresentamos, desde a roupa e o penteado até o carisma
pessoal, que inclui a capacidade de despertar no outro as emoções
que sentimos e fazer com que ele embarque em nossas emoções,
desde o entusiasmo e alegria até à raiva e a tristeza.
Outro elemento da facilidade social é a Influência Social, a capacidade
que a pessoa tem de moldar construtivamente o resultado de uma interação
social expressando-se de forma adequada, de modo a deixar seu interlocutor à vontade.
Por fim, a Preocupação Social consiste na capacidade de sentir
as necessidades e interesses do outro e esforçar-se para ajudá-lo.
O cérebro social
O termo “cérebro social” se refere a um conjunto de circuitos
cerebrais que entra em funcionamento quando uma pessoa se relaciona com outra.
Algumas estruturas cerebrais são os caminhos neuroanatômicos da
Inteligência Social e desempenham papeis significantes nos relacionamentos,
mas não parece existir nenhuma zona mais importante que outra,nem exclusivamente
dedicada à vida social. Os neurônios cerebrais estão funcionalmente
organizados em módulos e a atividade de determinado módulo pode
reverberar em todo o sistema.
O mapeamento das zonas do cérebro ativadas durante os relacionamentos
sociais foi realizado com imagens produzidas pela ressonância magnética
funcional e pela tomografia por emissão de prótons. Estudos preliminares
permitiram identificar duas vias, a via principal e a via secundária,
cujos aspectos neurais precisam ser melhor desvendados para serem melhor conhecidas.
Segundo Goleman (2007), a “via principal” opera com o controle
voluntário, exige esforço e intenção consciente
e nela os estímulos, relacionados com a cognição e a razão,
andam com menor velocidade. A via secundária opera no automático,
com grande velocidade e não estamos conscientes de suas operações.
Está relacionada com os processos automáticos afetivos e inclui
em suas estruturas as amígdalas cerebrais, o córtex cingulado
anterior, áreas do córtex frontal e de regiões relacionadas
com o processamento das emoções.
A via principal e a via secundária funcionam em paralelo, combinando
em proporções variadas as funções automáticas
e as funções controladas pela vontade, não existindo uma
função mental que seja do âmbito exclusivo da “via
principal”.
A consciência social e a facilidade social abrangem habilidades pertencentes
a via secundária e habilidades da via secundária articuladas
com outras habilidades da via principal. A empatia e a sincronia são
habilidades relacionadas com a via secundária, enquanto a precisão
empática e a influência utilizam habilidades da via secundária
e da via principal. Há diversos testes e escalas capazes de avaliar
de forma adequada os componentes da inteligência social.
EMPATIA
A palavra empatia vem do alemão einfühlung
, significa “entrar na pele do outro” e tem
três significados: conhecer os sentimentos do outro;
sentir o que o outro sente e reagir com compaixão
ao sofrimento do outro. Na prática da empatia:
você observa o outro, sente o que ele sente e pratica
uma ação para ajudá-lo. Ela só existe
quando sintonizamos nosso cérebro, nossos sentimentos
e pensamentos com os de outra pessoa.
Na empatia há associação entre a
percepção e a ação: se você ouve
um grito de alguém que está apavorado,
sente o que ele sente, pensa no que pode estar ocorrendo
e age para ajudá-lo.
A base neural da empatia está nos neurônios-espelho, descobertos
por Rizzolati em 1996, que explicam o contágio das emoções,
porque você ri quando outras pessoas estão rindo. A descoberta
foi feita em macacos, quando Rizzolati procurava identificar neurônios
que aumentavam suas atividades ao animal estender a mão para pegar uma
banana. Num intervalo dos trabalhos um ajudante da pesquisa comia uma banana
e foi verificado que no macaco imóvel, foram ativados os neurônios
correspondentes aos que eram ativados no colaborador.
Pesquisas com ressonância magnética mostram que quando um indivíduo
pratica uma ação e outro o observa, no cérebro do observador
entram em atividade os neurônios espelhos correspondentes aos neurônios
da pessoa observada. Através dos neurônios-espelho podemos nos
projetar em outras pessoas, fazer com que eles nos imitem e experimentar seus
sentimentos, emoções e pensamentos. Pelos olhos de uma pessoa
somos capazes de saber se ela gosta ou não de nós.
Quando duas pessoas estão em sintonia, estabelece-se pelo olhar uma “comunicação
sem fio” que permite a uma intuir os pensamentos e sentimentos da outra.
