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CONSEQÜÊNCIA SOCIAL

Mariângela Cruz Corrêa de Menezes*

O presente texto tem como proposição realizar uma síntese dos capítulos 19, 20 e 21, bem como os apêndices A e B do livro Inteligência Social: o poder das relações humanas, do autor Daniel Goleman, publicado em 2006.

Neste livro o autor parte do pressuposto de que o ser humano foi programado para a sociabilidade e que as conexões estabelecidas com as pessoas à nossa volta são capazes de moldar nosso comportamento e nossa biologia, causando impactos benéficos ou tóxicos a nossa saúde, a depender da sua qualidade.

O segredo do sucesso

Nos capítulos analisados, Goleman inicia sua argumentação descrevendo os prejuízos que o desgaste – estado neural em que ondas emocionais prejudicam o funcionamento do centro executivo do cérebro - causa às pessoas, não lhes permitindo concentrar-se nem pensar com clareza.

Este estado neural, que normalmente ocorre em momentos de stress, prepara nosso organismo para a crise, acionando conexões neurais que partem da amígdala (via secundária) ao lado direito do córtex pré-frontal, fazendo com que nossos pensamentos se fixem no que desencadeou a aflição, reduzindo nossa agilidade mental e acabando por caracterizar uma disfunção cognitiva, ou seja, limitada capacidade para aprender, manter informações na memória de trabalho, reagir com flexibilidade e criatividade, concentrar a atenção, planejar e organizar. Além disto, a tristeza reduz os níveis de atividade no córtex pré-frontal, gerando menos pensamentos.

Para Antonio Damásio, neurocientista da University of Sounthern California, citado por Goleman, os momentos de alegria representam a “coordenação psicológica ideal e execução estável das operações da vida”. Esse cientista argumenta que os momentos de alegria além de nos permitirem sobreviver às dificuldades diárias, possibilitam florescer, viver bem e nos sentirmos bem.

Estudos de imagem mostram que pessoas em estados alegres e positivos apresentam maior atividade na área do córtex pré-frontal (o centro da via principal), o que melhora as habilidades mentais como pensamento criativo, flexibilidade cognitiva e processamento de informações.

Para Goleman, um “U” invertido representa a relação entre adequação mental /desempenho e o espectro de humores: nas extremidades inferiores o tédio (baixo stress) ou ansiedade (alto stress) levam a um baixo desempenho, enquanto o ápice representa o ponto máximo do desempenho cognitivo – motivação e concentração alcançam seu pico, na interseção da dificuldade de uma tarefa e nossa capacidade de responder às expectativas para sua realização.

O “U” invertido reflete o impacto de dois sistemas neurais diferentes sobre o aprendizado e o desempenho: níveis saudáveis de cortisol energizam e melhoram o aprendizado; níveis altos de cortisol e noropinefrina (associado ao medo absoluto) interferem na operação normal dos mecanismos neurais do aprendizado e da memória.

Medos sociais prejudicam imensamente os mecanismos cerebrais do aprendizado, entretanto o ponto do “U” invertido em que o estímulo se transforma em sobrecarga difere de pessoa para pessoa.

Quanto maior for o stress mais se amplia a função da amígdala, que assume de forma automática, inconsciente, o controle durante as situações de pressão extrema e mais se debilitam as áreas pré-frontais (a via principal se sai melhor com níveis moderados de stress).

Segundo o autor, o hipocampo, próximo à amígdala, é nosso órgão central de aprendizado e permite converter a “memória de trabalho” em uma forma de longo prazo, para armazenamento. Entretanto, o hipocampo é vulnerável à aflição emocional contínua, devido aos efeitos prejudiciais do cortisol, que efetuam uma matança dos neurônios.

Dado o efeito das emoções no desempenho, a tarefa emocional de professores e líderes é uma só: ajudar as pessoas a alcançar e a se manter o mais perto possível da parte superior do “U” invertido.

As demonstrações de insatisfação de um líder utilizam o contágio emocional, o que chama nossa atenção para o poder surpreendente do seu tom emocional. Um líder socialmente inteligente ajuda as pessoas a se conterem e se recuperarem da aflição emocional.Um grupo coeso, com um líder seguro e que promova segurança, cria um ambiente emocional que tende a ser tão contagiante que até as pessoas muito ansiosas sentem-se relaxadas.A liderança socialmente inteligente envolve empatia, dedicação, sincronia e comprometimento.

Vínculos emocionais entre alunos e pessoas da escola também contribuem para melhora do desempenho. Professores emocionalmente conectados oferecem uma base segura para que os estudantes dêem o melhor de si. Programas de aprendizado social/emocional, envolvendo o desenvolvimento de habilidades como auto-conhecimento, controle das emoções e desenvolvimento de relacionamentos, permitem que o aluno amplie sua capacidade de alcançar a zona ideal do aprendizado.

O corretivo da conexão

O autor também chama atenção para os efeitos positivos que as conexões sociais são capazes de proporcionar até nas situações que exigem uma ação corretiva drástica, como no caso de pessoas em sistema carcerário.

As prisões destinadas a jovens tornam-se uma parada aparentemente inevitável para vidas problemáticas. As lições neurais aprendidas quando se está preso em um universo Eu-Isso são as piores. A sobrevivência exige uma amígdala preparada para a hipervigilância paranóica, além de um distanciamento emocional ou a total desconfiança e prontidão para a luta (estímulo aos instintos criminosos).

Para o autor, em vez de utilizar abordagens que simplesmente estimulam mais criminalidade, poderíamos aproveitar o que “correção” significa do ponto de vista da neuroplasticidade social, a formação de circuitos cerebrais por meio de interações benéficas.

O segredo neural do autocontrole é a rede de neurônios no córtex orbitofrontal (COF), capaz de inibir os impulsos da raiva da amígdala. Deficit no COF levam à brutalidade. Um padrão normal subjacente a essa violência parece ser a subativação dos lóbulos frontais, muitas vezes devido a lesões ocasionadas por violências. Esse déficit centraliza-se no circuito que vai do COF à amígdala – a linha neural que forma o freio do cérebro para compulsões destrutivas.

Esse circuito continua a crescer e a ser formado até uns 25 anos. Talvez a maior oportunidade perdida no sistema penal tenha sido a de não tratar adequadamente os prisioneiros mais jovens, que ainda estão na fase em que o cérebro social ainda apresenta certa plasticidade.

O autor relata estudo de 10 anos, feito pelo psiquiatra Felton Earls, de Harvard, que correlaciona envolvimento da comunidade e criminalidade e constata duas causas principais no índice de criminalidade de um bairro: altas taxas de pobreza (associadas às vezes ao analfabetismo) e o grau de conexão entre as pessoas da comunidade.

A mistura de pobreza e desconexão, em conjunto, exerce uma influência mais forte sobre os índices de criminalidade da área do que os fatores normalmente citados, como raça, herança étnica ou estrutura familiar.

Cita alguns exemplos benéficos da conexão, como Missouri – uma rede de lares para adolescentes problemáticos – com 12 adolescentes e um pequeno grupo de administradores, onde atividades em equipe e acompanhamento diário criam um clima de camaradagem e confiança, fundamental para a mudança do comportamento. Nesta experiência, um coordenador pós-libertação e um monitor auxiliam na reinserção à comunidade; e Kalamazoo – que desenvolveu um programa – piloto especial para prisioneiros que se comprometem a mudar de vida – celas especiais, aulas diárias sobre tópicos como estabelecer ações baseadas em “pensamento criativo, pensamento negativo e nenhum pensamento”, onde aprendem a controlar a raiva em um mundo social onde a violência e a força determinam o lugar de um indivíduo na hierarquia do pátio da prisão; também nessa experiência utiliza-se a terapia multissistêmica no retorno à casa - lista do que “funciona” (alfabetização , um emprego que o ajude a ser responsável por si mesmo etc).

Eles e Nós

Goleman fala um pouco das raízes da desconexão, quando diz que o Nós-Eles reafirma o Eu-Isso no plural: a dinâmica subjacente é uma só (“o mundo está dividido em dois: os filhos da luz e os filhos das trevas, as ovelhas e as cabras, o eleito e o condenado”). A relação entre um de Nós e um Deles carece, por definição, de empatia e ainda, mais sintonia.

O autor diz que enfrentamos os desafios da vida em uma civilização global com um cérebro que nos liga primordialmente à nossa tribo. Para ele,quando os outros são colocados numa distância psicológica, podem tornar-se alvo para a hostilidade; esse processo é a corrupção de uma função cognitiva normal: a categorização (necessária para atribuir ordem e significado ao mundo à nossa volta).

Assim que um viés negativo se instala, nossas lentes se embaçam; nesses casos utilizamos preconceitos e estereótipos, acumulamos emoções como medo e raiva , chegando a uma hostilidade ativa; a área pré-frontal torna-se incapacitada, à medida que a via secundária ( a amígdala) assume o controle da principal.