Se você olha nos olhos de alguém que está com a mente tranqüila,
se sente tranqüilo também.
Os neurônios-espelho são responsáveis pelo reconhecimento
de outras pessoas, interpretação de suas ações
e expressões corporais e são muito importantes no relacionamento
social. Localizam-se nos lobos frontal inferior, parietal superior, temporal
superior, da ínsula e no córtex pré-motor.
No momento em ocorre a empatia nossas emoções e pensamentos entram
em sintonia com os da outra pessoa. Se você vê alguém triste,
chorando, em um enterro, sente o que ele sente e tem pensamentos tristes também.
Quando nos concentramos em nós mesmos eliminamos a compaixão
e a empatia, contraímos nosso mundo e avultamos nossas preocupações.
Quando voltamos a nossa atenção para os outros, aumentamos a
capacidade de conexão e sintonia, nosso mundo se expande e nossos problemas
parecem ser menos importantes.
Pesquisas indicam que a compaixão parece ser um traço comum em
diversas espécies animais e não uma característica humana.
Ratos presos em gaiolas saem em socorro de outros que sofrem. Macacos rhesus
diminuem espontaneamente sua quantidade de comida e até mesmo passam
fome para que um companheiro de jaula não sofra tomando choques elétricos
dolorosos (GOLEMAN, 2007).
Nos seres humanos a empatia é constatada entre bebês desde o nascimento,
pois eles choram quando vêm outros bebês chorando, mas não
choram quando ouvem seu próprio choro gravado. Depois dos quatorze meses,
além de chorar com o sofrimento dos outros, os bebês procuram
aliviá-los. Quanto mais desenvolvidos, mais tentam ajudar, indicando
que os seres humanos nascem bons.
A empatia primária envolve áreas cerebrais que dependem dos sentimentos
vivenciados pelo outro no momento. Pesquisas mostram que para ela existir é necessário
prestar atenção ao outro e ela é tanto mais forte quando
maior a atenção. Interferem no processo empático as prioridades
existenciais da pessoa, seu grau de socialização e diversos fatores
psicológicos e sociais. Desempenha papel importante na atenção
a memória de trabalho, que reside no córtex pré-frontal
e pode ser utilizada a qualquer momento, determinando a quais sinais devemos
prestar atenção e nos orientando para o que dizer e fazer em
uma situação.
O papel da atenção no desenvolvimento da empatia foi realçado
em pesquisa feita com seminaristas preocupados em fazer um sermão cujo
tema era o “Bom Samaritano”. Eles encontraram em seus caminhos
um homem sofrendo, gemendo e não lhe dedicaram maior atenção,
pois estavam muito preocupados com o sermão que deveriam fazer logo
depois (GOLEMAN,2007).
Para os sociólogos, as pessoas nas ruas movimentadas não dão
atenção para uma pessoa caída porque estão absorvidas
com seus problemas, no chamado “transe urbano”, que tem a finalidade
de nos auto-proteger da sobrecarga de estímulos em nossa volta. Pesquisadores
relatam que quando as pessoas param para ajudar outras que sofrem, o fazem
por sofrem junto com elas, devido à empatia.
A empatia primordial é a capacidade de sentir imediatamente as emoções
e pensamentos do outro. É intuitiva, rápida e automática,
pois mesmo sem falar, uma pessoa geralmente exterioriza suas emoções,
através de suas expressões faciais e corporais.
Foi criado um teste para avaliar a empatia primordial,
o PONS (Profile of Nonverbal Sensivity), que avalia
as leituras de sinais não verbais, fazendo a
medida do perfil de sensibilidade não verbal da pessoa. Pede-se à pessoa
para adivinhar o que acontece emocionalmente com outra, depois de assistir
por dois segundos um filme que mostra seu rosto ou corpo e de ouvir sua voz.
Os trabalhadores que se saem bem no PONS conseguem melhores avaliações
do que as de seus colegas em tarefas interpessoais. Os pacientes de médicos
que foram bem avaliados no teste se dizem mais satisfeitos com eles e os professores
mais bem avaliados são considerados mais eficientes. As pessoas melhor
avaliadas no teste são consideradas mais queridas nos seus relacionamentos.
O PONS revela que as mulheres com filhos são melhores decodificadoras
não verbais do que as da mesma idade que não têm filhos.
O CÓRTEX ÓRBITO-FRONTAL
Nos olhos, além das terminações
do nervo ótico,há fibras nervosas que dão
acesso aos sentimentos da pessoa, pois levam a uma estrutura
crucial para a empatia,a área orbito-frontal do
córtex pré-frontal. Quando os olhos de
duas pessoas se cruzam,ligam suas regiões órbito-frontais
e permitem que elas identifiquem suas emoções.
Por isso você sabe, olhando nos olhos de alguém,
se ele está triste ou alegre, com medo ou raiva,
daí os poetas dizerem que “os olhos são
os espelhos da alma”.
O córtex órbito-frontal (COF) está localizado
atrás e acima das órbitas e nele se juntam
a parte mais baixa do córtex cerebral, que é o
cérebro racional, a via principal, e as amígdalas,
parte mais elevada dos centros emocionais, a via secundária.
Há também ligação destes
centros com o tronco cerebral, que é responsável
por reações motoras automáticas.
O córtex órbito-frontal faz uma ligação
instantânea entre pensamento, sentimento e ação,
ao unir a via principal com a secundária. Através
dele podemos fazer uma avaliação social
instantânea, saber como nos sentimos em relação
a outra pessoa,como ela se sentem em relação
a nós e decidir como nos comportaremos. Ele contém
neurônios sintonizados para detectar emoções
no rosto e nos olhos das outras pessoas que nos permitem
trocar mensagens em interações sociais.
A ressonância magnética de uma mãe
de um recém nascido olhando o retrato de seu bebê,
mostra que de seu córtex órbito-frontal
se ilumina, não ocorrendo o mesmo quando ela vê o
retrato de um bebê desconhecido. O COF avalia também
o cheiro das pessoas, o que pode evocar os sentimentos
de gostar ou não gostar dela. No caso de dois
amantes que se beijam, ele além de avaliar a situação
e permitir a constatação do amor existente
entre eles, guia as duas bocas na velocidade e trajetória
certas, para que se unam sem choque.
NEURÔNIOS FUSIFORMES
Os neurônios fusiformes, recentemente descobertos,
são células especiais cujo corpo é até quatro
vezes maior do que os neurônios normais e cujos
axônios são mais longos, permitindo aos
estímulos transitarem com maior velocidade. Parecem
estar relacionados com a função psicológica
da intuição e fazem conexões entre
o COF e o córtex cingulado anterior (CCA), área
do cérebro responsável pelo direcionamento
da atenção, coordenação dos
pensamentos, emoções e reação
corporal aos sentimentos.
Quando fazemos um julgamento inicial para saber se começaremos
um namoro com alguém, grande parte da decisão
ocorre no primeiro encontro e depende dos neurônios
fusiformes, ricos em receptores de serotonina, dopamina
e vasopressina, neurotransmissores importantes na empatia,
no amor, no humor, no prazer e nas interações
sociais.
Exames realizados com ressonância magnética
mostram que as células fusiformes se concentram
numa área do córtex órbito-frontal
que fica mais iluminada durante a empatia, quando a pessoa
olha o retrato da pessoa amada, quando conhece alguém
atraente ou julga estar sendo enganado. Tais células
são abundantes numa área do córtex
cingulado anterior que tem papel importante no reconhecimento
da expressão facial das emoções,
e sabe-se que pessoas mais conscientes de uma maneira
interpessoal têm maior atividade no córtex
cingulado anterior (GOLEMAN,2007).
Uma tomada de decisão começa com a ativação
do cingulado, espalha-se pelas células fusiformes
do córtex órbito-frontal e daí para
os circuitos emocionais, onde surge um sentimento que
pode ser consciente ou não. O córtex cingulado
e o córtex órbito-frontal entram em atividade
sempre que fazemos uma escolha e atribuímos valor
a alguma coisa.
Num encontro com alguém o córtex cingulado
e o córtex órbito-frontal permitem que
façamos seu julgamento em 0,05 do segundo, enquanto
as áreas pré-frontais dão informações
sobre o contexto social e nos levam ao afastamento ou
aproximação. É grande a importância
do córtex órbito-frontal nas interações
sociais, pois ele orienta nossas ações
dando informações para que nos comportemos
de forma adequada.
SINTONIA
Na sintonia há conexão com a outra pessoa
e só existirá se for dedicada atenção
a ela. Quando há sintonia, a pessoa é ouvida
atentamente, procuramos entendê-la e o que dizemos
leva em conta o que ela sente, diz e faz.