Antes os psicólogos viam as categorias mentais inconscientes como algo fixo; hoje pesquisas mostram que os estereótipos e preconceitos automáticos são fluidos – as tendenciosidades implícitas não refletem os “verdadeiros” sentimentos de uma pessoa e podem mudar.

A amígdala aprende continuamente e por isso, não precisa ficar presa a um viés; métodos revelam-se capazes de reduzir as tendenciosidades implícitas: informação sobre a existência de um teste para medi-las, exposição a um ambiente social no qual uma idéia preconceituosa esteja “fora de moda” etc.

Quando as pessoas falam sobre suas atitudes tolerantes, a área pré-frontal é ativada e a amígdala se acalma; à medida que a via principal segue um caminho positivo, a via secundária perde seu poder de provocar tendenciosidades.

Goleman cita Thomas Pettigrew, psicólogo social, que examinou 512 estudos realizados entre 1940 e 2000 sobre que tipos de contato mudam as opiniões que grupos hostis têm entre si, concluindo que os envolvimentos emocionais entre os indivíduos de cada lado de uma divisão hostil, fazem as pessoas aceitarem muito mais um grupo adversário; o requisito para se superar um preconceito é uma forte conexão emocional.Com o tempo, a cordialidade que um sente em relação ao outro se generaliza para todos os Eles.

Com relação aos estereótipos, Pettigrew argumenta que importa menos do que as emoções associadas a ele; mesmo depois que grupos hostis criam amizades, parte dos estereótipos originais permanece, mas como as emoções mudaram, o comportamento também muda.

Para Goleman, o problema da desconexão aflige o mundo social dos estudantes; a rejeição social pode destruir o desempenho acadêmico, debilitando a “memória de trabalho” e reduzindo o aprendizado. Cita o trabalho do psicólogo Elliot Aronson, que aceitou o desafio de ajudar alunos a se conectar de maneiras mais saudáveis.Elliot percebeu que pessoas de grupos hostis quando trabalham juntas por um objetivo comum, acabam gostando umas das outras; implantou uma sala de aula quebra-cabeça, onde alunos trabalhavam em grupo para resolver uma tarefa sobre a qual seriam testados, o que encorajava o saber ouvir, o respeito e a cooperação.
O autor acredita que apegar-se ao ódio e aos ressentimentos acarreta graves conseqüências biológicas e psicológicas; um antídoto é o perdão - significa encontrar uma maneira de liberar a si mesmo das garras da obsessão com a ferida.

Para Staub, outro psicólogo citado por Goleman, há uma distinção entre o perdão e a reconciliação, que é a revisão honesta da opressão e os esforços para corrigir a situação.

A via principal e a via secundária

Por fim, esclarece que a via secundária opera no automático, sem que estejamos conscientes, e em grande velocidade; a via principal opera com controle voluntário, exige esforço e intenção consciente e menor velocidade.
Esses sistemas funcionam em paralelo, combinando funções automáticas e controladas em proporções variadas; parece que os processos automáticos da via secundária seriam o padrão do cérebro operando no dia a dia; já a via principal entra em ação quando esses processos automáticos são interrompidos por uma acontecimento inesperado, por engano etc; se a direcionarmos, a via principal pode sobrepor-se à secundária, sem limites – o que nos permite fazer escolhas na vida.

O cérebro social

Segundo Goleman, o cérebro social parece ser um dos mecanismos adaptativos da natureza para enfrentar o desafio de viver como parte de um grupo; em realidade, o circuito de uma determinada tarefa mental não está localizado em um lugar, mas sim distribuído pelo cérebro; as zonas do cérebro se conectam com uma complexidade estonteante; o cérebro social - extensos módulos neurais que orquestram nossas atividades ao nos relacionarmos com outras pessoas – abrange o cérebro como um todo.

Quanto mais complicada for a interação social, mais complexas e interconectadas as redes de neurônios ativadas.Em suma, diversos circuitos e locais têm sua função no cérebro social – um território neural onde mal se começou a mapear em detalhes.

Enquanto as neurociências tentam desvendar a trama da neurologia da vida social, podemos desenvolver alternativas cotidianas para ampliar nossa inteligência social, de modo a tornar nossa vida mais produtiva e significativa.

*Profa. de Educação das Emoções da faculdade castro Alves

REFERÊNCIA

GOLEMAN, Daniel.Inteligência Social: o poder nas relações humanas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.



 

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Sexta-feira, 18/05/2012.

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