Podemos melhorar nossa capacidade de sintonizar dando
mais atenção às outras pessoas e
ouvindo-as pacientemente, tentando sintonizar e compreender
suas emoções e sentimentos. Resulta um
diálogo que pode atender às necessidades
de ambos, cada um falando o que sente.
Pesquisa mostra que quanto maior é a atenção,
maior a sintonia com o outro. Um bebê de dois meses,
para sintonizar com a mãe que se aproxima, fica
quieto, acalma a respiração, se volta para
sua direção e olha para seus olhos e lábios,
atento ao que ela diz ou faz.
Os melhores líderes, professores e gerentes têm
grande capacidade de ouvir. A sintonia aumenta ao fazer
perguntas para entender melhor a situação
e sem ela qualquer relacionamento tende a extinguir-se,
por falta de conexão das pessoas.
PRECISÃO EMPÁTICA
A precisão empática possibilita a compreensão
do que a outra pessoa pensa e sente e é um avanço
em relação à empatia primordial,
pois além de contatar com os sentimentos e pensamentos
do outro, você procura compreendê-los. É uma
habilidade cognitiva que envolve circuitos da via primária
do neocórtex cerebral, especialmente os localizados
nas áreas pré-frontais. Enquanto a empatia
primordial é de natureza emocional e relacionada
com a via secundária, a precisão empática é emocional
e cognitiva, envolvendo ambas as vias. Elas se completam.
A precisão empática parece ser um dos segredos
do sucesso de um casamento, principalmente nos seus primeiros
anos. Pesquisa realizada com casais mais precisos na
leitura dos parceiros, mostraram que entre eles há níveis
mais elevados de satisfação, tendendo o
casamento a durar mais (GOLEMAN, 2007).
Na precisão empática, para sentir e entender
o que outra pessoa sente, utilizamos os mesmos circuitos
cerebrais que usamos em nossa própria experiência.
Quando uma pessoa imita a expressão facial de
felicidade, raiva ou medo de outra, isto gera nela própria
a mesma emoção e ficam ativos os mesmos
circuitos cerebrais que são ativados quando ela
sente espontaneamente a emoção.
COGNIÇÃO SOCIAL
A cognição social é o conhecimento
de como o mundo social funciona. A pessoa competente
em cognição social sabe o que esperar de
uma situação e a maneira certa de se comportar
nela. Sabe interpretar os sinais sociais de um grupo
e localizar onde está o poder em uma organização.
Uma manifestação de cognição
social está na capacidade de encontrar soluções
adequadas para problemas sociais do tipo como fazer amigos
e como organizar uma mesa em que inimigos vão
se sentar.
As habilidades da consciência social interagem
entre si: a precisão empática se baseia
na capacidade de ouvir e na empatia primordial e todas
três citadas anteriormente ampliam a cognição
social, enquanto a adequada percepção interpessoal é o
alicerce para a facilidade emocional. Para navegar no
mundo interpessoal e compreender os acontecimentos sociais é fundamental
uma boa cognição social, principalmente
na interação com outras culturas, devido
a seus ritos e normas diferentes.
SINCRONIA
A sincronia entre os movimentos e expressões
corporais de duas pessoas que interagem cria uma harmonia
no relacionamento e esta conexão é fundamental
para seu sucesso. A sincronia inconsciente entre os corpos
de duas pessoas permite à interação
fluir naturalmente, através da comunicação
não verbal.
As pessoas que sofrem de “dissemia”, incapacidade
de ler os sinais não verbais do interlocutor,
têm problemas sociais e em crianças pode
levar à rejeição social. Nestas
pessoas, as expressões faciais não correspondem
aos sentimentos e elas perdem a capacidade de perceber
os sentimento do outro.
A dissemia se manifesta nos adultos como incapacidade
de seguir pistas não verbais no relacionamento
e isto pode levar ao isolamento social, podendo decorrer
de trauma emocional e ocorrer sem déficits neurológicos,
como no autismo.
APRESENTAÇÃO PESSOAL
Na apresentação pessoal, o vestuário
da pessoa deve ser compatível com a situação
social: numa cerimônia, ela deve vestir-se de forma
adequada, com terno e gravata se for o vaso e não
com um short e uma camisa feita para prática de
exercícios físicos.
Um dos aspectos da apresentação pessoal
inclui a capacidade de comunicar suas emoções.
Um dos fatores do sucesso do grande líder ou palestrante é a
facilidade de transmitir suas emoções e
entusiasmar os ouvintes, fazendo com que eles entrem
em sintonia. Um dos segredos é a utilização
da sua voz, aumentando ou diminuindo de ritmo e de intensidade,
permitindo assim a transmissão das emoções.
Outro segredo está em saber controlar a expressão
das emoções de modo a atender às
normas sociais da cultura, que devem ser observadas.
Se a cultura não valoriza a expressão de
emoções nos locais de trabalho, esta regra
deve ser respeitada.
INFLUÊNCIA E PREOCUPAÇÃO
A influência é a capacidade de obter bons
resultados numa interação social, utilizando-se
o tato e o auto-controle. Deve-se fazer com que o interlocutor
sinta-se à vontade e uma forma de conseguir isso é expressar
suas emoções, o que causa boa impressão
ao interlocutor e o deixa mais cômodo.
Uma boa cognição social é importante
para a influência, assim como ter a capacidade
de adequar a expressão das emoções à situação.
Dosar adequadamente a expressão corporal e facial,
a intensidade e o tom da voz e ser discreto socialmente
são condutas úteis em qualquer contexto,
para evitar reações inconvenientes.
A preocupação reflete a capacidade de compaixão
da pessoa. É conseqüência da empatia,
pois sentir as necessidades do outro serve de estímulo à ação
para ajudá-lo. Pessoas mais sensíveis ao
sofrimento alheio mobilizam-se mais para ajudar. Pesquisas
sugerem que estimular a atenção e a preocupação
das crianças para as necessidades alheias pode
ser eficaz para aumentar a compaixão nelas (GOLEMAN,
2007).
EDUCAÇÃO DA VIA SECUNDÁRIA
Ekman (2008) desenvolveu uma técnica, denominada
de Micro Expression Trainig Tool (METT), para ensinar
as pessoas a melhorar a empatia primordial. É baseada
nas microexpressões faciais da pessoa observada,
que levam cerca de 1/3 do segundo para desaparecer da
face e dão uma pista de como ela se sente naquele
momento.
Elaborou um CD para treinamento que leva menos de 1 hora
onde são apresentados os rostos de pessoas com
expressões neutras ou de raiva, medo, felicidade,
tristeza, surpresa, nojo ou desprezo. O observador tenta
identificar a emoção em cada expressão
apresentada, primeiro com a velocidade de 1/15 do segundo,
depois com velocidades de até 1/30 do segundo,
sucedidas por imagens congeladas para permitir ver melhor
cada expressão e também a avaliação
de todas as tentativas feitas.
Segundo Ekman a maioria das pessoas acerta de 40 a 50%
na primeira tentativa e depois de 20 minutos de treinamento
acerta de 80 a 90%. Quanto mais treinar, maior o acerto.
Isto mostra que os circuitos nervosos da via secundária
podem aprender, desde que submetidos a um treinamento
adequado.
Doux conta que, no início do século XX,
um neurologista fez um experimento com uma portadora
de amnésia grave a ponto do médico ter
de se reapresentar em cada consulta. O médico
escondeu uma tachinha na sua mão, estendeu-a para
a mulher e apertou sua mão, ferindo-a. Saiu e
voltou pouco depois, perguntando-lhe se ela o conhecia,
e recebeu como resposta um não. Em seguida o médico
estendeu a mão para apertar a da paciente, mas
ela se recusou a apertá-la, numa evidência
de que se lembrava da dor que sentira há pouco.
A causa da amnésia da paciente era uma lesão
da via principal, no lobo temporal e por isto os fatos
relacionados com a cognição eram esquecidos.
Como a via secundária da paciente, a amígdala,
estava intacta, ela guardou a lembrança da dor
produzida pela tachinha, por isto se negou a apertar
a mão do médico novamente.
* Médico, Professor de Medicina, Pedagogo, Especialista
em Educação, autor de diversos livros e
trabalhos sobre Educação das Emoções
REFERÊNCIAS
ALBRECHT, K. Inteligência Social, A Nova Ciência
do Sucesso. São Paulo: M.Books, 2006.
DAMÁSIO, A. O mistério da Consciência.
São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
________, Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência
dos sentimentos. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
EKMAN,P. www.paulekman.com/ , consultado em 10/10/2008
GARDNER, H. Inteligência, um Conceito Reformulado.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
GOLEMAN, D., Inteligência Social, o Poder das Relações
Humanas. Rio de Janeiro: Campus, 2007.
SANTOS, J. O., Educação Emocional na Escola – a
Emoção na Sala de Aula, 2 ed., Salvador:
Faculdade Castro Alves, 2000.
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